Fanfiction, a ferramenta de leitura e escrita do futuro

Por Alessandra Baldessar

O termo fanfiction (por vezes, estilizado como fanfic ou apenas fic) vem do inglês e é traduzido literalmente como “ficção de fã”. Esses fãs, denominados de ficwriters (escritores de fic), escrevem histórias sem caráter comercial ou lucrativo, geralmente a partir de tramas ou situações preexistentes, e as publicam em plataformas online de leitura ou mesmo em suas próprias redes sociais. Para Rodrigo Lessa, pesquisador de narrativas transmídias e Doutor e Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), o que leva alguém a ler e/ou escrever uma fanfiction é o prazer da leitura e a satisfação em ver seus personagens queridos em novas aventuras, diferentes daquelas vistas nos produtos midiáticos.

Para Amanda Mota, fanfic é como fugir da realidade. Foto: Arquivo Pessoal

“A gente parte do pressuposto de que, para um fã, os episódios de uma série, os capítulos de uma telenovela, as continuações de uma saga cinematográfica, etc., não são suficientes para satisfazer seu desejo por histórias relacionadas a estes mundos ficcionais”, explica. “Busca-se então, nas fanfictions, opções para continuar o consumo cultural relacionado aos objetos de adoração”, completa o pesquisador Rodrigo Lessa.

“Existe a conexão, mesmo que indireta, do fã com o ídolo”, expressa Lorena Oliveira, 25, estudante de Psicologia e autora de três fanfics do BTS (grupo de K-Pop) que, juntas, somam quase 400 mil visualizações no Wattpad. “A partir do momento em que você escreve sobre ele, está colocando para fora a forma como o vê, como acha que ele age ou as decisões que tomaria. Quando você está lendo, se sente mais próxima, como se fosse uma amiga, um parente, um companheiro”, afirma. A escritora também conta que, nos livros normais, é preciso formular totalmente um personagem e criar características a partir do que se lê, suprimindo esse sentimento de familiaridade. “A fanfic é sempre mais realista, pois já sabemos de quem estamos falando”, conta.

Para Amanda Mota, 20, estudante de Moda, a vantagem da fanfiction é exatamente o contrário. “Eu vejo mais como uma maneira de escapar da realidade, e acho que, para quem escreve, é uma maneira de desabafar”, diz. “Toda vez que eu tento escrever, percebo que os personagens tem características minhas e de pessoas que eu conheço, vivendo histórias que eu queria poder viver. Então, talvez, eu considere como uma forma de resistência, já que ali estamos escrevendo quem somos e o que queremos para nós. É uma maneira de desafiar nossa realidade”, relata a estudante.

“Eu vejo mais como uma maneira de escapar da realidade, e acho que, para quem escreve, é uma maneira de desabafar” (Amanda Mota)

Resistência

Os portais mais populares do mundo para fanfics.

Mas como uma simples ficção de fã poderia ser, de fato, uma forma de resistência? “Diversas leituras e pesquisas que fiz me apontaram que a grande maioria das pessoas que escrevem fanfics é de mulheres ou de usuários que se identificam no feminino”, esclarece o doutor Rodrigo Lessa. “Nas vezes em que me deparei com pesquisa quantitativa de fanfics de telenovelas brasileiras ou da série ‘True Blood’, era raro encontrar usuários que indicassem tratar-se de alguém do sexo masculino. Não é que não existam homens escrevendo fanfics, mas o ponto é que eles não se destacam de forma nenhuma dentro do grande escopo de mulheres escrevendo”, afirma.

Portanto, a fanfiction também pode ser entendida como um fenômeno de histórias feitas por mulheres, para mulheres. Segundo o pesquisador, é essa a impressão que a pesquisa acadêmica indica sobre o fenômeno, mas que é muito difícil quantificar com exatidão. De acordo com Rodrigo Lessa, alguns estudiosos de narrativas transmídias relacionam a predominância feminina nas fanfictions com o fato de o mercado editorial ser dominado por escritores do sexo masculino. Em contraste com a falta de histórias em circulação comercial escrita por mulheres, o formato torna-se, consequentemente, um modo de resistir ao patriarcado literário.

Outro motivo para fãs recorrerem a ficções próprias é a carência de diversidade nas narrativas dos produtos culturais contemplados. “Existem muitas fanfictions que contam histórias sobre casais LGBT, por exemplo, mesmo quando os personagens originais das séries, novelas, filmes etc, não são LGBT. Isso nos mostra que, se a indústria cultural não oferta o que o público quer ver, na intensidade e no grau desejados pelos fãs, as fanfictions crescem para apaziguar e satisfazer essas vontades”, relata Lessa. Neste sentido, o doutor em Comunicação e Cultura Contemporânea vê uma forma de resistência frente à comunicação de massa.

Print da página inicial do Wattpad (www.wattpad.com), uma das maiores plataformas online para postagem de fanfictions e histórias originais. Foto: Reprodução

Logo ao ser questionada sobre o que não encontrava nos livros normais, Maria Vitória Cordeiro, 18, estudante de Ciências Biológicas, mencionou a representatividade LGBT nas fanfics. “Eu sempre gostei muito de ler livros de fantasia, distopia, entre outros gêneros, mas nunca cheguei a ler algum livro que o personagem principal fosse LGBT e/ou o casal principal da história não fosse hétero”, relata.

Alexandra Esteves, 18, estudante de Psicologia e, como Lorena, autora de fanfics do BTS, também salienta essa importância. “Muitos autores usam essa plataforma para abordar temas importantes e ajudar a quebrar alguns tabus, dando uma nova visão sobre determinados assuntos”, afirma. “Dá para aprender bastante coisa lendo e escrevendo fanfictions”, completa.

O ingresso no mercado mainstream

A chegada de forças como a saga Harry Potter, de J.K. Rowling, na cultura pop antecedeu o crescimento astronômico da quantidade de fanfictions nos últimos anos. Somente em 2015, segundo dados do blog de analítica Toasty Stats, pelo menos uma dúzia de fandoms (termo utilizado para se referir a uma subcultura composta por fãs que compartilham um interesse comum) produziu, individualmente, mais de 10 mil trabalhos de ficção. O fandom da série televisiva Supernatural, por exemplo, publicou mais de 35 mil arquivos, ficando em primeiro lugar na pesquisa.

Fonte: Toastystats/Tumblr.

O sucesso de algumas fanfictions na rede acabou gerando interesse de editoras pelos ficwriters. O maior exemplo, hoje, de ficções de fãs que se tornaram trabalhos originais para abranger o mercado literário é “Cinquenta Tons de Cinza”, livro de EL James que marca o começo de uma trilogia (“Cinquenta Tons Mais Escuros” e “Cinquentas Tons de Liberdade”) acerca do relacionamento conturbado (e  sadomasoquista) entre uma graduanda em Jornalismo, Anastasia Steele, e um jovem magnata dos negócios, Christian Grey.

“Cinquenta Tons de Cinza”: livro e filme. Foto: Divulgação.

“Cinquenta Tons de Cinza”, antes chamado de “Mestre do Universo”, era uma fanfic da saga Crepúsculo, de Stephenie Meyer, na qual Anastasia era a protagonista Bella Swan e Christian, o vampiro Edward Cullen – os nomes originais e elementos sobrenaturais foram removidos para que não infringissem os direitos autorais da obra original. Aconteceu o mesmo com a série de livros “Os Instrumentos Mortais”, antes idealizada como uma fanfic de Harry Potter.

Ambos foram adaptados para o cinema, embora “Os Instrumentos Mortais: Cidade dos Ossos” (2013) não tenha sido um sucesso de bilheteria como “Cinquenta Tons de Cinza”, que arrecadou 38 milhões de dólares somente na estreia nos EUA, em 2015. Em fevereiro deste ano, foi lançado “Cinquenta Tons de Liberdade”, a última adaptação da franquia. Ainda, “Shadowhunters”, uma série de TV da Netflix baseada em “Os Instrumentos Mortais”, estreou na plataforma em 2016 e continua até hoje.

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