O medo que vira dependência

Por Letícia Serpa

O transtorno ansioso é algo que afeta a maior parte da população, segundo o Instituto Paulista de Déficit de Atenção. Quando generalizado, pode ocasionar síndromes diversas, sendo uma das mais recorrentes a síndrome do pânico. Este tipo de fobia consiste em uma sequência de ataques que podem surgir a partir de crises de ansiedade acumuladas. “Os ataques de pânico abrangem os ataques de ansiedade. A mesma coisa não acontece com os ataques de ansiedade em relação aos de pânico. Eles não necessariamente possuem ligação”, é o que explica a doutora em psicologia, especializada em psicoterapia psicanalítica e professora da Universidade Estadual do Ceará (UECE), Alessandra Xavier, 46.

Alessandra Xavier, 46, psicóloga. Foto: arquivo pessoal

Contudo, a síndrome gerada pode se manifestar em diversos cenários da vida social do indivíduo como, por exemplo, na direção de veículos. A amaxofobia, uma vertente do pânico de dirigir, está relacionada diretamente com os transtornos de ansiedade, com o nervosismo, a insegurança e com o medo de machucar alguém na hora da direção. “Isso geralmente ocorre com pessoas muito exigentes consigo mesmas, ou que não gostam de receber críticas, têm a sensação de que não podem falhar”, detalha a profissional.

Mas, o que exatamente seria o pânico de dirigir? Segundo a psicóloga, é muito comum acontecer com a amaxofobia o mesmo que costuma ocorrer com o transtorno de ansiedade. Grande parte das pessoas entende ser algo que acontece em algum momento, por alguma causa aparente e pode logo ser resolvido. Porém, a síndrome consiste em um quadro grave de limitação constante. “A pessoa paralisa só de pensar em pegar no volante ou sair de casa, costuma suar frio, e isso começa a trazer prejuízos para sua vida social, o que acarreta em sentimentos de vergonha e de fracasso”, esclarece.

“A pessoa paralisa só de pensar em pegar no volante ou sair de casa, costuma suar frio, e isso começa a trazer prejuízos para sua vida social, o que acarreta em sentimentos de vergonha e de fracasso” (Alessandra Xavier)

Como o pânico pode surgir

“Eu sempre fui muito insegura, sempre imaginava um acidente provocado por mim e tinha medo de pensar em bater o carro, atropelar alguém na faixa de pedestre, o carro morrer em pleno trânsito, levar buzinadas ou ser xingada”. Este é o sentimento da maioria das pessoas que sofrem com a síndrome. O relato acima é da psicóloga Karol Nobre, 37, que sofre com o medo da direção há algum tempo.

Karol sempre se considerou uma pessoa ansiosa, porém o pânico surgiu em sua vida uma semana depois de adquirir a carteira de motorista, quando foi morar em Portugal com a família. Esta mudança repentina acarretou no medo constante de dirigir. “Quando a minha filha começou a estudar, íamos a pé [para a escola] em pleno inverno o que causava a revolta de algumas amigas, pois sabiam que eu mantinha o carro na garagem. Agora, estou criando coragem de ir até ao supermercado, mas o medo ainda é grande”, conta. E diz que já melhorou o aspecto de ter pensamentos negativos. “Eles já não me dominam tanto. Mas eu não vejo a hora de enfrentar tudo e me libertar”, fala.

Ritta de Cássia Carvalho, 44, professora. Foto: Arquivo Pessoal

Outra forma do pânico surgir é a partir de um acidente traumático que a pessoa  sofreu e não conseguiu superar. É o caso da professora Ritta de Cássia Carvalho, 44, que se envolveu numa colisão entre carros quando ainda era adolescente e, até pouco tempo atrás, mesmo tirando a carteira de motorista, ainda sofria com o pânico na hora de pegar no volante. “Não sou  uma pessoa ansiosa. Mas o pânico em dirigir parecia ser incontrolável. A ideia de assumir o volante fazia o meu coração disparar, as mãos suarem e as pernas tremerem”, assume.

Hoje em dia, Ritta conseguiu superar o medo e adquirir a independência que sempre desejou, porém ainda tem a constante aflição de estar presente em algum acidente de trânsito. “Dirigir era conquistar uma liberdade de ir e vir sem depender de alguém, mas me tornei refém do medo. Tinha muita insegurança e acreditava que não poderia dominá-la e que sofreria um acidente. Atualmente dirijo, pois consegui superar e controlar os meus medos. Aprendi a dominar o carro, a entender seu funcionamento e a lidar com as inseguranças no trânsito. Mas o pensamento negativo de me envolver em um acidente ainda permanece”, narra.

 

“Dirigir era conquistar uma liberdade de ir e vir sem depender de alguém, mas me tornei refém do medo. Tinha muita insegurança e acreditava que não poderia dominar o medo e que sofreria um acidente” (Ritta de Cássia)

Métodos de tratamento

A psicóloga Alessandra Xavier afirma que o processo para tratar esses medos não é simples e exige paciência. Além de uma série de etapas a serem acompanhadas por um profissional adequado da área de saúde mental. Ela cita alguns métodos que podem auxiliar a pessoa a desenvolver recursos para ampliar a sensação de autocontrole. “Uma das estratégias bastante trabalhadas é o desenvolvimento do controle da respiração. Muitas vezes, a pessoa ansiosa costuma respirar muito rápido e de forma incorreta. Então, essa estratégia de respiração dá a capacidade de a pessoa se acalmar e, consequentemente, ir adquirindo novamente o autocontrole”, explica.

Para alguns casos de pânico extremo, em que a pessoa não consegue sequer pensar em dirigir, são feitos exercícios ainda mais delicados e precisos. “Outras estratégias utilizadas são os exercícios de aproximação com o carro. Às vezes, a pessoa, ao chegar mais perto do veículo, vê o que está provocando o pânico e a ansiedade. Em algumas situações, é preciso ficar um certo período só entrando no carro e passando a chave, até a pessoa conseguir fazer pequenos percursos com pouco trânsito e pouca movimentação, às vezes, até acompanhada de alguém”, explica.

 

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