“Isso é tão Almodóvar!”

Por Levi Aguiar

Os palestrantes Breno Lira Gomes, Janaina Marques e Deydiane Piaff. Foto: Levi Aguiar

“O que existe em você que é louco e caótico?”. Essas foram algumas palavras dos debatedores da mostra “El Deseo – O Apaixonante Cinema de Pedro Almodóvar”, para falar sobre o diretor e o seu destaque na construção de personagens ligados às figuras de mães, mulheres, travestis e gays; a retratação da histeria e da loucura, além da naturalização dos desejos humanos. O debate se iniciou no começo da noite da última terça (8) e tinha como palestrante o jornalista Breno Lira Gomes, a diretora e roteirista Janaina Marques e a Drag Queen Deydiane Piaff, do Coletivo As Travestidas.

A artista Drag Queen entrou no evento performando a música Maria la del Barrio. Ela vestia um macacão vermelho e a maquiagem para compor a personagem. Quando questionado sobre o que ela era quando estava montada, respondeu, “sou um palhaço do futuro”. Disse também que seu filme preferido do cineasta espanhol é “Kika”. Justificando sua paixão pelo diretor, Deydiane relatou que ele não traz a imagem da travesti ou do gay de forma caricata, mas sim, de maneira natural. Isso gera representação e reconhecimento por parte das pessoas que o assistem, não apenas para os LGBT+, mas para as pessoas que sentem desejos. Porque, em seus filmes, os desejos humanos são naturalizados. A expressão “Isso é tão Almodóvar” surgiu porque, como disse Deydiane, o diretor e seus personagens são muito característicos e representam um referencial para muitas pessoas.  

 

Com muita empolgação para retratar o diretor, os debatedores concordaram que há, por parte de Almodóvar, um interesse pelas vontades humanas. “O barulho de sua mãe se masturbando no outro quarto era interessante para ele”, relata Breno. “E muitos outros diretores consideram alguns aspectos humanos banais, mas o Almodóvar não, tudo é importante. A construção de um personagem até na hora dele segurar uma arma é pensada com muita genialidade. Almodóvar é um observador”, completa Janaina.

“Muitos outros diretores consideram alguns aspectos humanos banais, mas o Almodóvar não, tudo é importante. A construção de um personagem até na hora dele segurar uma arma é pensada com muita genialidade. Almodóvar é um observador” (Breno Lira)

A diretora de cinema, Janaina Marques, disse que se tratando de Almodóvar, suas obras preferidas foram os primeiros lançamentos, pois trazem a “anarquia” do diretor, “seus filmes eram mais desbocados e punks”. Citando suas obras preferidos da Mostra, ela listou “Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão” e “Ata-me!”. O jornalista conclui que no início da produção dos primeiros filmes do diretor, ele vivia em um contexto de fim do regime Franquista. A Espanha havia passado por uma guerra civil marcando a vitória do general Franco. O ditador morreu em 1975, tendo como efeito o fim do regime militar que matou aproximadamente um milhão de pessoas. Foi nesse contexto de transição do cenário político, de busca pela liberdade pública e sexual, que se basearam os seus primeiros filmes, caracterizando sua rebeldia “punk”.

Breno, jornalista e diretor da empresa responsável pela Mostra, enfatizou as referências de Almodóvar, os diretores Alfred Hitchcock e Luis Buñuel e a importância do homenageado na Mostra para artistas, como Antonio Banderas e Penélope Cruz que ganharam destaque a partir da atuação em seus filmes.

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