“A vergonha do Nordeste”?

                   Por Marta Negreiros

Torcedor misto” é um termo usado para denominar quem torce para mais de um time, em várias vertentes diferentes, podendo, por exemplo, ser dentro e fora da região, do país e do continente. Ou até mesmo àquele que torce apenas para um time sediado em um estado diferente.

Dentro da própria capital cearense é comum encontrar torcedores que alegam torcer para o time do Fortaleza, mas também para o Flamengo,  por exemplo. Um time local e um time da massa nacional. Além disso, com a globalização do esporte, os times europeus também estão cada vez mais imersos nessa realidade. É torcer pelo Ceará, que todo final de semana está jogando há alguns quilômetros de casa, mas também torcer pelo Real Madrid a um oceano de distância.

Famosas faixas usadas como protesto. Foto: reprodução

Entretanto, a partir de meados de 2008, o termo “misto” foi criado como uma crítica a esses torcedores, principalmente na região Nordeste do Brasil. O movimento “anti-mistos” nasceu para rebater e tentar amenizar a influência dos times grandes, de fora e de dentro do futebol nordestino. A partir daí, houve uma certa ruptura dentro de torcidas regionais. Os mistos foram negligenciados por aqueles de torcida única e taxados como traidores do Estado. A valorização dos times locais é colocada em evidência como argumento principal do movimento. No auge dos protestos, se tornou comum nos estádios, faixas e placas apontando a torcida visitante como “a vergonha do Nordeste”.

Para Bruno Formiga, analista e comentarista esportivo, é fato que essa evasão de torcedores afeta na progressão dos times Nordestinos. “Quanto mais forte o futebol local, menos mistura. Prova disso são os estados mais fortes, mais tradicionais, são os que têm menor número de torcedores com esse perfil”, alega. A quebra da torcida enfraquece o clube internamente e externamente, mas é algo quase incontrolável. A nova geração de torcedores, segundo Formiga, busca organização. “A organização traz bons jogadores, competitividade, estrutura, disputa e títulos. Isso atrai, forma torcedores novos”, assegura.

Manifesto anti-misto. Foto: reprodução

Esse processo de escolha de clube pode derivar de diversos fatores. Um exemplo disso é a dominância histórica estabelecida dos times Rio-São Paulo, desde os primórdios do futebol brasileiro, já que o esporte chegou primeiro nesses estados com status de esporte de elite. As demais regiões, principalmente Norte-Nordeste, por sua vez, ocupam a condição de dominados. Os dominantes são naturalmente mais atraentes aos olhos do torcedor, isso aliado à grande visibilidade que esses times têm na mídia. O afeto passa de geração para geração dentro das famílias, e o amor pelo futebol praticado fora dos limites locais é globalizado através do tempo. “Era e ainda é a coisa mais normal ver um ‘cabra da peste’ torcer por um time da casa e um de fora, justamente para compensar e satisfazer o seu ego”, declara Addler Pinheiro, ex-presidente da Torcida Uniformizada do Fortaleza (TUF), uma das maiores organizadas do estado do Ceará, hoje presidente de honra da TUF.

Torcedores flamenguistas da Bahia. Foto: reprodução

Ainda sob a visão de Addler, essa onda mista é algo normal e aceitável. “Na atual conjectura em que vivemos, torcer para um clube cearense e para um de São Paulo é  algo pessoal, algo que cabe somente e tão somente ao desportista que curte torcer para dois ou três times. É democrático, antes de tudo”, afirma. Ele também alega que, no decorrer dos anos, os mistos ganharam segurança de si mesmos e enxergam os  torcedores de dois clubes como algo sensato, diferente do que os antis propagam. “Hoje, os mistos já criaram uma pele blindada contra os que tentam de todas as maneiras lhe classificar como um alienado das arquibancadas ou um traidor do seu estado”, ressalta.

“Na atual conjectura em que vivemos, torcer para um clube cearense e para um de São Paulo é  algo pessoal, algo que cabe somente e tão somente ao desportista que curte torcer para dois ou três times. É democrático, antes de tudo” (Addler Pinheiro)

Preconceito

Porém, o preconceito ainda existe em relação aos mistos. João Vitor Couto, 20, estudante de Jornalismo, fez uma participação em um programa esportivo de televisão, em novembro de 2017, representando o Fortaleza. O programa é uma disputa de conhecimentos gerais da história do futebol e dos clubes brasileiros, feita entre os próprios torcedores. O estudante recebeu diversas críticas nas redes sociais quando uma foto dele usando a camisa do Botafogo, time carioca, viralizou entre a torcida tricolor. “Me senti muito ofendido. Parei de frequentar o estádio depois do ocorrido, para me preservar. Mas continuo acompanhando o Fortaleza”, afirma. Além disso, João Vitor diz que o amor pelo Botafogo veio do tio que sempre o incentivou a acompanhar futebol e torcer pelo time desde a infância. “Não acho errado, foi uma coisa natural. Eu não escolhi”, declara.

O fim dessa ruptura entre mistos e antis é vista como quase improvável por Bruno Formiga. “Um torcedor misto naturalmente vive menos o dia a dia do clube. Tem um sentimento dividido. Trazer esse pessoal de volta, só com bons resultados”, testemunha. Por vez, os bons resultados em níveis nacionais ainda são objetivos distantes para times nordestinos. O último clube a ser campeão brasileiro foi o Bahia,” há 30 anos, em 1988. Para Bruno, falta continuidade de trabalho desses times, além do abismo financeiro que ainda existe entre o eixo Rio-São Paulo e Nordeste. “A dificuldade é manter as peças, a estrutura. Mas a missão é inglória”, afirma.

 

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