Refúgio que esconde um lar

Por Marta Negreiros

O caso da personagem Ivana, famosa trama que acompanha as dificuldades de aceitação vividas pela personagem transexual, narrada na antiga novela das nove da Rede Globo  “A Força do Querer”, é mais comum do que parece. Dados colhidos pela pesquisa “Os homens trans no Brasil: as políticas e a luta pela afirmação de suas identidades”, feita por Roberto Cezar Maia de Souza, da Faculdade de Psicologia Maurício de Nassau, revela que 94,5% de homens trans já se sentiram deprimidos por ter que enfrentar situações controversas por conta da identidade de gênero. Então, como forma de amparo, há 10 meses foi aberto, na cidade de Fortaleza, o primeiro e único abrigo para homens trans do Brasil.

Nomeado de Thadeu Nascimento, uma homenagem ao jovem trans baiano que foi morto dentro da própria casa em maio do ano passado, o projeto foi criado por dois homens trans, Kaio Lemos e Apollo Franco, integrantes da Associação Transmasculina do Ceará. A casa, localizada no bairro José Bonifácio, é ocupada, hoje, por nove pessoas. O espaço é dividido em três quartos, sala, garagem e cozinha, e pode parecer comum à primeira vista, mas é lar de uma luta que está sendo travada já a algum tempo pela comunidade LGBT, em busca de reconhecimento, inclusão e espaços iguais na sociedade.

Garagem do abrigo que acabou se transformando em sala de estar. Foto: Marta Negreiros

O início

A ideia de criação do abrigo veio por conta da grande demanda de casos, recebidas por Kaio e Apollo, de homens trans que não eram aceitos pela família e acabaram expulsos de casa. “Eu era presidente da Associação Transmasculina e, por estar na linha de frente do ativismo, eu tinha muito contato com meninos que me procuravam por questões de vulnerabilidade, inicialmente, mais para a área familiar. Tinha muita gente procurando, e o abrigo foi a solução que encontramos”, relata Apollo.

Sala de estar que virou quarto. Foto: Marta Negreiros

Os dois, de forma totalmente independente, juntaram forças e alugaram a casa para iniciar o projeto. O aluguel, no valor de 1.000 reais, era dividido entre eles, que largaram seus quitinetes e foram viver no abrigo. Pediram apoio governamental, mas não houve resposta, e, até hoje, grande parte do que entra na casa vem de doações da sociedade civil. “É só nós dois, não há apoio do governo. A gente tentou porque não tínhamos CNPJ (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica) na época. Só viemos conseguir recentemente, para podermos nos inscrever em projetos, editais, essas coisas”, afirma Apollo.

Resistência

Para manter o abrigo funcionando, expandir a ideia e ajudar mais jovens no futuro, os diretores usam as redes sociais como forma de encontrar apoio, por intermédio de campanhas. Como já citado, a maior parte vem de doações da comunidade, mas há outros meios. Com a visibilidade cada vez maior do abrigo, eles recebem frequentemente equipes de pesquisa e de reportagem e, em contrapartida, pedem doações de alimentos não perecíveis, que são mais raros na despensa da casa. “A gente já tem a conta da associação, e as pessoas vão ajudando. Nos sustentamos disso, totalmente das nossas articulações pessoais, de boca a boca, de projetos e de pessoas que nos visitam”, declara Apollo.

“Nos sustentamos disso, totalmente das nossas articulações pessoais” (Apollo Franco)

​Mini histórias produzidas pelos próprios abrigados. Foto: Marta Negreiros

Além disso, os próprios abrigados produzem produtos como pulseiras feitas de linha encerada, inicialmente produzidas por uma oficina voluntária, e livretos que contam a história do abrigo para vender em feiras em que são convidados. Todo o lucro retorna para as despesas da casa. Recentemente, o Projeto Reciclocidades, fruto da Gerência de Responsabilidade e Interação Social (Geris), da Cagece, foi implementado no abrigo. A primeira oficina foi dada na semana passada, com produção de fuxico reciclado, e a próxima já está agendada para os próximos dias. Os produtos derivados desse projeto também serão colocados à venda, em feiras organizada pela Cagece. O dinheiro também será destinado ao abrigo.

Expansão e convivência

Atualmente, o abrigo também abrange o acolhimento de mulheres trans por conta da grande demanda de casos. O local já chegou a alojar 14 pessoas ao mesmo tempo. Para organizar a rotina e a comodidade do dia a dia, as tarefas são organizadas em um quadro que fica na parede da cozinha e todas as semanas acontece um rodízio nas atividades, assim como nos quartos. A sala, hoje, virou quarto, e a garagem também foi adaptada. “A convivência é tranquila, apesar das adaptações, cada um tem consciência do que tem que fazer, no dia que tem que fazer e sabe que tem as atividades obrigatórias, como estudar”, declara Apollo. Uma das condições para permanecer na casa é essa: estudar. Além de ser maior de idade e estar em condições críticas de vulnerabilidade.

Quadro de organização de tarefas da casa. Foto: Marta Negreiros

Além dos moradores fixos, a casa também costuma receber visitantes. O espaço vira um encontro para compartilhar histórias, um local de interação solidária e reuniões de causas LGBT´s. Isaac Dereck, 24, está há dois meses no abrigo, mas já conhecia o projeto desde sua idealização. Já havia visitado antes e, quando precisou, foi lá que encontrou o apoio que ansiava. “O abrigo deu visibilidade para homens trans, uma coisa que não existia. Este local dá uma oportunidade de crescimento para gente, já que hoje muitos de nós não estudam, pela falta de acessibilidade e pelo preconceito. O abrigo nos fortalece para ultrapassar esses empecilhos”, alega Isaac.

“O abrigo deu visibilidade para homens trans, uma coisa que não existia. Este local dá uma oportunidade de crescimento para gente” (Isaac Dereck)

Futuro

A procura por acolhimento é diária e já vem gente até de outros estados, fato que incentiva Apollo a buscar novas formas de crescimento para o futuro do abrigo. “A gente está procurando um espaço maior. Pela demanda que chega, se imagina que vá crescer ainda mais. Vamos participar de projetos para buscar todos os tipos de parceria”, relata.

O abrigo já conta com atendimento semanal de uma psicóloga e de uma psiquiatra, totalmente voluntários. A ideia é aumentar as áreas de atendimento, como por exemplo, assistência social, médica, financeira e de administração. Com intuito de dar condições ainda melhores de resistência para quem vive às margens do que é considerado certo, em meio a uma sociedade que ainda está longe de ser unificada.

Aperte o play no vídeo abaixo para saber o que o abrigo representa para Isaac Dereck:

 

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