Os novos ícones LGBTQ e o que a comunidade realmente precisa

Por Alessandra Baldessar

A representatividade LGBTQ (Lésbica, Gay, Bissexual, Transgênero, Queer) não é mais novidade em nenhum setor da indústria do entretenimento, especialmente no que remete à música pop. De Madonna e Cher (final dos anos 80 e começo dos anos 90), que, por meio de seus dançarinos de apoio, incorporaram elementos da cultura queer em seus vídeos, a P!nk e Christina Aguilera (anos 2000), com sua dedicação à comunidade ao abordar realidades não-heterossexuais. Dessa forma, o entretenimento ofereceu um protagonismo raramente visto antes.

Madonna e seus dançarinos no clipe de Vogue. Foto: Reprodução.

Essas aparições regulares na mídia ajudaram a concretizar a ideia de que outros tipos de sexualidade eram normais, válidos e merecedores do mesmo reconhecimento que o tipo “padrão” recebia. Videoclipes como Vogue e Justify My Love permitiram à comunidade LGBTQ uma chance de se ver representada na música mainstream, e ajudaram jovens que questionavam sua sexualidade a se sentirem menos sozinhos.

Porém, tais vídeos seriam sempre de artistas heterossexuais que apresentavam pessoas LGBTQ, sem contar com a preferência (ligada a estereótipos) pela parte “G” da sigla. Eram representações da sexualidade queer, mas não expressões “cruas”, sem o inevitável filtro de quem não vive aquilo na prática.

O (lento) começo de uma era

Em 17 de maio de 1990, a Organização Mundial de Saúde (OMS) aprovou a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID 10), que não mais listou a homossexualidade como diagnóstico. Lançado em 2004, o Dia Internacional Contra a Homofobia (agora chamado de  Dia Internacional contra Homofobia, Transfobia e Bifobia – IDAHOT) tornou-se uma ocasião global para educar sobre a diversidade da comunidade LGBTQ e para defender políticas públicas sensatas em relação a essas pessoas.

Sam Smith no clipe da música Lay Me Down, em que casa com outro homem. Foto: Reprodução.

Mesmo então, embora muito progresso já tivesse sido feito, era difícil achar artistas LGBTQ que fossem verdadeiramente abertos em relação a isso. Porém, foram surgindo exceções: Adam Lambert, que é gay e beijou um homem no palco do American Music Awards (AMAs) de 2009; Lady Gaga, que já se declarou bissexual e beijou outra mulher no clipe de seu hit Telephone; e Sam Smith, que sempre falou de sua orientação sexual e chegou a mencionar sua fluidez de gênero em entrevistas.

A nova geração de artistas LGBTQ

Ex-estrela do Disney Channel, a atriz e cantora Hayley Kiyoko se assumiu lésbica em 2016 e, desde então, lança músicas e videoclipes com temáticas LGBTQ. A artista foca na representação feminina e mais explicitamente na sexualidade intrínseca em relacionamentos entre mulheres. Troye Sivan, cantor pop e antigo youtuber sul-africano, revelou ser gay em um dos vídeos do seu canal e, como Kiyoko, também explora livremente a carnalidade no que produz.

A artista Hayley Kiyoko. Foto: Reprodução

Há poucos meses, Kiyoko e Sivan lançaram, respectivamente, os videoclipes de seus hits Curious e My My My. Eles apresentam algo raramente visto em vídeos musicais de cantores LGBTQ: erotismo do mesmo sexo. Os dois se colocam como protagonistas e vivem experiências de romance e atração comuns a todo jovem adulto pertencente ao espectro. Assistir a um artista de fora exibir sua própria sexualidade na tela é revolucionário.

É a ousadia desses novos artistas pop – que, é importante dizer, já podem ser considerados mainstream – que realmente oferece um novo cenário para a comunidade LGBTQ na indústria do entretenimento. Mais do que quaisquer outros ícones queer, ambos inovam na proposta de que, sim, ser lésbica, gay, bissexual ou transgênero é válido, mas de que há muito além disso. Existem as dúvidas, as paixões de infância, os diferentes tipos de atração. E, como ocorre com o obsoleto “padrão”, tudo isso merece ser mostrado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

css.php