A difícil jornada do autocontrole

Por Letícia Serpa

A ansiedade, hoje vista por muitos como o mal do século, tem várias vertentes. Pode ser considerada como o começo de transtornos psicológicos mais graves e possíveis detrimentos de situações vistas como banais do dia a dia. “Para o ansioso, praticamente tudo pode ser motivo para uma preocupação extrema a respeito de qualquer coisa”, é o que explica a psiquiatra Maria Gardênia Amorim, 57. A profissional revela que são muitas as ocorrências de distúrbios mais sérios que podem ser criadas a partir de um transtorno de ansiedade.

Tricotilomania é um dos mais frequentes distúrbios gerados pelo transtorno de ansiedade. Foto: reprodução

Um dos mais frequentes distúrbios gerados é a tricotilomania, doença compulsiva que leva a pessoa a um desejo incontrolável de arrancar os pelos do corpo. A psiquiatra fala que as consequências físicas para este transtorno podem ser visíveis. “A tricotilomania, muitas vezes, leva a áreas de rarefação de pelos e de cabelos, o que a torna muito evidente”, explica. Porém o ato de arrancar os pelos do corpo pode se transformar em um distúrbio mais sério, a doença que é conhecida por tricotilofagia, leva a ingestão dos pelos arrancados e possíveis criações de bolos no estômago, chamados de tricobezoar. “O tricobezoar pode levar a anemia e, às vezes, é preciso até operar para tirar o bolo de cabelo”, fala Amorim.

Em outros casos, a pessoa com tricotilomania não necessariamente precisa arrancar os cabelos do couro cabeludo, como fala a psiquiatra, “os pelos do corpo todo estão envolvidos”, por isso, “a pessoa ao arrancar os cílios, por exemplo, pode levar a inflamação da pálpebra, a chamada blefarite. Pessoas com tricotilofagia podem danificar os dentes, ao morder com muita força os cabelos, e até os próprios dedos às vezes criam manchas roxas, de tanto se pressionar o fio na tentativa de arrancá-los”.

Blefarite, inflamação na pálpebra. Foto: Reprodução

“O motivo para o transtorno psicológico, não tem causa única. Algumas vezes, o distúrbio surge por natureza heterogênea, outras por ser algo advindo da genética, de caráter hereditário, ou também por consequência de algum Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC)”, explica a médica. Segundo ela, a doença costuma aparecer com mais frequência em mulheres, e os primeiros indícios que devem ser identificados são as áreas rarefeitas de pelo.

A profissional afirma que, na maioria das vezes, o ato se inicia em casa e depois vai passando a ser recorrente em lugares públicos. “Às vezes a pessoa começa e ninguém percebe. Geralmente, no início, não costuma fazer em público, e sim em casa. Os pais ou familiares podem perceber que isto ocorre em momentos descontraídos, como ao assistir televisão, ou ler. Então, onde primeiro se percebe é em casa, o lugar onde mais a pessoa vai fazer”, ressalta.

Caso de Tricotilomania

“Começou quando eu ainda estudava no colégio, devia ter em torno de dez anos. Hoje, faço tratamento psicológico e já tomei remédios para controlar a ansiedade”, é o que conta a corretora de moda, Patrícia (nome fictício), 23, quando fala sobre sua experiência com o transtorno. “Uma amiga do colégio, na época, puxou alguns fios do meu cabelo dizendo serem fios ‘defeituosos’ e que deveriam ser arrancados. Com pouco tempo, já passei a arrancá-los naturalmente”, narra.

O caso de Patrícia está relacionado à tricotilomania gerada pelo distúrbio da ansiedade. Segundo ela, em épocas de muito nervosismo, arranca seu cabelo sem perceber o que está fazendo e o dano que está causando a si mesma. “Não sinto dor, mas às vezes sangra”, conta.

Além de somente arrancar os fios, Patrícia afirma também comer o bulbo, parte da estrutura interna do cabelo que produz células para o crescimento do fio. Por isso, a psiquiatra Gardênia Amorim afirma que o caso de Patrícia já pode ser considerado uma tricotilofagia, por ter o ato de ingestão.

Patrícia diz ser muito reservada sobre o assunto, pois sente vergonha de assumir o seu vício. “Cabelo é um dos símbolos de vaidade da mulher, então, por mais que fisicamente seja prazeroso, psicologicamente é triste saber que você não tem domínio sobre suas emoções. Geralmente, ando de cabelo preso para esconder as falhas”, conta.

“Cabelo é um dos símbolos de vaidade da mulher, então, por mais que fisicamente seja prazeroso, psicologicamente é triste saber que você não tem domínio sobre suas emoções” (Patrícia)

Como Ajudar

A psiquiatra Amorim afirma que, em muitas situações, a família e os amigos devem intervir com uma conversa motivacional, nunca com discursos desagradáveis, obrigando a pessoa a parar de arrancar os pelos, pois isso só viria a piorar o distúrbio. “A família e as pessoas próximas, ao perceberem o transtorno, devem tratar isso como uma doença compulsiva, pois não é como se a pessoa quisesse agir de tal forma, como tendem regularmente a dizer que a pessoa não quer se controlar”, fala. Além disso, cita que “geralmente, os melhores resultados são com psicoterapia e com psicofarmacologia, que são medicações antidepressivas” e diz que a família pode ajudar no processo levando a um profissional “a doença precisa ser tratada adequadamente”, explica.

“A doença precisa ser tratada adequadamente” (Maria Gardenia Amorim)

Patrícia acredita que sua ansiedade veio adquirida com o tempo, por causa de possíveis problemas familiares. “Não sei a partir de quando eu comecei a ser ansiosa, acredito que problemas familiares foram um ponto forte para isso”, declara.  

Ela diz que já pensou em raspar seu cabelo em um período de depressão, porém o apoio de seus parentes foi de extrema importância para sua melhora. “Eles sempre foram cientes do meu problema e me ajudaram muito”, declara.

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