Violência afeta cotidiano de fortalezenses

Por Sabrina de Souza

O aumento da violência mudou a rotina dos cidadãos da capital cearense, que já ocupa o espaço de sétima cidade mais violenta do mundo, segundo a Organização Não Governamental (ONG) mexicana “Seguridad, Justicia y Paz”. O levantamento tem a taxa de homicídio de cada local em 2017, considerando o número de assassinatos em proporção à população do município.  

Muros pichados evidenciando a violência. (Foto: Reprodução)

Criminal, sistêmica, estrutural, doméstica, contra a mulher etc. São vários os tipos de violência presentes no cotidiano. O medo, a principal consequência dessa situação, é aparece várias vezes no dia, em uma caminhada por uma simples rua do bairro Papicu, na grande Fortaleza, por exemplo. As pichações espalhadas pelos muros de toda a cidade evidenciam o domínio das violentas facções criminosas presentes na capital cearense hoje.

Causa e consequência

“As diversas manifestações da violência têm múltiplas repercussões na vida das pessoas, tanto individualmente, como familiar e socialmente”, conta Luiza Jane, professora de Enfermagem e Saúde Coletiva da Universidade de Fortaleza (Unifor) e autora da pesquisa “Violência e repercussões na saúde individual e coletiva”. Segundo a professora, muito da violência presente no meio urbano acontece por causa da desigualdade social.

Fortaleza se encontra em 5° lugar no ranking das cidades mais desiguais do Brasil, segundo dados de 2012 da Organização das Nações Unidas (ONU). Para Luiza Jane, a principal causa para esse contraste seria a falta de educação básica. “A corrupção implode uma nação, com governantes que mantêm uma violência estrutural, na qual a educação de qualidade é só para uma pequena parte da população”, relata.

“A corrupção implode uma nação, com governantes que mantêm uma violência estrutural, na qual a educação de qualidade é só para uma pequena parte da população” (Luiza Jane)

As implicações de viver em uma cidade violenta são as mais drásticas possíveis, já que “todas essas faces da violência interferem diretamente na nossa saúde”, comenta a professora da Saúde Coletiva. “A sensação é de medo eterno. Insegurança. Não existe mais local, nem hora, nem situação para o crime acontecer”, completa. Em relação aos sinais de uma sociedade acuada diante da violência, “de um modo geral são depressão, angústia, ansiedade, hipertensão, Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), desesperança, e o aumento do suicídio”, revela a pesquisadora.

Muros em Fortaleza. Foto: Reprodução

Morgana Nogueira, 23, comerciante que trabalha com entrega em Fortaleza, relata que, logo após passar por uma situação de medo, deixou de fazer entregas em alguns bairros onde a violência era mais presente. “[O cliente] não informou que só era permitido a entrada [no bairro] sem capacete. Se não fosse por um senhor para nos informar para tirar o capacete, de certo teríamos sido informados de outra forma.” Sobre as ameaças no muro das ruas, a comerciante diz “outra vez, ao entrar no [bairro] Bom Jardim, em um muro pichado tinha escrito ‘BEM VINDOS AO INFERNO’”.

Caso

O caso de grande repercussão mais recentemente foi o da estagiária Cecília Moura, morta aos 23 anos durante um assalto à mão armada, à caminho do seu estágio, no bairro Parque Manibura. Para a professora Luiza Jane, a morte da estudante de Direito “choca, principalmente, porque a realidade de Cecília se aproxima com a de muitos. Mas na periferia isso ocorre com frequência”, reitera.

O crime se tornou ainda mais desumano quando ocorreu a prisão de um dos suspeito pela morte de Cecília. A declaração dele foi de que, por ela ser mulher e estar em um carro sozinha, foi o alvo mais fácil da quadrilha. “A sociedade está querendo justificar o injustificável”, aponta a professora.

Mas, Cecília não é um acontecimento isolado. “Tem as Cecílias, os Guilhermes, as chacinas do Benfica, as saidinhas bancárias, todo dia também há uma violência dentro da casa de cada um. É necessário um enfrentamento [contra a violência] com políticas públicas para, em primeiro lugar, diminuir as diferenças sociais”, aponta a professora Luiza Jane.   

“Tem as Cecílias, os Guilhermes, as chacinas do Benfica, as saidinhas bancárias, todo dia também há uma violência dentro da casa de cada um (Luiza Jane)

Já parou pra pensar em quantas coisas você deixa de fazer pelo medo instaurado pela violência cotidiana? Uma pesquisa rápida, feita pelo Facebook, contou com mais de cem comentários sobre o medo e as consequências na vida de cada um. Confira alguns relatos:

Infográfico: Sabrina de Souza

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