Projeto de prótese facial: revitalizando vidas

Por Mateus Moura

Para quem acha que odontologia se resume apenas em manter dentes saudáveis, está enganado. São vários segmentos que abrangem esta tão importante área da saúde. Um desses segmentos é a produção de próteses faciais, que compreende em reabilitar pacientes que sofreram deformações em regiões da face, sejam de origem patológicas ou traumáticas, atingindo o sistema ocular, nasal, mandibular, entre outros. Esses traumas comprometem não só a estética do paciente, mas também sua rotina em meio à sociedade, afetando sua vida profissional e pessoal.

O Projeto de Prótese Buco-Maxilo-Facial (PBMF) da Universidade de Fortaleza (Unifor) se destaca pela ação social e ajuda diversos pacientes, tudo de forma voluntária pelos alunos e professores. Fundado no primeiro semestre do ano 2000, pelo professor Domingos Leitão Neto, o projeto completa 18 anos de funcionamento no curso de Odontologia.

A iniciativa

Atualmente, o PBMF é coordenado pela professora Fátima Maria Teixeira Azevedo, que participa e se dedica desde sua criação. Fátima Azevedo explica que o processo para o paciente entrar na iniciativa é totalmente desburocratizado. “O paciente precisa ter o perfil de lesionado bucomaxilofacial. Para participar, basta ligar para a recepção e marcar a consulta. Nós fazemos a triagem e vemos se ele realmente está dentro do perfil de pacientes do projeto. Após isso, damos continuidade ao atendimento”, ressalta.

O processo requer tempo e muita dedicação. “Nós mesmos, professores e estagiários, fazemos 99% das próteses. Como somos nós que fazemos – e o projeto funciona em uma tarde –  temos os dias de atendimento clínico e os dias de realização de procedimento laboratorial para a confecção da prótese propriamente dita. Então, demanda um pouco de tempo, porque não tem praticamente nenhum trabalho terceirizado”, explica. O projeto acontece todas às quartas, às 13h30, no bloco da odontologia.

Participantes do Projeto de Prótese Buco-Maxilo-Facial (PBMF). Foto: Everton Lacerda/FotoNIC

A iniciativa conta com aproximadamente dez estagiários, normalmente alunos do nono ou décimo semestre, escolhidos por meio de uma seletiva. O motivo do ingresso de alunos concludentes do curso se dá pelo fato de estudarem o conteúdo teórico demonstrativo das próteses que são confeccionadas no projeto apenas no oitavo semestre. Assim, ingressam já com uma base teórica.

Fátima Azevedo se tornou coordenadora do PBMF dez anos atrás e, para ela, é um prazer imenso estar presente desde o início. “Me dá muita satisfação saber que estamos melhorando a qualidade de vida de uma pessoa, que talvez a maioria não tenha condições de pagar, e aqui, 99% é gratuito. É a gente que faz a prótese, com o material que a universidade fornece. Então, a abrangência social desse projeto é muito grande. Você percebe a alegria de um paciente que recebeu uma prótese de olho, prótese de nariz ou de face. Vê a satisfação, a alegria e o sorriso dele quando sai daqui após instalarmos uma prótese dessa, não tem dinheiro que compre”, relata.

O processo

A confecção de uma prótese facial tem diversas etapas, que vão desde a triagem do paciente até a parte laboratorial. Em virtude da quantidade de pacientes e do PBMF ocorrer apenas uma vez por semana, pode levar até um semestre inteiro para conclusão de uma prótese. O aluno e estagiário do projeto, Roberto de Souza, 23, explica como funciona o processo: “Na admissão dos pacientes, fazemos a anamnese (entrevista preliminar do diagnóstico), vemos se ele tem alguma outra doença associada, tentamos entender o porquê dele ter perdido aquela parte do corpo. Às vezes, por motivos de câncer, pegamos pacientes que ainda estão com feridas. Então, se colocarmos uma prótese naquele espaço, pode ficar ocorrendo atrito com a região e até piorar o ferimento”. Roberto complementa:  “Após isso, a primeira coisa é a moldagem do espaço para colocar a prótese. Depois, vem os processos laboratoriais, em que fazemos a escultura em cera. Se for ocular, fazemos a pintura e depois a acrilização em resina“, conta.

As próteses são feitas com materiais fornecidos pela Unifor. Foto: Everton Lacerda/FotoNIC

Segundo Roberto de Souza, a duração das próteses faciais é semelhante a das dentárias. Com pouco, os estagiários, juntamente com a coordenadora e professora Fátima, conseguem fazer muito. Utilizam materiais como alginato, que é usado na moldagem, resina acrílica, maquiagens e tinta guache. Unem isso a vontade de ajudar, muito estudo e um certo dom artístico de esculpir e pintar, transformando uma matéria-prima inanimada em uma parte do corpo humano. Em consultórios particulares, uma prótese, dependendo do tamanho, pode chegar a custar até 6 mil reais. Uma prótese ocular, por exemplo, chega até 4 mil reais, de acordo com o estagiário do PBMF.

Para Souza, a responsabilidade é muito grande: “Se fizermos uma coisa mal feita, aquele paciente vai estar com aquilo no rosto. Todos que olharem para ele, vão perceber de imediato isso. Vai estar cobrindo a cicatriz, mas ele vai estar levando outra coisa que não é legal para ele. Tem todo o lado emocional do paciente”, afirma.

Infografia: Mateus Moura

Os pacientes

Fragilizados, com baixa autoestima e fora dos padrões que a maioria da sociedade aceita. É assim que os pacientes chegam ao PBMF. Para Flávia Vieira, 38, estudante e estagiária do projeto, o paciente “já tem uma situação em que é criticado pela condição física, seja por ter uma prótese nasal ou ocular, ele não deixa de ser apontado pelos demais. A grande maioria sofreu suas lesões através de arma branca ou por sequelas cancerígenas. Alguns deles relatam que a própria convivência em família é prejudicada. A gente acaba criando uma relação de amizade. Além do sentimento afetivo que a gente tem com o paciente, de lidar com essa autoestima dele, a gente cria esse laço de confiança e de credibilidade. Lidar com autoestima é o ponto crucial do nosso projeto”, compartilha.  

“Lidar com auto estima é o ponto crucial do nosso projeto” (Flávia Vieira)

O sentimento de pena talvez seja o que a maioria sinta ao ver pessoas em condições difíceis. Não foi diferente para Flávia, mas ela logo percebeu a força de vontade que esses pacientes tinham. “Eles já estão em uma condição complicada. Se você sente pena, ele vai se sentir cada vez mais diminuído, mais fragilizado ainda. Depois a gente percebe que esses pacientes têm muito mais força de vontade, mais garra pra viver que qualquer outro que às vezes, em uma condição menos complicada, se entregam”. Flávia ainda relata o que sente ao finalizar e entregar as próteses aos pacientes. “Uma sensação de satisfação, de dever cumprido, de gratidão. O próprio paciente fica muito grato pelo serviço que a gente oferece. Só o sorriso, a gratidão dele por termos feito aquilo, de darmos uma condição de vida melhor pra ele. Quando ele sai com um sorriso no rosto, isso é tudo”, conta.

Francisco de Assis é paciente do PBMF. Foto: Everton Lacerda/FotoNIC

Francisco de Assis sofreu uma lesão facial em detrimento de um câncer de pele. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA), este é o câncer mais frequente do Brasil, correspondendo a 30% de todos os tumores malignos registrados no país. Dados colhidos pelo INCA, em 2013, mostram que 3.316 pessoas morreram em decorrência do câncer de pele, um aumento de 55% em 10 anos.

Francisco conseguiu superar o câncer, mas as marcas da doença foram deixadas em seu corpo. Teve seus dentes queimados pela radioterapia e parte de seu rosto perdido. Buscou ajuda no PBMF, está em tratamento e receberá uma prótese facial. Para Francisco, estar no projeto foi essencial. “Revitalizou a minha aparência. Aqui foi essencial para minha recuperação.”

As motivações

 

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