Vera Guimarães: “O que a gente tem que fazer é contar histórias”

Por Lígia Grillo

Vera Guimarães fala sobre o papel do jornalista no cenário político atual. Foto: Juliano Almada/Foto NIC

Na última sexta-feira (6), em antecipação ao Dia do Jornalista, o curso de Jornalismo da Universidade de Fortaleza (Unifor) recebeu a jornalista da Folha de São Paulo, Vera Guimarães, para o lançamento do novo manual de jornalismo.

Vera Guimarães Martins trabalha na Folha de São Paulo desde 1990. Dentre várias funções, assumiu cargos das editorias de política, de revistas e editora-adjunta do caderno cotidiano, além de também ter atuado como assistente de redação e ter sido responsável por cadernos especiais de domingos. Um de seus cargos mais importantes foi o de ombudsman da Folha de São Paulo, uma espécie de representante do leitor, onde assumiu a posição de 2014 até 2016.

O Jornalismo NIC conversou com Vera Guimarães, confira a entrevista:

Jornalismo NIC: Qual o papel do jornalista no cenário político atual?

Vera Guimarães: O papel do jornalista não difere em nada, seja no cenário político ou  em qualquer outro cenário. Ele tem que relatar as notícias e os fatos que acontecem da forma mais isenta possível. Para isso, ele tem que usar boa técnica, para não se deixar contaminar pelas polarizações, pelos excessos da área política e tentar fazer um relato mais isento possível. É só o que nos cabe. Não difere muito de qualquer outra área nem de cenário, não. O que a gente tem que fazer é contar histórias.

JN: O que você diria para os futuros profissionais que estão iniciando a carreira agora?

VG: Primeiro, eu desejo boa sorte. Agora vocês têm que estudar muito, se informar demais. A internet trouxe uma coisa boa e uma coisa ruim. O lado bom é que você tem acesso a qualquer tipo de informação com muita facilidade. O lado ruim é que tem um oceano de informações que você precisa saber distinguir de o que é bom e o que é ruim, porque a maior parte é porcaria. Mais do que nunca, vocês têm que estar muito bem formados e, sobretudo, muito bem formados nas características específicas do jornalista, que são como apurar, como chegar na informação. Como chegar nessa informação sem falar asneira. É uma preparação contínua, a vida toda você vai estar estudando e aprendendo novas coisas.

JN: Você escreve sobre assuntos que podem ser considerados polêmicos. Como você lida com a repercussão deles? Sendo jornalista e mulher, isso muda alguma coisa?

VG: Não. Na verdade, quando eu escrevo, tem uma coisa que eu fazia quando eu era ombudsman: jamais ler comentários. Eu nunca li comentários. Nem na coluna, nem nas redes sociais, porque eu partia do princípio de que quem queria falar com a ombudsman, que queria dialogar comigo, poderia me escrever um email. E eu respondia a todos os emails. Eu não respondia comentários de gente anônima postado de qualquer forma. Então eu nunca li isso, que era para não envenenar o meu espírito.

JN: A Folha de São Paulo e o O Povo são os únicos jornais do Brasil que ainda possuem um ombudsman, você acha que isso é um diferencial?

VG: É um super diferencial. A história do ombudsman é uma tremenda ferramenta de contato entre os leitores. Você precisa ter muita coragem para manter o ombudsman ali. Normalmente, você tem os profissionais mais antigos, mais preparados, alguns que ganham salários melhores e são pessoas que você paga para ficar ali todo domingo, falando mal e apontando os erros que você comete. Não é pra qualquer um. Em um episódio de crise, que o mundo inteiro está passando, os ombudsmans foram muito cortados no mundo inteiro. Nos Estados Unidos, a queda do ombudsman foi uma coisa absurda porque é isso, é crise. Quando você tem que cortar salários na redação você diz: “eu mantenho o ombudsman que é um cargo legal e mando 4 repórteres embora. Ou eu faço o contrário?” É uma escolha muito difícil e, em alguns lugares, como na Alemanha, ele estava crescendo. Mas, lá, o ombudsman é um pouco diferente, ele é uma mistura que menos crítica o jornal e mais ajuda o leitor. Se você tem uma reclamação, por exemplo, se a sua rua estiver esburacada, em alguns jornais da Alemanha você procura esse ombudsman para reclamar disso. É uma coisa misturada.

JN: Como você enxerga os novos caminhos que a profissão está tomando?

VG: É aí que eu acho que está a nossa sobrevivência como profissão. Porque é fácil fazer textão, dar opinião é a coisa mais barata do mundo, opinião você pode ficar na esquina gritando. A questão é você relatar as coisas, fazer reportagens com consistência, mesmo quando você dá opinião, que é fundamentada. Aquele tipo de fundamentação que não é simplesmente opinião. Quando me perguntaram, aqui no evento, sobre o questionário da Folha e sobre vocês que vão passar pela prova do treinamento, a gente costuma jogar umas questões cabeludas na mesa, que perguntam se você é contra ou a favor a algo. Defenda. Para nós, não importa se é sim ou não, importa a sua capacidade de argumentar para defender o seu lado. Não importa se você é comunista ou ultra-direita, importa como você defende as suas posições. Elas são bem argumentadas? São bem fundamentadas? É isso que nos interessa, ter alguém que sabe pensar. Quem faz textão no Facebook normalmente é cabeça formatada e que empresta opiniões de todos os mundos, compra uma opinião e posta lá. Porque isso é a coisa mais fácil do mundo e, normalmente, postam coisas que vão ficar de bem com a plateia. É o que a gente [jornalistas] não deve ser. Em algum momento vai ficar fácil diferenciar quem é quem.

JN: Você é a inspiração de muita gente que estava aqui, nesse auditório. Eu gostaria de saber se você tem alguma inspiração ou alguém que você admira dentro do ramo?

VG: Tem muita gente. Mas eu posso falar de uma pessoa, o Clóvis Rossi. Ele está com uns setenta e poucos anos e, quando eu o vejo na redação, já meio curvadinho e com aqueles cabelinhos brancos, eu fico olhando para ele com tremenda admiração. Ele tem uma trajetória muito diferente da minha, porque o Rossi é um cara que tem 50 anos de profissão, talvez mais que isso, e foi repórter a vida toda. É uma coisa que eu nunca fui. Eu fui repórter por muito pouco tempo na minha vida e logo fui assumindo cargos de editora, secretária de redação, editora de primeira página e cargos de executivo no jornal. Eu não sirvo para repórter, eu acho que eu seria uma péssima repórter, eu nasci para cargos de edição. Eu olho para o Rossi e fico pensando que maravilhoso é isso. Porque tem um monte de repórteres que são bons mas, às vezes, você desvia ele, pede para ele editar tal coisa e ele não é um bom editor, a vocação dele é ser um ótimo repórter. O Rossi é uma dessas pessoas em quem eu me espelho e admiro até hoje.

Um comentário em “Vera Guimarães: “O que a gente tem que fazer é contar histórias”

  • 1 de setembro de 2018 em 16:17
    Permalink

    Vocês me conseguiriam o email da Vera Guimaraes ? Gostaria de convidá-la para mediar uma mesa na Longev Week, a Semana da Promocao da Saude e da Prevencao de Doenças para a Longevidade, um evento Free Aging com apoio da FMUSP, que acontecerá de 8 a 14/12, na FMUSP, à Av Dr Arnaldo, em São Paulo.

    Obrigado

    Edgar

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