O perigo das drogas “invisíveis” em festas

Por Yasmim Rodrigues

“Eu estava numa festa, achei que estava bebendo suco, mas a galera tinha colocado droga. De repente, eu comecei a passar muito mal de madrugada, meu coração estava batendo muito rápido, só depois descobri que havia ‘bala’ dentro do suco”, relata estudante J.G*, 23, que não quis se identificar. Esses golpes envolvendo substâncias químicas são antigos, porém a incidência deles ainda é alta.

Jovem coloca nas redes sociais que está bem. Foto: Reprodução

Segundo levantamento feito pela VICE, houve 415 registros do golpe “Boa Noite Cinderela’’ na capital paulista entre 2014 e o segundo semestre de 2017. A pesquisa ainda aponta que o número pode ser muito maior, pois muitas vítimas não fazem registro de queixa. “As drogas do ‘Boa Noite Cinderela’ induzem sonolência profunda, relaxamento muscular, incapacidade de reação e amnésia dependendo da dose utilizada. Em doses altas, ocorrem riscos respiratórios por aspiração pulmonar e inibição do reflexo de tosse”, afirma o psiquiatra João Batista Alves Lins, 37.

Recentemente, um vídeo viralizou na internet no qual duas amigas estão dançando juntas e um homem coloca discretamente algo não identificado dentro da bebida de uma delas. Pelo Instagram, a vítima alegou que estava bem e que não havia consumido o conteúdo do copo. O vídeo repercutiu nas redes sociais e despertou uma discussão sobre os perigos que há nas festas e como se proteger deles. “Não considero [essa situação] comum, mas infelizmente são situações que sabemos que acontecem sim”, afirma o gerente de eventos Júlio Lima, 33.

 

 

Segurança

“Uma vez, um homem chegou na balada com algumas jovens, pagou o ingresso de todas e se negou a fazer o primeiro procedimento de segurança, ninguém foi revistado. No final da festa, uma das meninas estava desacordada. Quando chamaram os paramédicos, disseram que um cara tinha dado ‘bala’ para ela’’, relata o ex-segurança de uma casa de show, I.L*.

Segundo o ex-segurança, é muito difícil controlar a entrada dessas substâncias nas festas. “Muitos se negam a fazer a revista e, por serem conhecidos, entram nas festas sem nenhuma restrição. Há quem leve segurança particular que, muitas vezes, são policiais fazendo um extra, e não podem ser revistados. Assim, eles entram com entorpecentes nas festas’’, afirma I.L*.

As drogas e seus efeitos

Os ambientes festivos são frequentados por muitos jovens e oferecem diversão, mas também muitos riscos. Foto: Juliano Almada/ FotoNIC

“Eu estava numa festa, estava bebendo e de uma hora para a outra eu tive a sensação de estar muito bêbada, não lembro de muita coisa, eu fiquei muito alterada, tenho certeza que me deram rivotril”, relata a estudante F.M*, 21. Segundo o médico psiquiatra e mestrando da Farmacologia da Universidade Federal de Fortaleza (UFC), Cláudio Manoel Gonçalves da Silva Leite, 27, as substâncias utilizadas são, geralmente, o Diazepam (Valium), o Clonazepam (Rivotril) e o Flunitrazepam (Roipnol). “Em altas doses, a pessoa pode perder a consciência e ficar vulnerável a algum tipo de abuso”, alerta o Dr. Cláudio Leite.

Além dessas substâncias, existem medicações que podem alterar qualitativamente o estado da consciência, como a Quetamina. “No meio ilícito, a Quetamina é uma droga de abuso, causa dissociação. O indivíduo sente como se não fizesse parte do próprio corpo ou como se fosse pertencente a uma outra realidade”, explica o psiquiatra.

Ainda de acordo com o Dr.Cláudio, além dessas substâncias, há várias outras que podem facilitar o sono, como barbitúricos, hipnóticos, alguns antidepressivos, alguns anticonvulsivantes e algumas substâncias miorrelaxantes. “Todas essas substâncias podem ser potencialmente utilizadas por pessoas que querem aplicar golpes”, adverte.

Uma substância comum é, também, a “bala”, termo utilizado para drogas cuja composição principal são anfetaminas, utilizadas, principalmente, em raves para causar euforia. “Durante o uso das balas, a pessoa pode experimentar alucinações visuais, em alguns casos, essa euforia pode evoluir para agressividade e inquietação, podendo levar a situações de grave risco e conflitos com a lei”, explica o psiquiatra e psicoterapeuta João Batista Alves Lins, 37.

“Durante o uso das balas, a pessoa pode experimentar alucinações visuais, em alguns casos, essa euforia pode evoluir para agressividade e inquietação (…)” (João Batista Alves Lins)

Medidas de segurança

“Muitas drogas são colocadas dentro das bebidas em momentos de distração”. Foto: Juliano Almada/FotoNIC

A organização dos eventos, pensando na segurança dos seus convidados aposta em campanhas de conscientização. “Ajudaria muito se houvessem vídeos educativos, esclarecendo os perigos e como se prevenir, passando no telão do palco ou nas TVs, antes do início do show das bandas”, sugere o gerente de eventos Júlio Lima. “A melhor prevenção é o uso de copos com tampas e nunca largar o copo na mesa”, completa.

Ao identificar qualquer sintoma, é necessário levar a pessoa a um atendimento médico imediato. “Geralmente em  raves existem grupos de redução de danos, como o Balanceara, que fazem o cuidado inicial de quem está sob efeito de substância psicoativa”, esclarece o psiquiatra Cláudio Leite.

Caso não haja atendimento médico no local, são necessárias algumas medidas para ajudar a vítima. “A melhor forma de ajudar é tentar tranquilizar o indivíduo, oferecer líquidos para hidratação e conduzi-lo a um local seguro”, afirma o Dr. João Batista Alves.

Os dois médicos concordam que, em festas, é importante estar acompanhado de alguém de confiança e estar atento ao que está consumindo. “Deve-se evitar aceitar bebidas de estranhos”, aconselha João Batista Alves. “É importante buscar ajuda sem causar grande alarde, sem estigmatizar a pessoa por ter feito uso de drogas, voluntariamente ou não, e oferecer proteção, conforto e carinho. Assim, dá tudo certo”, completa o Dr. Cláudio Leite.

*As iniciais foram alteradas para preservar a identidade das vítimas

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

css.php