Bancas de jornais resistem à era digital

Por Sabrina de Souza

“As bancas vivem, hoje, além de chocolates, balas e recargas (de créditos de celular) que ajudam no complemento da renda. De colecionadores, tanto de revistas de super-heróis, quanto de miniaturas e álbuns, como o da Copa, que é o ‘carro chefe’ da gente agora”, conta o jornaleiro Valderli Oliveira Batalha, 52, popularmente chamado de Louro, apelido dado quando ele ainda trabalhava como ajudante de gazeteiro, aos 14 anos. Louro trabalha no ramo há 30 anos e relata as mudanças ocorridas ao longo do tempo em relação à resistência das bancas de jornais na capital cearense.

Valderli em sua banca. Foto: Sabrina de Souza

Ele mantém seu negócio na praça Otávio Bonfim localizada em uma das avenidas mais movimentadas de Fortaleza, a Bezerra de Menezes. “Tínhamos quatro bancas aqui na praça [do Otávio Bonfim], mas com a mudança das paradas de ônibus para o centro da avenida, limitou o público que realmente se interessa e vem até aqui [a banca]”, aponta Valderli. Ele comenta que o principal fator na queda das vendas é, de fato, a internet. Mas, segundo o jornaleiro, “apesar dos benefícios da rede, não tem coisa melhor do que pegar um jornal ou uma revista para ler”.

Em relação à venda de jornais diários em si, “quando sai uma notícia quente, por exemplo, a prisão do ex-presidente Lula, é certeza ter uma semana de boas vendas”. Porém, quando não, “o que sustenta o ganho são as vendas dos fins de semana com relação ao placar do Brasileirão [campeonato de futebol brasileiro], por exemplo”.

Diante do futuro do jornalismo impresso, “no meu ponto de vista, aquelas pessoas que tem o prazer de ter o jornal em mãos para ler, normalmente não são os dessa geração, ainda vão resistir à migrar para o jornalismo online”, comenta Valderli.

Gilberto é jornaleiro desde 1990. Foto: Sabrina de Souza

Para Gilberto Barros Oliveira, jornaleiro desde 1990, “da década de 90 para cá, 50% das bancas fecharam”. Barros compartilha da mesma opinião que Louro sobre a web, “hoje é muito difícil [vender]. Com a internet, tudo é muito prático, o que acaba dificultando as nossas vendas”. Segundo ele, para conseguir resistir ao mundo mobile “a gente busca viver das variedades que a Prefeitura permite, como cigarros, bombons etc”.

Por se localizar na Avenida Virgílio Távora, próximo de um colégio, Gilberto conta que ainda garante alguns especiais, como “Guia do estudante” que é uma coletânea de matérias voltadas para vestibulares.

Internet

Diante dos relatos, com o surgimento da internet e com a chegada do jornalismo online, por volta de 1995, tem sido cada vez mais acirrada a competição de impresso versus webjornalismo. A instantaneidade das redes, tendo em vista o grande número de informações que pode-se extrair delas de maneira rápida, é um importante fator da nova geração.

Com esse fato, as bancas buscaram uma maneira de ainda estar presente no cotidiano, seja  inovando com revistas, apostilas pré-universitárias, livros em geral, ou até com alimentos, sorvetes, açaí, bombons etc. Porém, a venda de produtos alimentícios só pôde ser feita depois do decreto nº 40.184, de 26 de dezembro de 2000, que passou a permitir a venda de alguns produtos comestíveis embalados industrialmente, de forma que esses produtos incentivassem a venda dos artigos principais das bancas. Muitos também fazem recarga de celulares e venda de chips de operadoras para implementar a renda.

Um pouco de história  

Antiga banca no Rio de Janeiro. Foto: Reprodução

Com a vinda de Dom João VI, em 1808, surge o primeiro jornal impresso do país, a “Gazeta do Rio de Janeiro”, que tratava estritamente sobre o governo lusitano e sua política no Brasil. Na época, quem fazia o serviço de entrega das publicações e a sua venda nas ruas eram os escravos de ganho, assim, pode-se dizer que estes também foram os primeiros jornaleiros do país. Já em 1888, com a abolição da escravatura, quem passou a ocupar esse papel eram crianças e jovens que faziam o trabalho em troca de algumas moedas.

Os jornaleiros fixos surgiram ainda em 1876. O primeiro foi na cidade do Rio de Janeiro, com o italiano Carmine Labanca, e é dele que surge o termo “banca”. Labanca utilizou tábuas sustentadas por caixotes para poder exibir os jornais no seu quiosque. Em seguida, no ano de 1950, ganharam estrutura de metal.

Ao passar dos anos, e com a necessidade de variar dentro desse mercado, os jornaleiros passaram a também comercializar revistas em quadrinhos, gibis, cards, álbum de figurinhas, CDs, DVDs, cartões, fichas eletrônicas, etc.

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