Upcycling e a moda sustentável

            Por Marta Negreiros

O upcycling é um dos conceitos que mais se encaixam dentro propósito de moda sustentável. O reuso de materiais têxteis na produção de itens de vestuário, até mesmo em grifes, vem ganhando o mundo fashion gradativamente.

Exemplo de moda upcycling. Foto: reprodução

De maneira geral, o upcycling é a reutilização de sobras de qualquer material que se transformaria em resíduos poluentes, em novas peças. Diferente da reciclagem, processo de converter o velho em novo, o upcycling não utiliza fatores químicos, já que a matéria prima do produto descartado é mantida original. Por conta disso, seu uso poupa água e energia comparado a processos de reciclagem, uma vez que esse mesmo material irá ser idealizado de maneira diferente e criativa em novas peças únicas e totalmente sustentáveis.

A prática é vista como um exemplo totalmente inserido na economia circular, já que se beneficia sem explorar mais nenhum recurso natural, seguindo o pretexto de que nada se perde e tudo se reaproveita. Segundo William McDonough e Michael Braungart, autores do livro “Cradle to Cradle – Criar e reciclar ilimitadamente”, o redesign inteligente, presente no upcycling, é uma das melhores coisas a se fazer para cuidar do meio ambiente.

Benefícios e dificuldades

​Coleção de bolsas da Cavalera produzida com sacos de cimento. Foto: reprodução

A oportunidade de criar estilos totalmente exclusivos também é um dos pontos positivos do upcycling dentro da moda. “Do lixo ao luxo”, literalmente, qualquer coisa pode virar um item fashion. Um exemplo disso é a coleção de bolsas da grife brasileira Cavalera, que foi totalmente produzida a partir de sacos de cimento da reforma do showroom do estilista Rogério Lima, que idealizou a coleção em 2009. Produtos sem valor algum são aprimorados e melhorados alcançando um bom preço de mercado.

Os fashionistas precisam também se reinventar, já que não é simples fazer acontecer esse processo. Raquel Gondim, professora da disciplina Introdução à Projetação do curso de Moda da Universidade de Fortaleza (Unifor), afirma que, para criação, é preciso conhecimento, criatividade, planejamento e visão ampla a respeito das tendências para criar itens que atraiam os olhos do consumidor. Paciência também é importante para o upcycling, pois grande parte dos trabalhos são realizados à mão.

Alunos de moda da Unifor fazendo o processo de modelagem
Foto: Sarah Nascimento/FotoNIC

Outro fator enfrentado pela moda sustentável é seu custo aos usuários. O uso de matéria prima nova e limpa, como o algodão orgânico ou algum material reciclado, tem um custo e investimento financeiro muito maior do que as peças regulares. Entretanto, o upcycling também garante certa vantagem nesse quesito. A matéria prima utilizada, como já antes citado, é descartada sem nenhum valor, logo, não há gastos nesse processo, tornando as peças mais baratas em comparação com as que são feitas por matéria prima orgânica ou refeitas através de processos químicos. Entretanto, Raquel Gondim prioriza o trabalho delicado e complexo do design que trabalha seguindo o conceito upcycling, explicando o motivo de, muitas vezes, as roupas produzidas dessa maneira ainda serem mais caras. “Há uma limitação de matéria prima. O design cria modelagens novas e isso faz a peça ser original. Você paga pela originalidade. O custo de produção é mais barato, mas o custo da criação tem que ser levado em consideração no preço final”, relata.

Aprendizagem e mercado sustentável

Alunos produzindo na aula ministrada por Raquel. Foto: Sarah Nascimento/FotoNIC

Raquel Gondim executa o uso do upcycling em aulas práticas e teóricas. Os alunos doam roupas antigas para recriar peças completamente diferentes e originais, que depois serão doadas para moradores da comunidade do Dendê. Desde 2014, quando o curso de Moda foi implementado na Unifor, o assunto é trabalhado e praticado pelos alunos, em uma curva crescente de interesse ganhando cada vez mais importância no decorrer dos anos. “A ideia é que os alunos comecem a introduzir esse processo nas coleções que fazem durante todo o curso e também quando saírem daqui. Tanto para baratear os custos, como para ajudar o meio ambiente”, declara.

“A moda só perde para a indústria automobilística na produção de resíduos, gasta muita água. É uma indústria muito pesada para o ambiente”, afirma a professora. O upcycling seria a principal vertente utilizada pelo mundo fashion para driblar esses problemas, fazendo uso desses resíduos. A marca Petit H, derivada do grupo francês Hermés, recolhe os resíduos produzidoS pela grife e transforma em novas roupas e objetos, vendidos em bazares, diminuindo o impacto ambiental da marca.

Infografia: Daniel Vasconcelos

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