Hollywood, embranquecimento e erro de casting

Por Alessandra Baldessar

Em uma época que a representatividade ainda não estava muito em pauta, houve um papel coadjuvante em um filme de grande bilheteria que, embora parecesse irrelevante, chamou a atenção de alguns telespectadores. “Comer, Rezar, Amar”, uma adaptação do livro autobiográfico de mesmo nome, conta a história de Liz Gilbert (Julia Roberts), uma mulher branca e americana que decide viajar pelo mundo em busca de autoconhecimento e acaba se deparando com Felipe (Javier Bardem), um brasileiro por quem se apaixona em sua ida à Bali. No entanto, o ator não é brasileiro, e sim espanhol; o que é ainda mais evidente em suas tentativas falhas de falar fluentemente o português. Essa situação é o que pode ser chamado de “erro de casting”, ou má distribuição de papéis em filmes, séries ou peças de teatro.

Javier Bardem e Julia Roberts em “Comer, Rezar e Amar”. Foto: Reprodução

O cinema americano foi – e, como veremos, ainda pode ser – um dos mecanismos mais importantes usados para perpetuar a supremacia branca. Em nome do elemento central da dramaturgia, o drama, Hollywood precisa de bandidos, principalmente em filmes de ação e guerra.  Por meio do uso consistente de estereótipos raciais, esses inimigos incluíram os vietnamitas durante a guerra do Vietnã, os russos durante a Guerra Fria, os muçulmanos durante a contínua guerra ao terrorismo e os japoneses depois de Pearl Harbor.

Embora o Gabinete Federal de Investigação do Departamento de Polícia dos Estados Unidos (FBI) já tenha confirmado que os supremacistas brancos cometem muito mais atos de terrorismo do que os muçulmanos, a tendência de Hollywood a descrever os muçulmanos como seres exóticos e incompatíveis com a civilidade americana nunca cessou. “Sniper Americano”, o filme de guerra com maior bilheteria da história dos EUA, culminou em um aumento de islamofobia e crimes de ódio no país, segundo dados do Comitê Americano-Árabe de Antidiscriminação. O caso de maior repercussão na época foi o assassinato de três jovens muçulmanos na Carolina do Norte, executado no estilo franco-atirador por seus algozes.

Erros e acertos da indústria

Pôster do filme Pantera Negra. Foto: Marvel Studios/Reprodução.

No Brasil, por causa do histórico de colonização, não é diferente. “Existem várias situações em que, por causa da naturalização do racismo [no cinema], o preconceito acontece”, explica a socióloga Camila Vieira, 28, atualmente mestranda na Universidade Estadual do Ceará (UECE). “Principalmente, em novelas e filmes brasileiros, as pessoas da favela, que são os bandidos ou os empregados da casa, sempre são negras”, afirma. Apesar disso, ela se mostra otimista e cita o sucesso de “Pantera Negra”, filme da Marvel que tem o elenco formado majoritariamente por atores negros. O longa arrecadou R$ 81 milhões nas primeiras 3 semanas.

Mas onde fica o erro de casting em tudo isso? No pressuposto de que “todas as pessoas não brancas vem do mesmo contexto ético”, como descreveu o crítico indiano Apurva Asrani em um tweet acerca do filme “Bohemian Rhapsody”, cinebiografia de Freddie Mercury ainda em produção. No longa, a escolha do ator egípcio Rami Malek para interpretar o cantor de origem pérsia causou controvérsia.

Por que a representatividade importa

Em um discurso feito dois anos atrás, quando ainda era primeira-dama, Michelle Obama exemplificou a importância da representatividade com situações do seu próprio cotidiano. “Para muitas pessoas, a televisão e os filmes podem ser a única maneira de entender outras que não são como elas”, disse ela. “E eu me deparo com tantas menininhas negras que vêm até mim ao longo desses 7 anos e meio com lágrimas nos olhos, e dizem: ‘Obrigado por ser um exemplo para mim. Eu não vejo mulheres negras instruídas na TV e o fato de que você é a primeira-dama valida quem eu sou’”, relata.

Michelle Obama fala com estudantes da Escola Secundária R.S. Caulfield, em Unification Town, Libéria. Foto: Reprodução.

Segundo o estudo “Inclusão ou Invisibilidade? Relatório Abrangente Annenberg sobre Diversidade no Entretenimento”, da Universidade do Sul da Califórnia, apenas 28,3% dos personagens com falas eram de grupos étnicos não brancos. Porém, esses grupos representam quase 40% da população dos EUA. Isso se manifestou no Oscar de 2017, um ano após a polêmica do #OscarsSoWhite (#OscarMuitoBranco em português), hashtag que criticava o fato de certas categorias incluírem somente pessoas brancas. Apenas 7% dos filmes indicados tinham um elenco cujo equilíbrio de raça e etnia refletia a diversidade do país. Na televisão aberta, 19% dos programas eram etnicamente equilibrados.

Em conjunto com a falta de representação, o modo como ela se apresenta também deve ser percebido. “Se você é uma pessoa negra, asiática ou latina que vê uma versão ‘inautêntica’ ou ‘unidimensional’ de si mesma, talvez se pergunte se isso é tudo o que se espera de você na sociedade”, explica Ana-Christina Ramón, diretora assistente do Centro Ralph J. Bunche de Estudos Afro-Americanos da UCLA, em entrevista ao The Huffington Post.

A marginalização causada pelo embranquecimento

Para entender melhor o problema, é necessário definir o que se entende por whitewashing, termo original utilizado na língua inglesa, que se traduz para “embranquecimento”. Em sua forma mais simples, diz respeito a papéis de destaque sendo oferecidos, majoritariamente, a atores brancos.

Angelina Jolie (à direita), atriz branca e americana, interpretando a jornalista Mariane Pearl (à esquerda), uma francesa de ascendência afro-cubana e holandesa em “O Preço da Coragem”. Foto: Reprodução.

“O preconceito racial é tão presente na era moderna quanto no passado, pois o desenvolvimento tecnológico, junto com o fortalecimento do cinema, não o exclui”, esclarece Islene Casusa, 21, ativista negra e estudante de Psicologia no Centro Universitário Estácio do Ceará (FIC). Ela cita um dos maiores exemplos dessa resistência quando afirma que “o embranquecimento de mulheres negras é forte por conta dos padrões de beleza estabelecidos em uma sociedade. Uma mulher negra tem que se modificar para ser aceita em diversos setores e isso não é diferente no cinema”.

Islene também lembra que a representatividade está diretamente ligada à conscientização das pessoas. “Ter representatividade étnica é poder dizer que um dia o povo negro, sobretudo o povo negro, foi silenciado e esquecido por uma sociedade”, diz ela. “São poucos os filmes que mostram a representatividade e uma história concreta de vida. Um exemplo de filme é ‘Madame Satã’. O diretor, Karin [Aïnouz], faz questão de mostrar a residência e a história do personagem. Estamos avançando em questão de representação, porém ainda é pouco”, afirma.

Assim como a socióloga Camila Vieira, Islene menciona os tipos de papéis associados a pessoas não brancas e como eles devem ser evitados. “Mulheres negras não podem continuar como empregadas domésticas no meio televisivo. Homens negros não podem continuar como traficantes”, conta. Segundo ela, o mundo do cinema e audiovisual como um todo sempre vendeu essa imagem de que pessoas negras vivem em apenas uma corrente.

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