Bullying pode prejudicar seriamente as vítimas

Por Yasmim Rodrigues

”Quando passei para o terceiro ano fui agredida nas costas e no rosto por pessoas da minha escola. Pensei em deixar de estudar com medo de que acontecesse o mesmo nos outros lugares”. O relato é uma lembrança do acontecido com a estudante de Jornalismo, Carolina Albuquerque, 22, quando cursou o ensino médio. Atualmente, a intimidação sistemática, mais conhecida como bullying, se expandiu com as novas tecnologias de comunicação. Agora as agressões são praticadas também no mundo virtual por meio do cyberbullying  “Postaram uma foto minha, que eu não gostava, no Facebook, que eu pedi pra não postar, e havia muitos comentários maldosos. Foi tão horrível que eu deletei o meu perfil e, até hoje, eu penso muito antes de postar qualquer foto’’, revela Pietra Georgia, 17, estudante universitária.

Com a internet, o bullying passou a ser praticado nas redes sociais. Foto: Reprodução

O bullying não é uma forma de agressão exclusiva da geração Z. Esse tipo de violência sempre ocorreu, mas tem sido destaque nos últimos anos, pois as consequências a longo prazo dessas agressões estão sendo vistas e denunciadas com mais frequência. “A sociedade hoje está mais consciente, o bullying não é algo que acontece só uma vez, são repetidos ataques com o desejo de ferir. Há algo nele que é de um psicológico muito perverso’’, explica a psicóloga Katiane Fernandes, 37.

Os riscos do bullying foram sendo percebidos ao longo dos anos. “Quando eu era mais nova, comecei a me enxergar diferente no espelho. Eu era magra e não conseguia me ver desse jeito. Com isso, eu desenvolvi anemia, passava horas sem comer para emagrecer. Isso me perseguiu por anos. Já escreveram sobre meu peso no meu cartão de aniversário, na época, aquilo me afetou muito’’, relata Tayná Cavalcante, 17, aluna do ensino superior. O tema está deixando de ser tratado como ”brincadeira de criança” e, atualmente, no Brasil, segundo a Lei No. 13.185 (lei do bullying), os estados são obrigados a produzir relatórios bimestrais das ocorrências de bullying para o planejamento de ações. Apesar de combatido, os casos dessa forma de violência ainda são muito comuns no Brasil.

Perfis e cicatrizes

“De modo geral, o agressor tem uma carência, uma autoestima baixa. Só que isso aparece de modo inverso. O agressor pode, inclusive, ter sido agredido e estar passando por um processo de recuperação patológico. Às vezes, é até um pedido de socorro, uma forma de chamar atenção’’, afirma a psicóloga Katiane Fernandes. As vítimas de bullying também têm perfis semelhantes, porque têm um traço que chame atenção, seja ele físico ou não. “Geralmente, a vítima faz parte de uma minoria ou aparenta uma certa fragilidade’’, explica Katiane. “O agressor precisa de um freio, ele pede controle, pede limite’’, adverte.

Muitos casos de bullying são de violência psicológica. Foto: Reprodução

Esse tipo de violência nem sempre é física. Muitos casos são de violência psicológica, que podem deixar marcas igualmente profundas. “Eu não sei exatamente quando o bullying começou na minha vida. Eu não saberia dizer um momento específico, mas eu sofri por 10 anos e ainda sofro. Já tentaram me empurrar da escada, colocar remédio na minha água para me fazer passar mal, ironizavam cada detalhe meu. O bullying destruiu minha saúde mental”, conta a estudante Sarah de Sousa, 18.

As agressões, muitas vezes, podem ocorrer dentro dos ciclos de amizades. ”Eu fiz amizade com uma novata. Eu tratava ela como minha melhor amiga, mas ela passou a me difamar e dizer para as pessoas não falarem comigo. Eu mudei de escola, fiquei muito triste, porque ela se aproximou de mim e fingiu ser uma das melhores pessoas comigo e acabou sendo a pior”, lembra a estudante Pietra Georgia.”Eu aprendi a lidar com meus defeitos, mas, até o 9º ano, eu era muito insegura com a minha beleza. Ainda sou um pouco”, acrescenta ela. ”Eu era diferente. O que elas falavam sobre mim influencia até hoje no meu comportamento. Achava que eram minhas amigas. Ainda carrego comigo a imagem que elas criaram. Eu tento mudar a minha visão, mas é difícil”, afirma a estudante L.S, 17, que não quis ser identificada.

”Eu era diferente. O que elas falavam sobre mim influencia até hoje no meu comportamento” (L.S)

”Quando eu ainda era criança, meus amigos começaram a me ‘zoar’ por ser magra demais. Naquela época, eu não entendia o que era bullying, pois eram meus amigos. ‘Bullying‘, para mim, era uma palavra forte demais. Eu passei a ter vergonha do meu corpo, ia de calça pro colégio. Só me aceitei depois que cresci, entendi que posso ser bonita do jeito que eu sou”, afirma a estudante Beatriz Fajardo, 18.

Superação

A vítima precisa de uma rede de apoio muito forte para superar o bullying. Foto: Reprodução

”O que me mudou, sem dúvida, é que eu aprendi que ninguém pode ditar quem você é. Os seus amigos de verdade gostam de você por quem eles sabem que você é e não pelo que os outros dizem, tenha seus amigos”, aconselha a estudante Pietra. ”Eu acho que é muito difícil encontrar alguém que não tenha sofrido bullying. É algo que todo mundo julga como bobagem mas, no fundo, marca a sua vida. As pessoas têm uma visão errada do bullying, ele não é o caricato bullying dos filmes americanos. Para mim, ele está nas pequenas coisas”, alerta a estudante L.S

”É importante que aceitemos nossas características, porque elas nos tornam únicos e especiais. O melhor exercício é o amor próprio”, acredita Beatriz Fajardo. Segundo a psicóloga Katiane Fernandes, a vítima precisa de uma rede de apoio muito forte para superar. “O papel da escola, da família e dos amigos é fundamental nesse processo de cura, pois às vezes a vítima precisa acessar conteúdos muito internos para se fortalecer’’, afirma a psicóloga.

Relato da repórter

”O melhor exercicio é o amor próprio” – Beatriz Fajardo

“O bullying também fez parte da minha vida, veio de vozes que eram conhecidas por mim, de amigos. No começo eu revidava, eu pedia ajuda dos meus outros amigos, mas a maioria não achava que o que acontecia comigo era grave o suficiente para tamanho incômodo. ‘Você se importa demais’, era o que eu ouvia. Os outros, que entendiam a minha dor, não tinham como me defender, porque os poucos que tentaram se tornaram alvo dos ataques também. Eu não podia pedir para ninguém se colocar nessa posição por mim.

Aos poucos, eu fui parando de reclamar. Eu sentia que havia perdido minha voz, eu pedia para eles pararem e eles me ignoravam. Em casa, eu escondia, eu não queria denunciá-los. Quando eu recebia mensagens maldosas, eu fugia para que ninguém me visse triste. Fingi por muito tempo que estava tudo bem. Eu me isolei, de modo que minha família percebeu que havia algo errado. Eles me deram amor, era tudo que eu precisava. Eles me disseram que as coisas que eu ouvia não eram verdade, me fizeram sentir grande de novo. Eu estava exausta, porque ficar triste o tempo inteiro é exaustivo, e eles lutaram por mim e me fizeram feliz de novo.

Aos poucos, eu me fortaleci, eu mudei, cresci o suficiente para que os meus agressores não pudessem mais me atingir e eles pararam. Ainda há reflexos daquela época em mim. Ainda estou me curando, mesmo 5 anos depois. Eu reencontrei minha voz, nunca quis vingança. Eu só queria que ninguém mais sentisse o que eu senti. E quanto a eles? Eu os perdoei, porque eu mereço paz”.

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