“Jornalismo é publicar algo que alguém não quer que seja publicado”

Por Clara Menezes e Yasmim Rodrigues

Com essa afirmação do escritor e jornalista George Orwell, o presidente do Innovation Media Consulting Group, Juan Señor, conduziu seu espaço de fala. A palestra, mediada pelo professor de Jornalismo, Alejandro Sepúlveda, ocorreu hoje (20) e contou, também, com a presença do consultor de mídia e ex-diretor da BBC, Lúcio Mesquita, e do diretor-editor do jornal Diário do Nordeste, Idelfonso Rodrigues. Com o tema “Midiamorfose – Como reinventar o Jornalismo na era digital”, o evento teve como objetivo explicar o papel do jornalismo na atualidade.

“Somos uma fábrica, uma usina de informação”, relata Juan Señor. Para ele, a velocidade “mata” o jornalismo, pois “estamos cegos com as novas plataformas digitais”. Por isso, o jornalista, muitas vezes, esquece seu papel principal: contar histórias. Segundo Señor, as tecnologias dão a ideia de que a realidade é uma, que não há um espírito de transformação. Mas, “nós [jornalistas] somos o vinho, não a taça”.

“Nós [jornalistas] somos o vinho, não a taça” (Juan Señor)

Juan Señor falando sobre o amendoim. Foto: Everton Lacerda.

Segundo Juan, a notícia não deve ser tratada como um amendoim e sim como caviar, pois, atualmente, devido às grandes alterações provocadas pela tecnologia, é fácil se ter acesso a informação. Porém, o conhecimento de qualidade não alcança a todos.

Durante a sua palestra, o presidente do Innovation Media Consulting Group destacou a importância da modernização das redações, apresentando diversas redações ao redor do mundo e como elas se ajustaram ao mundo tecnológico. ‘’Essa redação funciona em duas velocidades’’, explica Juan, se referindo a uma redação na Costa Rica, que passou por um notável projeto de adaptação às novas formas de se consumir informação.

Diferenças no consumo

O ex-diretor da BBC, Lúcio Mesquita, conta que a emissora pública nunca foi impressa. Sua história começou no rádio e, com o surgimento da televisão, foi um dos pioneiros na plataforma. Porém, o crescente aumento da internet fez com que a BBC precisasse se adaptar. “Não necessariamente as pessoas estão consumindo menos conteúdo, mas estão consumindo de forma diferente”, afirma. Para ele, a preocupação da atualidade é como contar histórias pelo celular.

“Não necessariamente as pessoas estão consumindo menos conteúdo, mas estão consumindo de forma diferente” (Lúcio Mesquita)

Segundo Mesquita, o sucesso da BBC se deve ao fato da empresa querer sempre se atualizar para se adaptar às mudanças do mundo moderno. O “Iplayer”, por exemplo, é uma plataforma digital que reúne toda a programação da BBC. Com isso, a “geração Y” acessa o conteúdo por meio do celular.

Outra situação percebida por Lúcio Mesquita na nova era é que as pessoas querem soluções. Pois em qualquer dos mundos, a notícia sempre vai ser sobre as exceções. “Vai sempre ganhar a má notícia”, aponta o jornalista, ao dizer que há um cansaço da má notícia. No entanto, segundo ele, pesquisas mostram que os seres humanos querem soluções. Essa, portanto, é a proposta do “Outside Source”, que procura contar histórias de soluções inovadoras para problemas aparentemente “invisíveis”.

O mundo digital

Idelfonso Rodrigues em sua fala. Foto: Everton Lacerda.

A adaptação dos meios de comunicação para as plataformas digitais se fez necessária. “O jornalista não morreu hoje, ele morreu 10 anos atrás”, brinca Lúcio Mesquita sobre a velocidade da informação. Para o diretor-editor do jornal Diário do Nordeste, Idelfonso Rodrigues, “as coisas estão se tornando cada vez mais rápidas”. Com isso, muitas pessoas não vão conseguir se adaptar.

“É um mundo fragilizado, porque é um mundo muito volúvel”, explica Idelfonso. Porém, “existe um chão que a gente precisa ter para saber fazer jornalismo”. Para o jornalista, essa estrutura é a escrita.

Voyeurismo

Para Juan Señor, o voyeurismo nunca é bom. Com as plataformas digitais, os profissionais se acostumaram a não ir à rua. Mas, segundo o ex-diretor da BBC, Lúcio Mesquita, “o jornalista que não é curioso, que não vê, não é jornalista”. Para ele, as melhores matérias nascem de uma curiosidade. “O olhar tem que ser constante. Se você baixar o olhar, você não é jornalista”, finaliza.

A palestra fez parte de um dos eventos para os 18 anos do curso. Foto: Everton Lacerda.

De acordo com o professor de Jornalismo da Unifor, Alejandro Sepúlveda, 55 anos, mediador do debate, “foi uma oportunidade rara, pois dificilmente você consegue reunir profissionais tão experientes que estão pensando o jornalismo contemporâneo e suas tendências, tanto da perspectiva de produto como de empresa, em uma dimensão mundial”. O professor também destacou a participação do jornalista Lúcio Mesquita, que atuou na BCC. “Mostrou o diferencial de um veículo de natureza verdadeiramente pública. Ou seja, algo praticamente ausente no cenário de comunicação nacional e totalmente desconhecido do público brasileiro”.   

Para o ouvinte e estudante do primeiro semestre de Jornalismo, Thiago Mourão, 18, a palestra trouxe ensinamentos.“Temos que produzir uma notícia boa, com os porquês e o que acontecerá depois deles e não apenas com informações básicas”.

O evento ocorreu em comemoração aos 18 anos do curso de Jornalismo da Universidade de Fortaleza (Unifor).

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