Identidade de gênero no esporte

                       Por Marta Negreiros

A inserção de mulheres trans nos esportes de alto rendimento é, atualmente, um assunto muito controverso na sociedade. Depois do caso de Tifanny Abreu, esse vem sendo um tópico presente nas rodas de debates do país. O caso Tifanny, como ficou conhecido, veio a tona no final do ano de 2017 quando a jogadora de vôlei entrou para o elenco da Superliga feminina nacional, defendendo o time de Bauru.

A polêmica deu-se por alegações de que a jogadora,  que passou por um tratamento hormonal, teria vantagens sobre o restante das atletas cisgêneras. Nascida como Rodrigo, Tifanny já havia disputado competições na categoria masculina do esporte, já que começou o processo de mudança somente aos 29 anos. Hoje, a esportista tem 34 e já disputou a Liga Italiana Feminina, em que também causou alvoroço. Atualmente, apresenta uma média de um pouco mais de cinco pontos por parcial e é destaque tanto nas quadras, como também na representatividade de uma minoria que luta por integração nos diversos campos da sociedade.

Tifanny Abreu, jogadora do Bauru. Foto: reprodução

São muitos os pontos que estão sendo discutidos, tanto de perspectivas naturais, quanto sociais. De um lado a vantagem biológica que essas atletas podem ter, de outro, sua inclusão que deve abranger todas as áreas dos direitos humanos. O Comitê Olímpico Internacional (COI) legaliza a participação de Tifanny na categoria feminina, já que ela se encontra dentro das exigências apontadas pelo órgão, que são o reconhecimento civil de gênero, passagem por testes de hormônios que devem apresentar testosterona abaixo de 10 nmol/L, e espera de 12 meses depois do tratamento hormonal antes de competir. Entretanto, algumas jogadoras já se manifestaram contra. É o caso da medalhista de bronze olímpico, Ana Paula Henkel e de Tandara, atuante da Superliga, que alegam respeitar, mas não aprovam a liberação da bauruense.

​Tifanny em jogo pela Super Liga. Foto: reprodução

Por se tratar de um assunto novo, pouco debatido, há uma certa escassez de informações, o que gera conflito entre os prós e os contras. Há quem diga que mesmo após os procedimentos de diminuição hormonal de testosterona, a estrutura óssea e os músculos não mudam, pois são alterações que acontecem na puberdade, o que tornaria a competição injusta. O estudo Race Times For Transgender Athletes (Tempos de Corrida para Atletas Transgêneros), feito pela americana Joana Harper, contradiz isso, ao afirmar que o tratamento hormonal reduz significativamente a massa muscular, a densidade óssea, velocidade, força e resistência. Além disso, é exigido pelo COI que as mulheres trans tenham níveis de testosterona ainda menores que as mulheres cis, e isso, ainda segundo o estudo, derruba o discurso da vantagem. “Carros menores com motores pequenos podem ultrapassar carros maiores com motores pequenos”, declarou Harper em entrevista para a Vice News. A Federação Internacional de Voleibol (FIVB) já se manifestou sobre o assunto. Em nota emitida no começo desse ano, declarou que investiria em aprofundar a questão com mais estudos, a fim de garantir que qualquer decisão tomada pela FIVB seja baseada nos dados e conhecimentos mais recentes nesta área.

  “Carros menores com motores pequenos podem ultrapassar carros maiores com motores pequenos” (Joana Harper)

Lorena Regis, 28, formada em educação física e ex-professora de vôlei, encara o assunto como pouco trabalhado na formação de profissionais da sua área. “As pessoas acabam só criticando por achar que é uma invasão da atleta, como se aquele não fosse seu espaço, pensam só se é homem ou se é mulher e que cada um tem seu lado, então tudo se resume a isso”, afirma. Por isso, ela vê como importante a implementação dessa discussão nas salas de aula entre os educadores físicos.

Trans apoiando Tifanny nas arquibancadas. Foto: reprodução

Os ativistas trans e defensores das causas LGBT vêm essa integração como necessária para garantir cada vez mais a inclusão dessa minoria em todos os âmbitos sociais. Tifanny, por exemplo, é vista como ícone da luta de reconhecimento da identidade de gênero. Letícia Aquino, 18, se identifica como gênero fluído,  pessoas que mudam de gênero de tempos em tempos, é praticante de Futsal e alega ser totalmente válida a participação de trans em qualquer espaço esportivo. Ela aponta que as críticas a aceitação da inclusão existem por ainda haver preconceito em relação a isso. “É uma questão de educar as jogadoras que estão contestando, e a sociedade em geral, para que as pessoas possam compreender a identidade de gênero”, relata.

Outros casos

Renee Richards atuando profissionalmente. Foto: reprodução

Alguns esportes têm em seu histórico a participação de mulheres trans nas competições. No tênis, a americana Renee Richards conseguiu chegar a final do torneio de duplas  no Aberto dos Estados Unidos e depois que encerrou a carreira tornou-se treinadora de uma das maiores tenistas de todos os tempos, Martina Navratilova. Outro caso polêmico foi o de Fallon Fox, lutadora de MMA. Ela venceu quase todos os combates que disputou na carreira, mas depois de confessar ser trans foi alvo de críticas vindas de outras atletas do esporte. A estrela Ronda Rousey se recusou a enfrentá-la e deu declarações públicas contra a participação de Fallon no esporte, que não disputa uma luta desde 2014.  

Por enquanto, a inclusão de mulheres trans ainda é incerta. Tanto os que apoiam a causa, quanto os que são contra anseiam por mais respostas. Para que haja justiça entre ambas as partes envolvidas e em todas as áreas de interesse o esclarecimento sobre o assunto deve acontecer o quanto antes.

 

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