A dificuldade da mídia de representar o autismo

Por Alessandra Baldessar

O Dia Mundial de Conscientização do Autismo, ocorrido no dia 2 de abril, busca conscientizar a população sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Segundo o Manual Diagnóstico de Transtornos Mentais (DSM-5), em suma, o autismo é uma série de condições caracterizadas por inabilidades sociais, comportamentos repetitivos e dificuldades em relação à fala e comunicação não-verbal. Ao contrário do que muitos pensam, não há somente um autismo, mas diversos, causados por combinações distintas de influências genéticas e ambientais.

Dia Mundial de Conscientização do Autismo. Foto: Reprodução

De acordo com o Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), órgão de saúde ligado ao governo dos Estados Unidos, um estudo revelou que uma a cada 100 crianças nasce com TEA. Sendo assim, calcula-se a existência de dois milhões de autistas no Brasil. Porém, devido ao atraso do país em termos de diagnóstico precoce, é provável que o número seja maior.

A falta de informação é uma das principais causas para a escassez de registros. “Embora, hoje, a grande maioria da população tenha fácil acesso à internet e outros meios de comunicação, algumas informações divulgadas em sites e blogs ainda não são verídicas”, afirma a psicóloga Beatriz Castro, 25, pós-graduanda em Neurociência e Aprendizagem. “Vivenciamos uma guerra entre o que é verdade e o que é mito. Essa má informação gera o tão famigerado preconceito e dificulta o convívio social entre pessoas que tem autismo e os que não possuem, considerando que, no próprio contato com a sociedade, eles não têm a aceitação necessária para que possam se sentir seguros em ambientes sociais”, relata.

Os graus do espectro

Após a conclusão do diagnóstico e, posteriormente, avaliação em profundidade da pessoa, os especialistas atribuem um dos três níveis de funcionamento do autismo de leve a severo, com base nos critérios do Manual Diagnóstico de Transtornos Mentais (DSM-5). Um informativo do CDC, resumido no box a seguir, dá um exemplo de classificação de várias áreas de função, como inteligência e habilidades sociais e de comunicação.

Leve Moderado Severo
Habilidades verbais normais, mas dificilmente comunicativas Dificuldade na comunicação verbal Déficits graves na comunicação verbal
Inteligência normal ou acima do normal Funcionamento mental normal ou abaixo do normal Funcionamento mental ou cognitivo prejudicado
Menos comportamentos restritos e repetitivos Alguns problemas comportamentais Comportamentos extremos
Interações sociais atípicas Disfunções sociais Comprometimento nas habilidades sociais

Fonte: Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC).

 

Cada autista tem sua peculiaridade e pode experienciar variações no nível detectado de comprometimento funcional. Além disso, entre os indivíduos diagnosticados com o mesmo grau de autismo, certas disfunções podem ser mais proeminentes em uns do que em outros. O nível de funcionamento atribuído a uma criança ou adulto também serve como um guia para os tratamentos, intervenções e apoio de que ele(a) precisa para alcançar o melhor resultado possível.

A romantização do autista

Sam Gardner (Keir Gilchrist) em uma das cenas da série. Foto: Reprodução.

Quando o assunto é autismo, uma das primeiras imagens que vem na cabeça da maioria das pessoas é o personagem de Dustin Hoffman, Raymond Babbitt, do icônico filme “Rain Man” (1988). No longa, devido à sua capacidade de cuidar de si mesmo e se comunicar com os outros, bem como suas habilidades “extraordinárias” em termos de matemática e memória, a condição de Raymond é classificada como Autismo de Alto Funcionamento (AAF). Um sucesso recente foi “Atypical”, série da Netflix que estreou ano passado (2017) e foi renovada para uma segunda temporada, a qual apresenta como protagonista um adolescente, Sam Gardner, com o mesmo grau de autismo.

A título de curiosidade, o AAF é muito parecido com a Síndrome de Asperger (SA), que é considerada parte do espectro. Entretanto, por ter sintomas mais brandos e oferecer uma maior independência ao indivíduo, não está incluída nos níveis clássicos de autismo. O que traz um questionamento: e os casos mais graves?

“Se formos parar para pensar, o processo de romantização de qualquer transtorno está diretamente ligado ao estabelecimento, a qualquer custo, da felicidade, do bem-estar”, explica a psicóloga Beatriz Castro. “Os problemas e os conflitos são postos de lado. Sabemos que a realidade vivenciada é repleta de dificuldades a serem superadas. Essa romantização tira de nós a visão de que o autista é um sujeito de desejos e direitos. Mostra o lado ideal da coisa, não como de fato ela é e isso faz com que percamos a representatividade, gerando uma visão distorcida”, explica.

Maria de Graça Maduro e sua filha, Caroline. Foto: Arquivo Pessoal.

Maria da Graça Maduro, 62, entende bem o que é isso. Ela é mãe de Caroline, 28, diagnosticada com autismo aos três, mas que se agravou severamente ao longo dos anos. Sua página no Facebook, “O Autismo em Minha Vida”, foi criada com o intuito de compartilhar sua rotina como mãe e cuidadora em tempo integral de Caroline. Suas postagens geram discussão sobre o transtorno, especialmente nesse lado do espectro. No dia 1º de abril, horas antes do Dia de Conscientização, Graça postou um texto em que falava do “autismo que ninguém quer ver”, como expressou no título, contando a história da filha. A postagem viralizou, chegando a 32,3 mil compartilhamentos e 6,4 mil comentários.

https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=2034815223262330&id=1961045187306001

“Muitos vêem o autista como aquela criança quietinha, com habilidades às vezes acima da média, somente com problema de socialização”, afirma para explicar o que a levou a escrever o desabafo. “Mesmo o autista funcional enfrenta muitos outros problemas: de relacionamento, sensorial, comunicação, comportamental… É uma síndrome que afeta todo o funcionamento do indivíduo.

Em relação ao retorno que obteve do texto, Graça diz que foi majoritariamente positivo, além de explicar por que o assunto ainda é um tabu. “Muitos pensam como eu, mas acabam não se manifestando nos grupos para evitar aborrecimentos entre as mães. Percebo que quem tem um filho [com autismo] leve sente-se ofendido quando falamos que o autismo severo é mais complicado. Sempre digo que não estou disputando [para ver] quem sofre mais, e que cada um sabe de suas dores, mas enfrentar o autismo severo é estar no centro de um furacão.

Conscientização para quem?

Estátua do Cristo Redentor é iluminada com luz azul para a campanha que marca o Dia Mundial de Conscientização do Autismo. Foto: Ricardo Moraes/Reuters.

A psicóloga Beatriz Castro ainda ressalta que falta muito a alcançar, especialmente no que diz respeito ao Dia da Conscientização. “O autismo vem ganhando uma notoriedade muito grande nos últimos anos. A nível de informações, ele vem sendo amplamente divulgado, embora ainda tenhamos informações errôneas sobre ele. A grande questão vem quando passamos para a prática, para o campo do dia-a-dia. Saber o que é autismo não garante a esses sujeitos o estabelecimento de seus reais direitos, muito menos o respeito de seus pares.

Para ela – e muitos outros –, é necessário que o autismo seja encarado de frente. Em meio a tantos estereótipos, talvez uma luz azul por si só não seja o suficiente. Repensar o papel do autista na mídia deve ser prioridade da indústria atual do entretenimento, que, ultimamente, procura com imenso afinco defender a inclusão, ou pelo menos está sendo levada a defender. Conclui-se, portanto, que é preciso normalizar o autismo tanto no cotidiano quanto no imaginário coletivo, e o mais importante: normalizá-lo em toda a magnitude do seu espectro.

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