“O jornalismo é uma profissão que lida com dilemas éticos todos os dias”

Por Clara Menezes

Com essa frase, a repórter especial e ex-ombudsman do jornal Folha de S.Paulo, Vera Guimarães iniciou sua palestra nesta sexta-feira (06), na Universidade de Fortaleza (Unifor). A jornalista apresentou o novo Manual da Redação da Folha, lançado em 2018. A principal diferença entre este o último manual do jornal, lançado em 2001, é que o novo aborda sobre os temas vividos diariamente nas redes sociais, como as fake news.

Veras Guimarães assinando seu livro. Foto: Juliano Almada

Para ela, o jornalismo precisa sempre estar atento aos discursos e escutar todas as possíveis versões de uma mesma história. “Ainda mais depois do advento das redes sociais, é isso que nos diferencia”, conta a jornalista, referindo-se ao papel do jornalista em pesquisar e questionar as informações na internet. Segundo Vera, apesar de a Folha de S. Paulo ter um manual de redação, quase todas as regras no livro, como a proximidade com a fonte, são subjetivas.

Dilemas éticos

De acordo com a repórter especial da Folha, não existe regra para a prática do jornalismo. No entanto, “essa é uma das delícias da profissão, mas é uma angústia”, revela. Para ela, o objetivo do manual não é estabelecer regras objetivas, mas sim, evitar que os jornalistas errem. “Não importa se você tem grandes acertos e um erro, você sempre vai ser crucificado por aquele erro”, revela.

“Não importa se você tem grandes acertos e um erro, você sempre vai ser crucificado por aquele erro” (Vera Guimarães)

Uma situação que mostra a ética do jornalista é quando alguma matéria, por exemplo,  coloca o profissional em conflito de interesses. Nestes casos, Vera fala que é extremamente necessário informar o editor para que ele resolva a situação. Ela conta a história de uma jornalista da Folha de S.Paulo que trabalhava na editoria de política. Seu marido, no entanto, se tornou assessor de imprensa do Aécio Neves no ano de eleição. Então, a repórter pediu licença do trabalho ao editor até que o fim do período eleitoral.

Vera Guimarães e o coordenador do Curso de Jornalismo, Wagner Borges. Foto: Juliano Almada

Vera também conta sobre a relação com as fontes. “O entrevistado tem o direito de saber que você é jornalista”, conta. No entanto, essa situação também tem princípios subjetivos. Em momentos que o profissional precisa investigar, faz necessário a omissão do cargo que ocupa. Mas, segundo ela, para que essas matérias ocorram, os jornalistas se reúnem horas com o setor jurídico.

Militância

“Por mais justa que seja sua causa, se você tem uma militância, isso pode causar problemas na sua atividade profissional”, declara. Para Vera, é necessário criar uma distância entre a emoção e o trabalho jornalístico, porque isso pode “cegar” a visão do repórter. Além disso, qualquer situação passível de críticas de pessoas contra o jornal pode comprometer o jornalista. Por isso, a Folha recomenda que os jornalistas evitem ao máximo participarem de movimentos políticos. A única proibição é de não compartilhar boatos, pois o compromisso com a verdade é inerente ao Jornalismo.

Essa recomendação ocorre, também, porque a internet tem o poder de propagar informações de maneira rápida. “É uma ilusão achar que rede social é onde você pode ser livre”, afirma Vera. Portanto, é necessário ter cautela com o que é feito. “É uma questão de você saber o que está fazendo”, conta.

“É uma ilusão achar que rede social é onde você pode ser livre” (Vera Guimarães)

Manual da Redação

Vera Guimarães em entrevista. Foto: Juliano Almada

O manual da Folha está em sua 5ª edição. No entanto, a diferença do novo livro é o aprofundamento na ética e no comportamento perante às redes sociais. Dividido em quatro partes, o manual aborda desde a história do jornal até às informações básicas das áreas mais abordadas no jornalismo. Para Vera, isso se fez necessário porque “o jornalista é especializado em nada”. Ou seja, esses profissionais podem cometer erros que afetam determinadas pessoas de maneira negativa por causa do desconhecimento sobre o assunto.

O manual também oferece informações, principalmente, para os estudantes. Regras de o que fazer antes, durante e depois da apuração são extremamente importantes paras os iniciantes. Vera conta que, na maioria das vezes, os jornalistas novos não sabem a diferença entre o tema e o enquadramento das pautas. Por isso, é necessária a leitura dos manuais jornalísticos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

css.php