Aceitação do corpo também é fashion

Por Yasmim Rodrigues

Os padrões de beleza existem há séculos, prova disso é a existência de esculturas como a Vênus de Willendorf, datada do período paleolítico. Ela é tida como uma idealização do corpo feminino daquela época. Porém, a busca excessiva pela beleza tem consequências, e o debate sobre esses efeitos vem sendo recorrente. ”Nenhuma medida é suficiente para o que é exigido dentro do ‘padrão”’, explica a modelo Amanda Mendonça, 18. ”Muitas [modelos] não dizem, mas ver uma menina, literalmente, desmaiando de fome no camarim é massacrante. A busca da beleza ainda é muito recorrente, é muito rígida, idealizada e inatingível”, reconhece a modelo.

Amanda Mendonça em um desfile. Foto: Arquivo Pessoal

Apesar do debate sobre esse assunto ter crescido nos últimos anos, o ”padrão” está longe de ser esquecido. Segundo a pesquisa realizada pela secretaria de saúde de São Paulo, 77% das jovens têm propensão a distúrbios alimentares. Em busca de promover a aceitação do corpo, marcas de roupa, como a ASOS, criam campanhas inovadoras em seus sites. “Nós caminhamos historicamente para o questionamento do padrão. A empresa que ficar com apenas um tipo de corpo está fadada ao fracasso’’, declara Anna Karynne da Silva, 51, professora de psicologia da Universidade de Fortaleza.

A empresa publicou em seu site de e-commerce fotos de roupas iguais em modelos de biotipos diferentes, para que mais pessoas pudessem se identificar com as roupas. E, assim, a ideia de ”corpo padrão” fosse parcialmente quebrada. “Começa a se criar essa lógica de ficar bem em qualquer roupa, pois você já não precisa mais entrar no padrão, as roupas se ajustam ao seu corpo’’, conclui a professora Karynne.

”Eu acho que a moda está vivendo um momento de mudança, principalmente em relação à aceitação do próprio corpo. Esse tipo de campanha é muito importante e válido, sim”, afirma Júlia Rodrigues, 18, estudante de Moda da Universidade de Fortaleza. ”Eu acho a ideia fantástica. A moda tem que ser inclusiva. Essa ideia mostra que há corpos diferentes e que todos esses corpos estão sendo pensados, isso quebra um pouco o estereótipo”, completa Ana Claudia Farias, 47, coordenadora do curso de Moda da Universidade de Fortaleza (Unifor).

Um problema generalizado

Uma enquete, realizada pelo Jornalismo NIC com 87 jovens de 16 a 21 anos, revela que cerca de 80% deles já desistiram de comprar uma peça de roupa, porque não tinham um corpo igual ao do(a) modelo. Destes, mais de 88% afirma que é uma situação que já ocorreu mais de uma vez. “Essa faixa etária tem uma certa fragilidade em relação a absorção do que é dito como padrão, pois estão em um processo de fazer novos laços sociais e construir uma nova identidade de corpo’’, explica a psicóloga Anna Karynne. Esses dados provam que o padrão de beleza intimida de forma incisiva os jovens e deve ser tratado como assunto sério.

“Na verdade, o padrão do corpo não é fisiológico, mas é de um corpo como produto que é atrelado a um simbolismo de felicidade ou de aceitação. Esse é o grande problema em relação ao corpo’’, afirma a psicóloga. ”O mundo que eu vivi e as experiências que eu tive me fizeram perceber que muitas modelos fazem um esforço descomunal para atingir as medidas exigidas em concursos. Há muitas dessas competições que são compradas, ou seja, todo o sofrimento que elas passam pode ser em vão”, lembra a modelo Amanda.

Repercussão

Modelos da ASOS. Foto: Reprodução

A campanha da marca inglesa ASOS foi notícia em países como Estados Unidos, Reino Unido, Nova Zelândia e Brasil. ‘’É importante lembrar que se continua vendendo um padrão, mas agora é um padrão de aceitação que não deixa de ser uma forma de controle’’, alerta Karynne. ”Se as outras empresas adotarem esse tipo de imagem pode ser um pontapé inicial para a quebra do padrão”, conclui a modelo Amanda.

”Eu adorei a proposta da marca, porque um dos maiores problemas na moda, na minha opinião, são esse editoriais maravilhosos, com roupas lindas, mas que a gente não sabe como vão ficar em um corpo diferente daquela da modelo”, afirma a estudante de moda Júlia Rodrigues. ”Uma empresa dessas consegue atingir vários nichos, porque traz esse olhar diferenciado de mais cuidado com todo mundo e inspira as outras pessoas, espero que isso vire moda”, admite a professora Ana Cláudia.

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