Notícias positivas buscam espaço em meio a violência

Por Lígia Grillo

Você percebeu um aumento de notícias negativas em jornais ultimamente? Cerca de 95,3% das pessoas disseram que sim, de acordo com uma pesquisa realizada pela reportagem, que entrevistou 85 pessoas. As notícias de teor violento estão sendo cada vez mais transmitidas em jornais e em portais de notícia. De acordo com o psicólogo Higor Fernandes, 27, o consumo dessas notícias podem fazer mal a saúde mental. Medo, ansiedade e fobias sociais são alguns dos problemas que podem ser gerados pela propagação dessa violência.

Compartilhando o bem

Agência da Boa Notícia. Foto: divulgação

Foi na temática do positivismo e da intenção de trabalhar a paz por meio da comunicação que a Agência da Boa Notícia foi criada. Tudo começou com pequenas reuniões no Sindicato dos Jornalistas. O empresário Luís Eduardo Girão estava preocupado com a questão da violência e reuniu um grupo de comunicadores interessados nessa temática. De acordo com Ângela Marinho, uma das fundadoras da Agência, foi a própria violência que deu início a essa ideia. “Por uma triste coincidência, em uma das primeiras reuniões, que seria o dia de fundação da Agência, um dos diretores, que pediu o anonimato, sofreu uma tentativa de assalto na porta do sindicato. Levou um tiro e foi levado para o hospital, mas graças a Deus sobreviveu”, conta.

“Esse fato marcou muito para nós e foi mais um alento. Nós recebemos isso como um sinal de que deveríamos prosseguir e fortalecer a instituição que nascia a partir de um ato de violência. Nós iríamos fazer o contrário, iríamos estimular a paz pela comunicação junto aos profissionais de comunicação”, acrescenta Ângela. De acordo com a jornalista, o portal não defende apenas a  divulgação de notícias positivas, mas de notícias que respeitem os direitos das pessoas envolvidas. “Quase sempre o desrespeito atinge as minorias, pessoas pobres, negras, mulheres, prostitutas, gays, trans, que não conhecem seus direitos e não sabem ou não podem se defender”, explica.

Ângela mostra que os indicadores de dados da Agência expõem o resultado do trabalho efetuado. “Esses indicadores são uma forma de mostrar como a gente alcançou a sociedade. O nosso trabalho é valorizar a paz, as pessoas, incentivar os profissionais de comunicação a produzirem notícias respeitando o direito do outro”, relata. Apesar da Agência da Boa Notícia ter sido uma das pioneiras no assunto, ainda existem outros portais que também trabalham com a valorização de notícias positivas, como o site Só Notícia Boa ou o Jornal de Boas Notícias.

“O nosso trabalho é valorizar a paz, as pessoas, incentivar os profissionais de comunicação a produzirem notícias respeitando o direito do outro” (Ângela Marinho)

Ética do jornalista

É muito comum encontrar em canais da televisão programas policiais como Cidade Alerta, Cidade 190 e Barra Pesada. Apesar de 91,8% das pessoas afirmarem que não assistem esse tipo de conteúdo, os programas são um dos tipos mais famosos nas redes de televisão brasileira, chegando a alcançar 8 pontos no Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) em seus respectivos horários de transmissão. Conhecidos pelo sensacionalismo e grande exposição de violência, os programas policiais, muitas vezes, ultrapassam limites éticos e são questionados pelos profissionais de comunicação.

Ângela Marinho, uma das fundadoras da Agência da Boa Notícia. Foto: arquivo pessoal.

O Código de Ética dos Jornalistas garante o direito à informação, como também da conduta profissional do jornalista, da responsabilidade profissional e das suas relações profissionais. “A produção da notícia tem vários limites, previstos por um ordenamento jurídico rico no Brasil. Começa pela Constituição Federal, que em seu artigo 221, item IV, diz que a produção e programação de rádio de TV deve respeitar os valores éticos e sociais da pessoa e da família. Os estatutos da Criança e Adolescente (ECA), do Idoso e tantas outras normas são desrespeitadas diariamente pelos programas policialescos. O nosso código de ética é desrespeitado com frequência”, explica Ângela.

É sabido que cenas de violência podem impactar o público mais sensível, gerando problemas que afetam o psicológico. Para o psicólogo Higor Fernandes, mesmo estando em contato com notícias negativas o tempo todo, esse ainda não é motivo para se desacreditar na humanidade. “Ouvi uma frase que me consola e me faz ir além: ‘podemos pensar que existe mais violência e ódio do que atos de amor, mas não, o mal é barulhento e o amor é silencioso. Existe muito amor no mundo, muita gente fazendo o bem”, abranda o psicólogo.

Vendo por outro lado

Para quem lida diretamente com notícias negativas, a situação pode ser ainda pior. Contudo, Cely Fraga, 39, editora chefe do portal da Agência da Boa Notícia afirma que, como profissional, se sente realizada. “Na comunicação, quantas pessoas podem dizer que tem o privilégio de divulgar apenas boas notícias? Eu trabalhei 10 anos em redação de jornal impresso, dos quais os últimos três, diretamente com a editoria de Cidades e Polícia. Embora nosso papel seja informar a sociedade, somos afetados nesse processo. Quantas notícias dolorosas eu tive que cobrir? Quantas vezes cheguei em casa com um nó da garganta devido ao grau de violência que tomou conta do estado? Quantas vezes, eu vi pais e mães chorando a perda do filho? Não sei nem responder a essas perguntas”, desabafa Cely.

“Na comunicação, quantas pessoas podem dizer que tem o privilégio de divulgar apenas boas notícias?” (Cely Fraga)

A jornalista acrescenta que o trabalho faz um grande bem para si mesma como pessoa. “Cheguei em um ponto que me obriguei a escolher, optei pelo lado da agenda positiva. É um trabalho que me rende em tantos aspectos. Descobrimos muitas histórias valiosas e humanas. É chance redobrada de descobrir como o ser humano tem nobreza guardada dentro de si. Pessoas com muito pouco, mas se doando pelo próximo. Gente que reescreveu a própria história, com luta e coragem. Ao todo, essa convivência com notícias positivas tem ensinado lições e me proporcionado experiências muito especiais”, relata.

 

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