Os desafios de falar de Direitos Humanos no Brasil

Por Newton Filho

Há exatas duas semanas, o Brasil ficava em choque com a morte da vereadora Marielle Franco; carioca, negra, moradora da comunidade da Maré, Zona Norte do Rio de Janeiro. Entre as causas defendidas pela ex-vereadora estavam as dos direitos humanos, assunto recorrente em rodas de conversas e debates.

Como parte do programa defendido por esses direitos estão o direito à vida, à liberdade (liberdade de opinião e de expressão) e o direito ao trabalho e à educação. Como crítica dos que trabalham em defesa desses valores, está a exposição limitada que a mídia dá para o termo. “No Brasil, a pauta policial é muito falada e os Direitos Humanos, às vezes, resumido a isso. Mas, por exemplo, acesso à alfabetização também é um direito humano”, exclama João Escórcio, 25, coordenador da Rede Cuca (Centros Urbanos de Cultura, Arte, Ciência e Esporte) de Fortaleza.

No Brasil, a pauta policial é muito falada e os Direitos Humanos, às vezes, resumido a isso. Mas, por exemplo, acesso à alfabetização também é um direito humano” (João Escórcio)

Filmagem de aluna da Rede Cuca para vídeo institucional. Foto: Reprodução

Escórcio dedicou parte de sua vida ao tema, e conta que atualmente a rede atende uma média de 16 mil pessoas por mês, desde o jovem que se matricula em um curso até aquele que apenas frequenta a biblioteca ou o cinema. Do outro lado, o Diretor dos Direitos Humanos e Cidadania da Rede Cuca, Daniel Mamede, 26, fala como a morte de Marielle foi algo que abalou a todos os brasileiros. Mais que temer por sua segurança e integridade física, Mamede está preocupado em como esse fato pode repercutir no futuro.

“É muito emocionante ver que essa geração está atenta aos acontecimentos e se revolta com a situação atual”, relata o diretor. Daniel também se orgulha dos avanços do Estado, principalmente na área da educação, e fala da importância em construir uma narrativa política cada vez mais forte nesses direitos.  

Também atenta a questão, a estudante de Publicidade e Propaganda, Yasmin Menezes, 23, descreve sua indignação com a banalização da morte na sociedade. “Até com crianças, as pessoas já não se comovem tanto, de tanto que somos bombardeados com notícias extremamente chocantes todos os dias. Virou algo cotidiano”, relata Yasmin.

Assassinatos

Desmatamento no Ceará. Foto: Reprodução

Só em 2017, a Anistia Internacional contabilizou 58 assassinatos de defensores dos Direitos Humanos no país, no período de janeiro a agosto. Esse número mostrou que a maioria desses defensores estavam ligados, principalmente, à questão do meio ambiente e à disputa de terra. “O Brasil é o país com o maior número de defensores de Direitos Humanos assassinados todos os anos”, contou Renata Neder, coordenadora de pesquisa e políticas da Anistia, para o portal do G1.

No Ceará, os números também são altos. Segundo o escritório de Direitos Humanos e Assessoria Jurídica Popular Frei Tito de Alencar, órgão auxiliar da Comissão dos Direitos Humanos da Assembleia Legislativa, o número de denúncias ligadas à desrespeito a esses direitos aumentou 100% no primeiro trimestre de 2017 em comparação com 2016.

Pra quem vive essas causas diariamente, o problema parece estar longe de acabar, mas a pauta está em discussão é algo a se comemorar. “Temos que continuar falando sobre essas mortes e esses direitos enquanto eles estiverem sendo desrespeitados. Não podemos nos calar”, conclui João Escórcio, coordenador da Rede Cuca.

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