A arte como instrumento de humanização

Por Alessandra Baldessar

A história do artista atormentado, seja ele qual for, todos nós conhecemos bem. Especialmente quando se trata de Vincent Van Gogh, considerado o pai fundador da Arte Contemporânea, que não é apenas conhecido por suas obras singulares, mas também pelos episódios de surto que ajudaram a criar uma imagem equivocada do pintor em vida. Hoje, o sofrimento dele e de muitos outros artistas é, de alguma forma, celebrado e até romantizado. Não é o caso desse filme.

“Com Amor, Van Gogh” se passa em 1891, um ano após sua morte, e é centrado nas diversas impressões que as pessoas de sua convivência tinham dele. O enredo, aparentemente simples, ganha cor e forma com os 65.000 quadros feitos à mão por uma equipe de 125 artistas, tornando-se o primeiro longa-metragem exclusivamente pintado a óleo do mundo. É uma maneira de homenagear o grande artista e, ao mesmo tempo, oferecer a visão única que ele tinha do universo: todos os traços e tons das pinturas são estritamente característicos de Van Gogh.

Processo de inspiração e caracterização dos personagens. Foto: Reprodução

O fato é que, apesar de adentrarmos o mundo de Van Gogh por meio das pinturas, a trama ainda se desenvolve a partir do ponto de vista alheio. Assim, todos têm uma história diferente a contar, além de uma teoria de como o pintor realmente morreu um ano atrás. O protagonista se torna o briguento Armand Roulin (Douglas Booth), filho do carteiro de Vincent (Chris O’Dowd), que, a pedido do pai, sai em busca do irmão do artista para entregar uma última carta destinada a ele. Armand vai de Paris até Auvers-sur-Oise, onde Van Gogh supostamente se matou, ouvindo as opiniões sinceras de amigos e conhecidos do visitante holandês.

Um desfecho para Van Gogh

Em uma das cenas mais memoráveis, Margaret (Saoirse Ronan), filha do psicólogo de Vincent, nota uma certa obsessão com os mistérios envolvendo a morte do pintor por parte de Armand e pergunta: “você quer saber tanto sobre sua morte, mas o que sabe de sua vida?”. É um questionamento também para nós, telespectadores e amantes de sua arte, que muitas vezes fazemos tal qual Armand e esquecemos o artista para focar nas tribulações que sofreu em vida. Como escreve Alizeh Sheikh, colunista do The Chronicle, “‘Com Amor, Van Gogh’ nos diz para deixá-lo partir”.

No final das contas, Armand conclui que o que permanece é o legado artístico de Van Gogh, agora um verdadeiro artista de renome, e nada mais. Não que devamos nos esquecer de sua árdua batalha contra transtornos psicológicos, mas que ela sirva de inspiração no que remete à conscientização das pessoas, uma vez que o próprio pintor não se envergonhava disso.

“Você sabe que é muito, muito necessário que pessoas honestas permaneçam na arte?”, Van Gogh contou ao seu irmão em uma de suas inúmeras cartas, a qual não está no filme. “Dificilmente alguém sabe que o segredo de um belo trabalho está, em grande parte, na verdade e no sentimento sincero”, conta. Quando lidamos com saúde mental, devemos enxergá-la da forma mais crua possível, para que não seja viável a romantização, e humanizá-la a fim de evitar tais desfechos. Afinal, o que seria da arte sem o artista?

“Você sabe que é muito, muito necessário que pessoas honestas permaneçam na arte?” (Vincent Van Gogh)

Confira o trailer abaixo:

 

Ficha técnica

Ano de produção: 2017

Direção: Dorota Kobiela e Hugh Welchman

Duração: 95 minutos

Classificação: 12 anos

Gênero: Drama/Mistério

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