Ser representado pode ser difícil na vida e nos jogos

Por Thomás Regueira

O Brasil atualmente ocupa a 11ª posição na indústria de games mundial. Segundo a Associação Brasileira de Desenvolvedores de Games (Abragames), em oito anos o número de empresas desenvolvedoras aumentou em 600%. O faturamento do setor cresceu um pouco mais devagar, calculado em 25% entre os anos de 2014 e 2016. A mesma pesquisa revela que existem cerca de 61 milhões de usuários de jogos eletrônicos no Brasil. Esse mercado foi crescendo e diversos tipos de jogos e personagens foram aparecendo. No entanto, a maioria dos personagens principais costuma ser de homens brancos, musculosos, heterossexuais e de meia idade, ao mesmo tempo em que as mulheres são representadas como fracas e pouco importantes no enredo das histórias.

Cammy, personagem do Street Fighter (Capcom). Foto: reprodução

E isso existe desde o começo. Os games surgiram no Brasil em meados das décadas de 1970 e 1980 e trazem a proposta de entreter, principalmente, o público jovem. Para se destacarem, as personagens femininas geralmente eram hiperssexualizadas e utilizavam pouca roupa. Um exemplo é a Cammy, personagem da série Street Fighter. Observa-se nesses primeiros jogos, quando se tratava de personagens fortes, os negros, as mulheres e LGBTs eram esquecidos.

Porém, com as conquistas e a militância dos movimentos sociais, o mercado dos jogos vem procurando, aos poucos, incluir mais personagens negros, LGBTs, mulheres que não sejam sexualizadas e que fujam dos padrões estéticos da sociedade. Guilherme Pedrosa, 24, formado em Sistemas e Mídias Digitais, realizou seu trabalho de graduação sobre os personagens dos jogos e a sua representação da sociedade. Ele concluiu que “os principais responsáveis por essa mudança são os jogos independentes, eles acabam oferecendo uma maior variedade [de representação] servindo, justamente, para suprir essa grande carência que o mercado de jogos tem, em que as minorias não se sentem representadas.”

A luta continua

Apesar dessas mudanças, muitos jogos ainda trazem as características da falta de representatividade. Raquel Santana, 22, estudante de Jornalismo, é fã do gênero RPG (Role-Playing Game) onde é possível o jogador criar e customizar o seu personagem. Ela se diz “agoniada” quando vai jogar algo nesse estilo e não tem como mudar o sexo, a cor da pele e outras coisas no personagem; “Tem que só engolir aquilo e, no máximo, mudar as roupinhas. Eu penso: ‘queria jogar com uma pessoa que se parecesse comigo, que eu me identificasse mais’. Porém, a opção que tem é a que eles dão”, fala.

“Vai para cozinha, vai lavar prato” (Raylane Marinho)

Raylane Marinho, 22, é jogadora de LOL. Foto: Thomás Regueira

A questão de se sentir incluído vai além de como os personagens são retratados. Jogos online, como o Counter Strike, apresentam mecanismos de chat com voz e texto para conectar os diversos jogadores, mas como a grande maioria são homens, muitas meninas e pessoas LGBTs são alvos de preconceito durante as partidas. Raylane Marinho, 22, estudante de jornalismo e jogadora de League of Legends (LOL), diz que muitas vezes “você pode estar lá jogando normalmente, mas a partir do momento em que descobrem que você é mulher, tudo muda. ‘Vai para cozinha, vai lavar prato’, são alguns dos comentários que usam para te ofender”.

Futuro da indústria dos games

Personagens Overwatch (Blizzard). Foto: reprodução

Embora ainda exista muito preconceito tanto nos jogos como na comunidade dos jogadores, muitas empresas de grande porte vêm buscando trazer inovações nesse sentido, com o objetivo de “dar voz” às minorias e expandir o mercado para públicos diferentes. É o caso do moba (multiplayer online battle arena) Overwatch da Blizzard, um dos games mais jogados do mundo, conta com diversos personagens que fogem do padrão da sociedade. Dentre eles estão Zarya, uma halterofilista russa com o corpo bem musculoso; Tracer, que foi revelada ser homossexual pela própria Blizzard; Doomfist, um negro que possui um braço biônico, entre outros personagens.

Além de Overwatch, é válido citar personagens como Samus Aran (Metroid), caçadora de recompensas que luta contra os alienígenas usando sua armadura; Lara Croft (Tomb Raider), arqueóloga britânica que se aventura para achar objetos valiosos em tumbas e ruínas perigosas; Varus, primeiro personagem assumidamente gay de League of Legends, entre outros.

Segundo Guilherme Pedrosa, a importância de trazer essa representatividade está em mostrar para as pessoas que as características vistas como negativas na sociedade podem ser algo de destaque em um personagem fictício. Para ele, essa evidência “é reconfortante para uma pessoa que passou a vida inteira sofrendo por causa de uma condição que ela não pode escolher, como raça, sexualidade ou deficiência. É importante se encontrar representada em um meio que, até então, não é muito receptivo ou variado em suas representações”.

Confira a história de Varus, do League of Legends (Riot Games):

 

 

 

 

 

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