Vida no ônibus: ambulantes driblam dificuldades

Por Sabrina Souza

Anderson com seu material de trabalho. Foto: Sabrina Souza

“Tudo que tenho hoje é graças a essas vendas”, declara Anderson Silva Leite, 30, estudante de Teologia e vendedor ambulante em coletivos da capital cearense. Anderson estuda de segunda a quinta pela manhã e aproveita as noites e o dia de sexta para fazer seu trabalho. Atuante nesse meio há cerca de oito anos, Anderson vê suas vendas de trufas e carteiras compactas como um meio bastante lucrativo. “Já estive em outros trabalhos, mas sempre retorno ao comércio dentro dos coletivos. Consigo arcar com meus compromissos, com as minhas responsabilidades em relação à minha filha, minha faculdade e o sustento da minha casa”, relata.

Ao subir nos coletivos, o comerciante cumprimenta os passageiros e enfatiza que sua ocupação vai além daquela. Principalmente, destaca nunca ter tido nenhum problema com drogas. “A coisa mais comum na cidade é ver os vendedores se colocando em condição de pedinte. Eu percebo que isso [essa postura] incomoda muito mais as pessoas do que aqueles que vêm com material de trabalho”, observa Anderson.

O comerciante revela, também, a necessidade de saber lidar com os ganhos e as despesas diárias. “Se você tem responsabilidades com outras pessoas, é muito importante que saiba equilibrar a mão. Ser autônomo é vantajoso,  na maioria dos dias há lucros, mas também exige cuidado por parte do vendedor”.

Falta de oportunidades

Balas e pipocas para serem comercializadas no ônibus. Foto: Sabrina Souza

Prestes a pegar o seu próximo ônibus, Diego Sousa, 31, diz encontrar no coletivo a sua única fonte de sustento para a família. Diego tem cinco filhos e ainda ajuda seus pais, por isso faz esse tipo de serviço há dez anos. Ele viu um salto no número de ambulantes nos últimos tempos. “Acredito que a causa principal é o desemprego. Já estive trabalhando em outros empregos [formais], mas ser autônomo em um período como esse [de crise], é quase o ideal para conseguir arcar com as despesas [cotidianas] e tentar sobreviver buscando seu próprio ‘trabalho’ [sustento]”, conta.

Os comerciantes apontam algumas dificuldades presentes em seu dia a dia dentro de conduções. Segundo ele, o maior obstáculo de seu trabalho está em relação ao preconceito sofrido. “Por sermos ambulantes, muitas pessoas não nos veem como um trabalhador honesto. Já chegaram a nos agredir por simplesmente tentar levar um sustento para casa”, desabafa o vendedor.

“Por sermos ambulantes, muitas pessoas não nos veem como um trabalhador honesto. Já chegaram a nos agredir por simplesmente tentar levar um sustento para casa” (Diego Sousa)

Já para Anderson, o programa do Bilhete Único da Prefeitura de Fortaleza é o seu principal “adversário” nas vendas. Com esse projeto, é possível pegar quantos ônibus forem necessários pagando uma única integração em um período de duas horas. No entanto, segundo Anderson, “houve uma limitação e, hoje, temos direito a apenas 25 integrações/dia no total (urbano e metropolitano), o que dificulta o nosso faturamento diário, tendo em vista que teremos que pagar algumas passagens por fora do nosso orçamento”.

Privatização do serviço

Os dois vendedores também cobram apoio por parte dos governantes para abertura de um tipo de grupo ou sindicato. “Seria o melhor tanto pra gente quanto pra eles, em questão de organização. Para tornar nossos trabalhos mais livres e saudáveis, uma associação seria ideal”, reivindica Diego Sousa.

Apesar do desejo dos ambulantes de terem um sindicato próprio, essa forma de trabalho é proibida por uma lei municipal. De acordo com o artigo 40 da lei 7.163/92, não é permitido o acesso de ambulantes em transportes públicos e em dependências dos terminais. A redação do Portal Nic procurou falar com agentes da Prefeitura de plantão nos terminais para um posicionamento, mas não obteve resposta.

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