O cabelo e suas tribos

             Por Marta Negreiros

Liso, cacheado, colorido, curto, castanho ou crespo. Cada cabelo conta uma história e representa exteriormente um indivíduo e sua identidade, assim como do seu ambiente diário.

Alunos do curso de Jornalismo, Alessandra Barros e Thiago ​Mourão. Foto: Sarah Nascimento

Muito mais do que pretextos estéticos, o estilo de cabelo de uma pessoa pode revelar muito sobre ela. Por exemplo, o cabelo afro é compreendido como forma de empoderamento das mulheres negras e de representatividade das raízes de um povo. Mas se pode ir além disso. As cores, misturas, tamanhos e formas diferentes, assim como os estilos mais conservadores, são cada vez mais comuns na formação de expressão pessoal, tudo dentro de um só espaço como, por exemplo, na universidade.

Segundo a professora de Psicologia, Lorena Pinheiro, a adoção de estilos é um fenômeno social. As mudanças, como no cabelo, ocorrem como busca de pertencer a um determinado local e de sentir-se integrado nele. No momento em que, sobretudo, o jovem ganha liberdade de escolha, seus gostos são postos em evidência a partir do espaço onde ele atua e de suas escolhas pessoais para formação de identidade própria. Os estilos em comum acabam se agrupando, dando cara e roupagem a um curso dentro da universidade. “A juventude procura no âmbito social outras referências que dêem sustentação a sua circulação pelo mundo, justamente nesse momento que nascem os grupinhos nas escolas ou faculdades”, declara.

“A juventude procura no âmbito social outras referências que dêem sustentação a sua circulação pelo mundo” (Lorena Pinheiro)

As diferentes tribos capilares encontradas dentro de um espaço universitário, como o da Unifor, são muitas vezes encaradas com preconceito. É de entendimento comum que alguém usando cabelo verde não causará estranhamento entre alunos de um curso  mais informal, como os da área da comunicação, por exemplo. Já no curso de Medicina, a cor seria vista como quebra de padrões de um ambiente. A dos estudantes de Odontologia, Direito ou Engenharia optam por cortes mais convencionais. Mas esse padrão considerado normal não deixa de expressar a identidade, seguindo uma linha mais tradicional, assim como os cursos.

André Bastos, Victor Gadelha, André Dantas, alunos do curso de Direito. Foto: Everton Lacerda

O estudante de Medicina do primeiro semestre, Marcus Vinícius, 18, afirma nunca ter visto um cabelo considerado diferente nos blocos do seu curso. “Já fui em blocos ‘mais alternativos’ e notei a diferença de estilo ao ambiente em que estudo. As pessoas possuíam cabelos coloridos, bagunçados, cortes exóticos. Não vejo isso aqui”, ressalta. Ele também diz que se sente identificado com o estilo  do espaço em que estuda e não tem interesse em mudar a imagem que adotou para si.

Há casos em que o ambiente e a convivência influenciam na mudança radical, como consta Lilian Campelo, 17, aluna de Publicidade e Propaganda. Seu cabelo rosa nasceu pouco tempo depois de entrar no curso, quando gradativamente  se sentiu mais segura para mudar de vez. “Antes era pintado só nas pontas, depois que entrei aqui resolvi completar”, fala. O espaço e, principalmente, as pessoas com as quais convive todos os dias fez Lilian tomar a decisão. “O perfil do curso foge do tradicionalismo”, esse é outro argumento usado pela estudante para acompanhar, usando o cabelo, o estilo diferente do ambiente em que atua.

Gustavo Queiroz, 24, vivenciou os dois estilos. Hoje, aluno do curso de Jornalismo, usa cabelo comprido e raspado nas laterais, mas nem sempre foi assim. Quando cursava Direito usava um corte comum, dentro do esperado no meio acadêmico que seguia. “No Direito, quer queira, quer não, todo mundo ainda é mais conservador. Aqui no Jornalismo a galera é mais aberta a todo tipo de estilo”, afirma.

Gustavo Queiroz, ex-aluno de Direito e estudante de Jornalismo. Foto: Sarah Nascimento

Cabelos

Fotos: Everton Lacerda e Sarah Nascimento

 

2 comentários em “O cabelo e suas tribos

  • 28 de março de 2018 em 13:27
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    Muito boa a matéria! Faço direito e tenho percebido que tem aumentado o numero de pessoas que usam cabelos afro, coloridos, cheios de acessórios, penteados inusitados, meninas de cabelo curto e homens de comprido… Claro, são poucos, mas me fez pensar em como um curso “conservador” pode se abrir às possibilidades e opiniões de pessoas diferentes. E como o cabelo pode demonstrar isso!

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