“Eu curto o prazer do percurso”

Por Melissa Carvalho

Coragem e determinação são fundamentais para enfrentar desafios. A jornalista de economia, Neila Fontenele, encara mudanças da vida de forma realista. Aos 49 anos, a cearense acredita na evolução constante e que o processo de aprendizado não se restringe apenas à infância. “Eu me sinto em processo de transformação, de ebulição. Eu não sei onde vai dar ainda, mas que eu estou tentando fazer sem pressa para não perder o prazer do caminho”, afirma.

“Eu me sinto nesse processo de transformação, de ebulição. Eu não sei onde vai dar ainda, mas que eu estou tentando fazer sem pressa para não perder o prazer do caminho” (Neila Fontenele)

Nascida em 14 de novembro de 1968, em Viçosa do Ceará, a 348km da capital, é filha de funcionários públicos. A família veio para Fortaleza quando a jornalista tinha cinco anos de idade. Ainda durante a infância, Neila foi morar com a mãe, a avó e a irmã, devido à separação de seus pais. Apesar das dificuldades, hoje acredita que a mãe conseguiu alcançar seus objetivos na criação das filhas. “Eu sou fruto de uma mãe muito lutadora, que tentou preservar a família de forma difícil na época, no final da década de 1970. Uma mulher sozinha criando as filhas. Minha mãe sofreu muitos preconceitos, mas sempre foi muito guerreira, muito empoderada”, declara.

Neila Fontelene 49, ​é jornalista e estudante de psicologia na Unifor. Foto: Juliano Almada.

“Como todas as meninas, sempre quis ser bailarina. Depois eu quis ser escritora e depois psicóloga”, relembrou bem humorada. Apesar da vontade de cursar Psicologia, Neila deixou a ideia de lado quando fez uma visita a um centro psiquiátrico, aos 16 anos. O lugar causou a sensação de que ela não seria feliz naquela profissão e não estava pronta para enfrentar aquilo. “Eu não estava preparada na época para ouvir os relatos das pessoas com quem eu conversei, ver as pessoas que eu vi. Eu era uma pessoa muito religiosa e aquilo mexeu muito comigo. Eu achava que aquelas pessoas precisavam de apoio.”

Novas etapas

No momento de escolher o curso para o vestibular, Neila decidiu tentar para Comunicação por sentir afinidade com a àrea, depois da Psicologia. No segundo semestre de 1986, a jornalista conseguiu ingressar na Universidade Federal do Ceará (UFC). “Já comecei a me envolver. Meu primeiro estágio foi na UFC, na assessoria de imprensa. Cortei muito jornal, separando as notícias que a instituição estava sendo citada”, fala.

Durante sua formação, teve a oportunidade de trabalhar no jornal O Povo na coluna social do José Rangel e produzindo agendas para o caderno Vida e Arte. “Foi uma época de muito aprendizado e de muito erro. A gente erra, se frustra e cresce em tudo que a gente faz”, conta. Ao concluir a graduação, começou a trabalhar na Tribuna do Ceará, na editoria de economia. A jornalista fez cursos na Bolsa de Valores Regional com o presidente Raimundo Padilha, e acabou se encontrando com a área que trabalha até hoje. “Eu achava que gostava de cultura, mas a economia passou a ser uma janela para eu ver o mundo”

“Eu achava que gostava de cultura, mas a economia passou a ser uma janela para eu ver o mundo” (Neila Fontenele)

Durante a faculdade, conheceu Ricardo Jorge, com quem hoje é casada. Os dois cursaram Jornalismo e chegaram a trabalhar no mesmo local. Ao todo, são 30 anos juntos e 25 de casamento. Ricardo decidiu seguir carreira acadêmica e foi aprovado para um mestrado no Rio de Janeiro. Neila o acompanhou mesmo sem projetos para o destino. Seguindo conselhos de amigos, assistiu algumas aulas como aluna ouvinte na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e fez alguns cursos na Bolsa de Valores. Logo, conseguiu alguns trabalhos como freelancer, vendendo suas matérias sobre o mercado financeiro. Ao voltar para Fortaleza, entrou para o Diário do Nordeste, onde trabalhou por 10 anos na editoria de economia. Atualmente, Neila é editora executiva do O POVO no Núcleo de Negócios.

Família

Neila é mãe de duas filhas. Layla, que cursa Psicologia, e Sofia, ainda uma adolescente de 13 anos. A maternidade só pôde ser conciliada com o trabalho devido à boa base familiar. O marido, Ricardo, foi fundamental no momento de dividir as obrigações, já que queriam participar ativamente da criação das meninas. Sua relação com a mãe está viva no seu relacionamento com as filhas. A força que viu dentro de casa foi essencial para se tornar mãe. Para Neila, “a gente tem que honrar o que veio antes. A gente se espelha, reproduz o tom de voz, as atitudes, as decisões e a postura diante da vida”, afirma.

Representatividade no jornalismo

Neila Fontenele recebeu o prêmio RioMar Mulher na categoria de comunicação, em, 2017. Foto: reprodução.

Ganhadora de diversos prêmios, como o “Profissional da Imprensa” em 2011, Neila foi destaque no Prêmio RioMar Mulher, em 2017, na categoria de Comunicação. A jornalista ressalta o privilégio em representar a profissão e a importância de mulheres dentro dessas premiações, por acreditar na falta de espaços dedicados para o gênero. “Eu acho que a gente tem que cavar mais espaços para as mulheres, para que saibam que é possível conciliar a vida pessoal com a profissional e com os próprios desejos. A premiação é um reconhecimento e uma abertura de espaço. Eu me sinto honrada em estar com aquelas mulheres”, reconhece.

Projetos futuros

Hoje, Neila voltou para a faculdade e cursa o 5° semestre de Psicologia na Universidade de Fortaleza (Unifor). É colega de faculdade da própria filha e se mostra empolgada com as possibilidades que essa nova profissão promete. “Eu sempre vi a economia com uma janela para encarar o mundo. E hoje eu encaro a psicanálise, em que as questões são mais primitivas, do nosso desejo, da nossa vontade e da nossa vaidade. Tudo isso é anterior à economia.”, afirma.

A fase como aluna de Psicologia está sendo um descobrimento para a jornalista, que ainda não sabe o que vai fazer após concluir o curso e aproveita as incertezas como uma forma de encarar as novas realidades. Para Neila, a Psicologia é vista como a profissão da terceira idade e uma possibilidade para quando se aposentar do Jornalismo. “Eu curto o prazer do percurso, ainda não me cobrei. Mas eu acho que vou para a clínica, talvez eu concilie com o jornalismo, não sei ainda”, declara.

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