Felicidade e liberdade são conquistas árduas, diz Karnal

Por Lara Montezuma

Culturalmente, a morte costuma ser vista como o fim de um ciclo. No entanto, para o historiador e professor da Universidade de Campinas (UNICAMP), Leandro Karnal, 55, a perda de um ente querido, além de doloroso, é um momento de reinvenção. Desde novembro de 2017, ele está viajando o país com a palestra “Felicidade e Liberdade: a busca por um mundo de significados reais”. Após a morte de sua mãe, que inicialmente o ajudou a idealizar o projeto, Karnal se propôs a falar sobre felicidade para milhares de pessoas. O evento aconteceu em Fortaleza na última sexta (09), no Teatro Rio Mar.

“Eu quero que cada um e cada uma presente saia com mais questionamentos para criar mais respostas individuais”, disse o palestrante logo no início do evento. Quem esperava a exposição das fórmulas para ambas as definições em 1 hora e 40 minutos, logo, se enganou. O historiador afirmou que o seu papel não era fornecer receitas, e sim possibilitar uma visão crítica sobre o que iria abordar.

Dor e felicidade

O livro é um dos grandes sucessos do autor Rubem Alves. Foto: divulgação

O desenrolar de sua palestra poderia ser repleto de clichês comuns em livros de autoajuda ou em perfis de redes sociais motivacionais, mas o seu humor e as suas alfinetadas à sociedade atual tornam o seu discurso muito mais interessante e acessível. Sua primeira afirmação deixa os espectadores confortáveis em pensar sobre a felicidade e a liberdade conforme os parâmetros de cada um, livres para concordar ou discordar do que é dito. “Mesmo que tenham pouca experiência de vida, tem uma coisa que só você, sentado aí, tem noção esta noite: qual é o padrão de sua vida e o que te faz feliz”, acentua.

Um dos principais pontos mencionados por Karnal é o mau uso das redes sociais. Segundo o professor, a felicidade que publicamos é distante da nossa realidade, o que gera um mal-estar geral. Mas este choque de visões, apesar de doloroso, é necessário para que a felicidade seja alcançada.

“Nós vamos desenvolvendo dores, e estas vão gerando certas características em meu comportamento justamente como reação”, explica após fazer uma alusão ao livro de crônicas “Ostra Feliz Não Faz Pérola”, do escritor e amigo Rubem Alves. Na obra, há um texto, com o mesmo título, que explica como a pérola, material precioso, é resultado de pequenas partículas de areia que incomodam a ostra. Além desta metáfora, o professor também se apoia de histórias bíblicas, depoimentos de colegas artistas e frases de filósofos para embasar suas declarações. “Se nascêssemos em estado de êxtase permanente, ninguém seria feliz no mundo”, relata antes de apresentar um vídeo do ator Lázaro Ramos, 40, que reafirma a ideia de que não há felicidade constante nem liberdade plena.

Foi este trecho do evento que mais tocou a coordenadora escolar Rosa Albuquerque, 42. Segundo a espectadora, o momento lhe proporcionou uma maneira diferente de analisar as adversidades cotidianas. “Nós estamos acostumados a olhar apenas o lado ruim das coisas, não conseguimos enxergar o bem em alguns males”, comentou.

“Se nascêssemos em estado de êxtase permanente, ninguém seria feliz no mundo” (Leandro Karnal)

 

“Porque me repetis: vem por aqui?”

Com este verso do poema Cântigo Negro, de José Régio, interpretado por Alice Juguero, em um momento da palestra, Leandro se debruça sobre a imagem de liberdade. A musicista também cantou a ópera “Lascia Ch’io Pianga” (“Deixe-me chorar”, em português). “O mundo é cheio de regras morais, sou feliz por seguí-las ou por quebrá-las?”, questionou.

Leandro Karnal também é autor de livros. Entre os mais vendidos estão “Pecar e Perdoar” e “Conversas Com Um Jovem Professor”. Foto: divulgação

Em certo momento, o palestrante foi até a plateia para abordar temas como sexualidade e carreira. “Não infrinjam as regras para irritar alguém, infrinjam as regras para serem mais vocês, para serem livres”, aconselha. Ele ainda reforçou que, embora seja importante escutar o conselho daqueles que o cercam, ignorá-los também pode ser importante pois “a grande chance de estragar a vida é minha”, afirma em meio a risos do público.

Ao finalizar o evento, Karnal corrobora a ideia de que liberdade e felicidade não tem fórmula e advém de esforços, e do despertar da consciência individual e coletiva. “Liberdade é fundamental para a felicidade. É uma conquista árdua, é fruto de cultivo”, afirma ao relembrar os meses difíceis pelos quais passou. A dor que sentiu ao falar sobre o assunto, após a perda de sua mãe, lhe proporcionou uma grande lição. “Sentir a falta de alguém é a prova mais dolorosa que sou feliz porque fui e sou muito amado”, reflexionou ao encerrar mais um dia em que tenta cumprir a promessa que fez a sua mãe, o de ser uma pessoa melhor e amar, apesar das circunstâncias, pois “só o amor vale a pena”.

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