A resistência vivida de “Uma Mulher Fantástica”

Por Clara Menezes

Marina Vidal (Daniela Vega) é uma mulher transexual que trabalha como garçonete, mas sonha em ser uma cantora renomada. No dia de seu aniversário, ela e seu namorado, Orlando (Francisco Reyes), decidem comemorar em um restaurante, com o planejamento de uma viagem a dois. Tudo está aparentemente bem. Porém, na mesma noite, Orlando é vítima de um aneurisma e morre no hospital.

Marina e Orlando em comemoração. Foto: Reprodução

É nesse momento que o filme começa a mostrar, com delicadeza, as dificuldades de ser uma mulher trans em uma sociedade preconceituosa. Marina, em luto, ela sai de madrugada do hospital onde seu namorado morreu e vaga pelas ruas vazias. Em seguida, um carro da polícia aparece e a leva para a delegacia. Ela está sendo investigada por causa das feridas que Orlando tinha em seu corpo. Ele apenas tinha caído da escada enquanto sofria o aneurisma. Mas, a família de seu namorado e a polícia não parecem acreditar em sua versão.

Por ser quase 20 anos mais nova que Orlando, Marina é questionada sobre as suas intenções. Para muitos, ela só queria se aproveitar do dinheiro, como uma prostituta. A família de Orlando culpa Marina por todos os problemas que ocorreram, desde o fim do primeiro casamento do homem até a sua morte.

Preconceitos

Familiares de Orlando que não querem chamá-la por seu nome social. Médicos que não sabem como lidar de uma forma ética com pacientes trans. Policiais que exigem sua carteira de identidade para ter a certeza de que Marina é ainda, na verdade, um homem. Com todas essas situações, o diretor do filme, Sebastián Lelio, consegue conduzir o espectador a entender o que pessoas transexuais vivem todos os dias no mundo: o medo, a vergonha, a intimidação.

Uma das cenas mais fortes do filme é quando Marina precisa tirar sua roupa para um exame de corpo delito. O médico não sabe como chamá-la. A garçonete escuta tudo e, com um olhar de extrema angústia, sai do box apenas com uma toalha para fazer as fotos. Primeiro, a cena mostra seus pequenos seios. Depois, o médico pede para que ela tire toda a toalha e Marina se contorce. Ela ainda não fez a cirurgia e não gosta de falar sobre isso. Em meio a muitos questionamentos durante o filme, alguém pergunta se ela já é realmente uma “mulher”. Marina responde apenas com “isso não se pergunta”.

Confira o trailer abaixo:

 

Oscar

“Uma Mulher Fantástica” ganhou na categoria de “Melhor Filme Estrangeiro”. Foto: Reprodução

“Uma Mulher Fantástica” foi o primeiro filme estrelado por uma transexual a ganhar o Oscar. O longa chileno venceu na categoria de “Melhor Filme Estrangeiro”. Com isso, a presidente do Chile, Michelle Bachelet, convidou os diretores do filme e a atriz Daniela Vega para uma visita ao Palácio de La Moneda.

A repercussão do filme trouxe ao Chile o que talvez seja uma batalha vencida na comunidade LGBT+. Há mais de cinco anos, os parlamentares do governo debatem sobre uma lei que garanta o reconhecimento do nome social no âmbito jurídico de pessoas transexuais. O projeto entrou no Congresso, em 2013, e foi aprovado pela Câmara dos Deputados apenas em janeiro deste ano.

“O crescente consenso de que o Chile tenha uma lei de identidade de gênero deve se transformar em fatos concretos. Por isso, decidi dar urgência ao projeto que está em sua última etapa no Congresso. As pessoas transgênero não podem continuar esperando”, escreveu a presidente Michelle Bachelet em sua conta no Twitter. “Como outras grandes expressões da nossa arte, esse filme [Uma Mulher Fantástica] impulsionou conversas sobre avanços sociais que o Chile demanda”, continua. Essa aceleração ocorreu, principalmente, após a repercussão do filme “Uma Mulher Fantástica”. É a arte impulsionando a História.

“Como outras grandes expressões da nossa arte, esse filme [Uma Mulher Fantástica] impulsionou conversas sobre avanços sociais que o Chile demanda” (Michelle Bachelet)

Ficha técnica

-Ano: 2017

Direção: Sebastián Lelio

Duração: 104 minutos

Classificação: 14 anos

Gênero: Drama

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