Elza Soares, 80 anos de resistência

Por Letícia Feitosa

Aos 80 anos, Elza Soares continua se reinventando. Foto: divulgação

Em um programa de calouros, uma menina de 13 anos se atreveu a cantar. A garota simples entrou no palco acompanhada dos olhares zombadores da platéia. O apresentador, Ary Barroso, não se conteve ao ver as vestes da jovem negra e lançou a pergunta “O que você veio fazer aqui?”. Em meio às risadas, a menina respondeu: “Eu vim cantar”. Assim, minutos depois, Elza Soares se apresentou pela primeira vez em público. Surpreso, Ary, que antes a debochara, declarou para todos presentes que uma estrela havia nascido.

A carioca nasceu em 23 de junho de 1937, na favela Moça Bonita. Aos 12 anos, em 1949, seu pai a obrigou a se casar com Lourdes Antônio Soares. Um ano depois, o casal já estava esperando seu primeiro filho. A necessidade fez com que Elza tentasse uma chance como cantora. Em uma entrevista, anos depois, a artista compartilhou o verdadeiro motivo de sua inscrição na competição da Rádio Tupi. “Tive que participar do programa de calouros porque meu filho estava morrendo, e eu precisava de dinheiro”, declarou.

Elza teve que, por muito tempo, conviver com a pobreza e com a fome. Tudo foi muito precoce em sua vida, e a situação humilde não a permitia se aventurar no mundo das artes. Ainda na casa dos vinte, ela encarou a morte de dois filhos e do marido, Lourdes Antônio. Aos 22, a carioca precisou criar seus outros cinco filhos sozinha. Mas, só após se tornar viúva, Elza pôde investir na sua carreira como cantora e foi capaz de transformar a dor que sentia em arte. Logo começou a caminhar por gêneros musicais distintos, como a Bossa Nova, o jazz, o samba e até o eletrônico. Hoje, aos 80 anos, Elza Soares é uma sobrevivente.

Em 1999, Elza foi eleita a cantora brasileira do milênio pela Rádio BBB de Londres. Foto: reprodução

Carreira musical

Quando Elza Soares conheceu Louis Armstrong. Foto: reprodução

Em 1960, aos 23 anos, a artista conseguiu se destacar no mundo musical com a gravação de “Se Acaso Você Chegasse“. Na mesma época, Elza se mudou para São Paulo, onde começou a se apresentar em teatros. Não demorou muito para que a sua voz rouca começasse a ser conhecida nacionalmente. Em 1962, ela foi convidada por um empresário uruguaio a cantar o hino nacional brasileiro na Copa do Chile e deixou os presentes impressionados. Louis Armstrong era um dos presentes e se encantou por Elza Soares. O jazzista fez questão de conhecê-la pessoalmente.    

Ainda nos anos 1960, ela fez diversos concertos na Argentina, conquistando o público internacional. No final da década, Soares lançou três discos de vinil que viriam a ser sucesso de vendas. Os três volumes de “Elza, Miltinho e Samba” trouxeram duetos com o cantor Miltinho e caíram no gosto popular. Os shows no exterior continuaram na década seguinte. Elza realizou uma turnê pelos Estados Unidos e Europa apresentando seu repertório, aclamado pelo público e pela crítica.

Vinil do projeto “Elza, Miltinho e Samba”. Foto: reprodução/Discogs

Em 1999, para celebrar a chegada dos anos 2000, a Rádio BBC de Londres elegeu Elza Soares como a cantora brasileira do milênio. No ano seguinte, o álbum “Do Cóccix até o Pescoço” foi um divisor de águas na trajetória da carioca e garantiu-lhe uma indicação para o Grammy Latino.  Na época, o disco não levou o troféu, mas, em 2015, a artista conseguiu obter o mesmo reconhecimento, sendo indicada novamente na premiação.

O seu último trabalho lançado foi “A Mulher do Fim do Mundo”, que, além da indicação, rendeu para Elza o prêmio de Melhor Álbum de Música Popular Brasileira no Grammy Latino. O 33º álbum de estúdio da cantora, “Deus é Mulher” está com o lançamento previsto para o primeiro semestre de 2018. De acordo com o comunicado da gravadora do disco, Deck, o mais novo trabalho de Elza é sobre “o nascimento de uma nova era, conduzida pela energia feminina”.

Conturbações

Quando ainda estava no início de sua carreira, Elza Soares conheceu o jogador de futebol Mané Garrincha. Na época, esse relacionamento não foi bem-visto pela imprensa. Acusada de ter acabado com o casamento do jogador, a cantora virou alvo da mídia e da sociedade, que constantemente a hostilizavam. Como resposta para a fúria de terceiros, a cantora lançou, em 1963, a música “Eu sou a outra”. O relacionamento dos dois perdurou e não demorou muito para que morassem juntos. Porém, durante a Ditadura Militar, a casa do casal foi metralhada e tiveram que fugir para a Itália.  

Elza Soares e Mané Garrincha. Foto: reprodução

Elza e Garrincha voltaram para o Brasil, tiveram um filho e passaram 15 anos casados. Apesar das aparências, o matrimônio foi repleto de conflitos. O jogador se tornou alcoólatra e violentou sua esposa de diversas maneiras. Calada, Elza sofreu de violência doméstica por anos. A cantora já revelou ter tido seus dentes quebrados em uma das discussões. Em 1982, eles se divorciaram, apenas um ano antes do falecimento de Garrincha.

“A Mulher do Fim do Mundo”

Após vários anos internalizando a dor desses abusos, Elza Soares lançou, em 2015, o álbum “A Mulher do Fim do Mundo”. As canções desse novo disco escancara suas denúncias em prol da defesa da mulher e contra a violência doméstica, além de cantar sobre a realidade da população negra brasileira. Após dar o play, já podemos ouvir a rouquidão de Elza à capela na faixa “Coração do Mar”.  Em “Maria da Vila Matilde” ela vai direto ao ponto e declara “cê vai se arrepender de levantar a mão para mim”.

“Cê vai se arrepender de levantar a mão para mim” (Elza Soares, “Maria da Vila Matilde”)

A incrementação de gêneros, como o rap e o punk rock, inova na melodia de “Luz Vermelha”. A faixa é direta ao ponto, narrando a vida em caos de periféricos. Outra denúncia social aparece em “Benedita”, que fala da transsexual que apanha, mas não se deixar cair. Elza Soares se reinventou neste disco, algo que deixa claro na música “Dança”. Na canção, a intérprete canta “e o que me fez morrer vai me fazer voltar”. Ela insiste em continuar dançando. Aos 80 anos, Soares viveu a infância em uma situação de extrema pobreza, casou ainda criança, perdeu quatro de seus sete filhos, se tornou alvo da mídia e foi vítima de um marido abusivo. Mesmo no fim do mundo, Elza insiste em resistir.

“E o que me fez morrer vai me fazer voltar” (Elza Soares, “Dança”)

 

 

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