Tiago Santana fala de poética e novos projetos

Por Luiza Ester

O prédio do antigo Hotel Lux abrigará o novo projeto do fotógrafo Tiago Santana. Foto: Google

É a partir da construção coletiva do conhecimento que o cearense Tiago Santana resgata suas próprias memórias por meio da fotografia. Essa é a conclusão tirada ontem (06) durante a palestra “Poéticas da Imagem”, na Universidade de Fortaleza (Unifor), quando falou, pela primeira vez, o projeto DiverCidade. A ideia é incentivar a produção artística em Fortaleza a partir da troca de saberes. Ele espera que, até o fim do ano, tudo esteja pronto.

“A gente sempre aprende muito quando compartilha”, acredita o fotógrafo. O lugar, onde era localizado o antigo Hotel Lux, tradicional prédio da Praia de Iracema, em Fortaleza,  abrigará exposições e oficinas, além de servir como base de arquivo para outros profissionais do ramo. “DiverCidade” será um espaço para receber e produzir diversas artes. O nome é uma brincadeira com a palavra “diversidade” e com a forma como os lugares podem ser retratados.

“A gente sempre aprende muito quando compartilha” (Tiago Santana)

Paisagem Humana

“O Céu de Luiz”, livro de fotografias inspirado em Luiz Gonzaga. Foto: ​Livraria Sesc São Paulo

Quando se tornou fotógrafo, Tiago Santana o fez para documentar a região do Cariri. Essa vontade artística, percebida depois de algum tempo cursando Engenharia, surgiu a partir do interesse em preservar histórias da infância. Suas experiências andam paralelas à sua ligação com o sertão. Contudo, apesar dessa conexão com o espaço, afirma ser um “fotógrafo de pessoas”.

“O sertão é tido como lugar associado ao inferno, lugar insuportável. Para mim, é um céu. Caldeirão de um universo muito vasto, lugar de experiências muito rico”, conta. “O Céu de Luiz”, seu livro de fotografias panorâmicas, em preto e branco, retrata a vida dos sertanejos do Cariri. O trabalho foi inspirado em Luiz Gonzaga, o rei do baião.

De acordo com Santana, a fotografia é quase um pretexto para estar naquele lugar, com aquelas pessoas. Para ele, as imagens não têm como traduzir completamente a troca, a sensibilidade e o afeto construído a partir das relações com os indivíduos. “É muito menor do que vivenciar”, opina.

Escolhas

Geralmente, fotos panorâmicas são realizadas para capturar uma paisagem, que é justamente o que Santana não faz. Essa contradição aparente está associada à forma como seus processos são realizados. Esses processos, para Santana, não têm uma receita ou razão exata. As escolhas fazem parte da sua identidade e acabam se tornando um exercício de encontrar caminhos.

A verdade é que, segundo ele, tudo isso é particular. O preto e branco nas fotos que compõem seu livro, por exemplo, foi uma decisão que construiu o “discurso mais coerente para as imagens”, e que pode ser associado às xilogravuras (gravuras em madeira muito comum no Nordeste). De acordo com o fotográfo, esse caminho ressaltou a riqueza dos traços, dos gestos e do olhar da paisagem humana.


Com as fotos panorâmicas, o leitor pode escolher que parte da imagem pode ser uma nova fotografia. Foto: Ares Soares

Quanto à panorâmica, ele afirma que sentiu a necessidade de aumentar o espaço da foto. “Foi um desafio e um processo instigante”, explica o processo criativo. Além disso, Santana pôde construir imagens com várias outras imagens verticais. Se fosse possível recortar, cada porção daria uma nova fotografia. Tudo isso faz parte de um processo de amadurecimento do fotógrafo que ainda revela o filme das suas próprias fotos, um processo analógico.

De acordo com Santana, fotografar é tentar entender a delicadeza das coisas, das pessoas e do universo em que vive. Para Lucas Rosa, 20, estudante de Cinema que assistiu à palestra, isso engrandece o debate acerca da relação íntima do profissional com a sua região, além de como o seu ato fotográfico pode ser representativo. “Apesar de deixar claro que não tem preferências entre o analógico e o digital, ele carrega consigo apenas uma câmera analógica, que tem capacidade de quatro filmes. Ele deve pensar muito na composição e no significado de cada foto antes de apertar o botão”, conta.

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