As imagens do consciente

Por Lígia Grillo

Capa do filme “Nise – O coração da loucura”. Foto divulgação

Nise da Silveira bate na porta. Não há resposta. Ela tenta de novo. Nada. Algum tempo passa, começa então a esmurrar o portão até, finalmente, ser ouvida. Essa é a cena que abre o filme “Nise – O coração da loucura”. O longa, baseado em fatos reais, revela a realidade mascarada dos hospitais psiquiátricos brasileiros e destaca a luta de uma mulher que – sozinha – deu início a uma nova forma de tratamento a pacientes hostilizados, o amor. A cena da porta não é à toa. O filme constrói uma crítica em cima da situação dos pacientes que, muitas vezes, não podem nem falar para pedir socorro. Um filme de resistência pela sobrevivência e ideais que parecem não ser compreendidos. É sobre a resistência do resistir. Pode parecer clichê, mas depois de tanto tempo batendo na porta, alguém deve abri-la.

Logo após sair do presídio, onde passou um ano e meio por possuir livros marxistas, a psiquiatra Nise da Silveira (Glória Pires) se deparou com uma realidade diferente da que imaginava encontrar. Em meio à podridão dos aposentos e dos gritos ecoando nos corredores, a situação de horror em que os pacientes do Centro Psiquiátrico Dom Pedro II se encontram a chocam. É na realidade masculina e preconceituosa dos anos 1950 que Nise resolve criticar os métodos abusivos dos médicos. Revoltados, eles a encaminham para o setor de terapia ocupacional, uma área não muito acreditada na época. A psiquiatra, então, tem que se realocar para um porão sujo e empoeirado.

Nise e seus clientes. Foto: reprodução.

Com o passar do tempo, ela vai se afeiçoando pelos pacientes, ou clientes, como ela prefere chamar, pois acredita que os funcionários do centro devem servi-los e não maltratá-los. É com a ajuda de dois enfermeiros que Nise cria um ateliê de arte, onde os pacientes têm total liberdade artística para pintar e desenhar suas imagens do consciente. Trabalhando com técnicas humanistas e que incentivam a criação de cada um, a psiquiatra, aos poucos, garante seu espaço e reconhecimento. Mesmo com infortúnios em relação à violência dos médicos e dos enfermeiros do hospital, Nise resiste e começa a perceber uma significativa mudança no comportamento dos pacientes.

Com imagens fortes de violência física e emocional, o longa retrata uma realidade difícil de ser aceita, parece coisa só de filme. Ainda é possível ver no final, cenas reais da verdadeira Nise e de seus pacientes, um trecho emocionante que mostra como uma mulher brasileira, a frente de seu tempo, revolucionou a psiquiatria nacional. Seu instrumento foi apenas um pincel.

Ficha Técnica

Ano de produção: 2015

Direção: Roberto Berliner

Duração: 1h 49m

Gênero: Drama/Filme biográfico

Trailer:

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

css.php