“Sempre senti que seria artista”

Por Letícia Feitosa

O conceito de arte pode ser muito subjetivo. Para Leonardo da Vinci, “a arte diz o indizível, exprime o inexprimível e traduz o intraduzível”. E é na busca de sua própria definição de arte que Helton Oliveira da Silva rege a sua vida. O fortalezense já passeou pela música, pelas artes cênicas, pelo audiovisual e pontua que “ser artista requer disciplina e compromisso, como qualquer outra atividade profissional”. Aos 29 anos, Tim Oliveira, como é conhecido, é artista visual e publicitário, atuando nos ramos de Direção de Arte, Design Editorial e Gráfico, fotografia e produção audiovisual.

Tim Oliveira é artista visual e publicitário. Foto: arquivo pessoal

Nascido em 16 de março de 1988, Tim é natural de Fortaleza. Em uma breve descrição, ele resume sua infância em uma única palavra: confusa. “Vejo que fui uma criança pouco convencional. Gostava de ficar em casa criando personagens, amigos e mundos imaginários, e de me perder em meio a livros e histórias em quadrinhos”, comenta.  

Tim cresceu em um ambiente propício às artes. A imaginação se tornou uma aliada quando, em seus momentos mais introspectivos, o garoto encontrava em um pedaço de papel uma oportunidade de diversão. Ainda criança, ele já desenhava e pintava. “No começo, eu reproduzia personagens de desenhos animados, mas logo passei a criar os meus, a maioria mulheres e figuras sacras. Comecei a desenhar amigos da escola, artistas do cinema e da TV”, conta. Todo esse estímulo do imaginário despertou em Tim uma certeza que ele levou para toda a vida, “Sempre senti que seria artista”, revela.

Tim sempre mostrou um apreço pelas artes. Foto: divulgação/Tim Oliveira

Apesar de está imerso em diferentes formas de arte, ele não era visto como artista pelos pais. “Creio que havia certo receio de se ter um filho artista, diante das dificuldades relacionadas ao ato de se ‘viver de arte’, dentro dos equívocos e dos preconceitos que a nossa sociedade ainda tem sobre quem produz e faz arte”, fala. Mesmo assim, seus irmãos eram os seus amigos, sua família era o seu público e, para ele, sempre houve confiança dentro desse ambiente. “Embora eles não entendessem bem o que eu fazia, nunca se opuseram e sempre me deixaram livre para fazer e arcar com as minhas escolhas”, ressalta.

Experiências artísticas

Outra expressão artística presente na trajetória de Tim Oliveira é a música. Foi frequentando aulas de flauta doce, de violão e de piano que ele pôde ampliar seu conhecimento musical. “Eu não buscava ser musicista, mas queria dar ritmo ao meu pensamento. Queria que tudo o que eu externasse fosse como melodias fluidas e envolventes”, explica. Assim, Tim se apaixonou pela ideia de criar videoclipes e de construir conceitos visuais a partir da música. “Eu gostava dos roteiros, da estética, da dinâmica das produções e das performances dos intérpretes. Sempre achei incrível a capacidade de se contar histórias e de apresentar todo um universo de imagens que uma composição sugere”, conta.

A fotografia surgiu para Tim Oliveira ainda na adolescência e o acompanha até hoje. De forma descontraída, o jovem levava uma câmera portátil para todos os lugares, registrando a cidade, os amigos e os detalhes do cotidiano. Em um acaso improvável, Tim perdeu a câmera, mas continuou se empenhando a aprender mais sobre fotografia em cursos livres.

Ainda na adolescência, Tim resolveu fotografar. Foto: arquivo pessoal

Em 2006, aos 18 anos, ele começou a cursar Publicidade e Propaganda no Centro Universitário Estácio do Ceará/FIC e continuou a praticar a fotografia nas aulas práticas da faculdade. “Me dediquei à direção de arte. Estudar possibilidades de edição e de intervenção digital nas fotografias trabalhadas. Mas sempre me arriscava a fotografar com a câmera de amigos”, relembra. Sem nenhuma pretensão de fotografar profissionalmente, Tim comprou uma câmera profissional e retornou ao hábito de registrar o mundo ao seu redor.  Para ele, a fotografia é um ato de socialização e isso o ajudou a enveredar pelo o caminho da direção de arte.

Na fase adulta, após concluir a graduação em Comunicação Social e ter estudado Artes Visuais, Tim começou a trabalhar em agências publicitárias locais. Na busca por mais segurança para apresentar campanhas publicitárias e para se comunicar com mais eloquência, ele decidiu fazer teatro. Foi no Curso Princípios Básicos de Teatro (CPBT), oferecido pelo Theatro José de Alencar, que Oliveira encontrou uma nova maneira de se expressar. “Como nunca antes, eu me senti compreendido, consegui me expressar pelo corpo, pela voz, pela imagem e pela palavra. Experimentei situações e interações jamais imaginadas por mim antes”, comenta.

“Como nunca antes, eu me senti compreendido, consegui me expressar pelo corpo, pela voz, pela imagem e pela palavra.” (Tim Oliveira)

“Arte em Cena”

A exibição “Arte em Cartaz” expôs os cartazes criados por Tim. Foto: divulgação/Arte em Cartaz

Na mesma época, ele começou a registrar seus encontros com a turma de teatro. A vontade de capturar momentos o levou a fotografar processos e criações cênicas. Ele divulgava as fotos nas redes sociais, criando uma visibilidade para o que estava produzindo. “Daí em diante, de forma natural, o que era apenas um hábito sem nenhuma pretensão financeira, passou a ser buscado por grupos, coletivos e artistas de teatro e de dança. Me contratavam como um serviço profissional”, fala. Logo, Tim começou a pensar na criação de material publicitário para espetáculos de dança e de teatro, unindo sua formação em comunicação ao seu amor pela arte.

Muitas das imagens feitas por ele viravam cartazes impressos ou flyers digitais. A proposta de Tim Oliveira para criar os conceitos visuais de cada espetáculo é pensada de uma maneira não muito comum. Ele prefere mostrar o que acontece nos palcos estando longe da cena, escolhendo outros ambientes, além de combinar linguagens, estéticas e mídias em cada material. “Eu sempre achei que a fotografia publicitária [de espetáculos] deveria ser pensada fora dos palcos, mas dentro do universo que a montagem trazia, partindo da dramaturgia trabalhada e da encenação desenvolvida”, compartilha.

A exposição reuniu mais de 200 cartazes. Foto: divulgação/Arte em Cartaz

Ao todo, desde 2015, Tim Oliveira criou cerca de 200 cartazes para diferentes montagens e projetos de teatro e de dança em Fortaleza. “Considero o cartaz como uma potente mídia na divulgação de espetáculos cênicos”, conta. A quantidade significante de materiais instigou uma ideia em Tim. Ele, então, recolheu tudo que produziu e resolveu expor todo o seu acervo. Assim nasceu o “Arte em Cartaz”, “uma exposição que traz o cartaz como obra de arte, dentro do universo das Artes Visuais, relacionando fotografia e design gráfico”. A mostra aconteceu no Theatro José de Alencar no segundo semestre de 2017 e marcou o início de mais uma fase na vida de Oliveira. “Da exposição, surgiu o projeto ‘Arte em Cartaz’, uma pesquisa que resgata o uso do cartaz como meio de comunicação de massa, de baixo custo e de alto impacto visual, além de ser uma possibilidade de intervenção urbana”, explica.

“Considero o cartaz como uma potente mídia na divulgação de espetáculos cênicos” (Tim Oliveira)

Referências

Foto tirada por Tim para a divulgação do espetáculo teatral “Afoita”. Foto: divulgação/Afoita

A cultura pop, o modernismo, a cultura latina e a arte urbana são fortes influências no trabalho do publicitário. O teatro e a dança também se tornaram grandes referências estéticas para Tim. Seus projetos são caracterizados pelo excesso. “Gosto da cor e da ausência dela. Vejo que meus trabalhos não são nada minimalistas, são repletos de ruído, de camadas e mais camadas de imagens e de texturas sobrepostas”, afirma. Hoje, ele é requisitado por empresas, coletivos teatrais e de dança para produzir fotografias, materiais audiovisuais e peças publicitárias, sempre à procura de algo inovador.

É nessa constante vontade de sair da zona de conforto que Tim continua a explorar as possibilidades do mundo das artes. “Tenho sede trabalhos que me desafiam, que me trazem possibilidades de criação, em que eu possa não apenas prestar um serviço ou suprir uma demanda específica e pontual”, fala. Além de continuar com os seus projetos atuais, ele deseja aprimorar suas técnicas de fotografia, registrando ensaios mais intimistas e retratos. Assim, Tim Oliveira segue se desafiando. “Quero ouvir histórias, conhecer pessoas, fazer amigos, produzir muito e registrar tudo isso através de imagens. Eu gosto dos excessos”, declara.

“Quero ouvir histórias, conhecer pessoas, fazer amigos, produzir muito e registrar tudo isso através de imagens. Eu gosto dos excessos” (Tim Oliveira)

 

 

2 comentários em ““Sempre senti que seria artista”

  • 24 de fevereiro de 2018 em 23:37
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    Esse é meu irmão caçula!
    Mais sucesso hoje!
    Na verdade eu sempre soube que tu já tinhas.
    Muito orgulho de ti.
    #sucessotimoliveira

    Resposta
  • 25 de fevereiro de 2018 em 13:38
    Permalink

    Tim é um desses exemplos raros de sensibilidade e profissionalismo! Linda matéria!

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