O silêncio entre o limbo e o caos

Por Luiza Ester

Em uma casa de área rural, o silêncio grita e os olhares mostram uma tensão transversal. Um pai e suas três filhas adolescentes sob o mesmo teto, vivendo sem muitos diálogos ou perspectivas. “O Exercício do Caos” (2013) revela, entre subjetividades e entrelinhas, a rotina dessa família. Plantando, colhendo e comendo – todos os dias – mandioca. Sem uma figura maternal que, segundo o pai, teve o fim que merecia.

Cartaz de “O Exercício do Caos”. Foto: Reprodução

Assistir ao longa é uma experiência sensorial e até muscular. Agonia, essa é a palavra. Para quem está acostumado com a rapidez e o barulho do cotidiano, o silêncio verbera na alma. Na mesa de jantar, o pai (Auro Juriciê) senta-se na cadeira principal, enquanto a filha mais velha põe a comida para ele e suas irmãs. Nada falam, nada sentem (ou parecem não sentir). O primeiro terço do filme, denominado “Exercício”, mostra exatamente essas bocas caladas e os corpos sobrevivendo do trabalho. Sem manifestações e, aparentemente, sem desejos.

O pai, rompendo o silêncio, explica o desaparecimento da mãe com uma lenda. Todos diziam que as mulheres daquele lugar não poderiam ir à beira do rio no fim da tarde. Apareceria ali um homem de branco. Em uma das raras expressões, a dúvida que fica é: a mãe teria ido embora ou fora sequestrada? O diretor Frederico Machado se esvazia do desnecessário para dar lugar, essencialmente, às transmissões de significados. Essa produção de sentidos está em todos os lugares, mesmo com pouco orçamento: na fotografia da noite, na direção de arte sertaneja e na falta de nomes para os personagens, de diálogos e de cenários.

Limbo

“Limbo” é o nome dado à segunda parte de “O Exercício do Caos”. Nela, o enredo parece se desenrolar um pouco. Em uma agonia ainda maior. Com a aparição do patrão, que cobra a entrega das safras de farinha de mandioca, as complicações surgem mais rápido. Inclusive, com a dúvida que planta na cabeça do chefe de família: “aquela tua filha mais velha não parece contigo… A do meio também não”.

Realista e, ao mesmo tempo, fantasmagórico. Ao desdobrar da trama, a mãe (Elza Gonçalves) surge como aparição, principalmente para a filha mais nova. A jovem diz que a mãe lhe diz incontáveis segredos, e eles – como tais – não podem ser compartilhados com ninguém. Além disso, o pai começa a dar sinais de desejo sexual pelas suas próprias filhas.

O Caos

O “Caos”, último terço do filme, se trata de um compilado de alucinações. Certamente, até para quem o assiste. As sensações se confundem com a busca de algo racional. Algo que lhe diga, imediatamente, os porquês de tudo. A busca é real, mas inútil. Talvez, por isso, passe tanta tensão. Provavelmente seja esse o propósito da obra.

 

Ficha Técnica

Direção e Roteiro: Frederico Machado

Ano de produção: 2013

Duração: 71 min

Gênero: Drama/Suspense

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