A beleza ambígua da poesia de Leminski

Por Clara Menezes

Livro “Toda Poesia”. Foto: Reprodução

Quase todos os poemas trazem à tona a sensibilidade escondida na alma de quem escreveu e, principalmente, de quem lê. No livro “Toda Poesia”, que reúne a obra completa do poeta Paulo Leminski, o sentimento não é diferente. Conhecido por sua irreverência e coloquialidade, o escritor consegue fazer os leitores perceberem toda a subjetividade humana.

O livro permite a apreciação da obra de Leminski como um todo. É uma vida inteira resumida a poemas. Sua trajetória como um dos poetas mais conhecidos e apreciados do Brasil toda colocada em um livro. Os poemas reunidos podem “oferecer uma visão total do que foi a poesia para Leminski e do que é Leminski para a poesia”, escreve a poeta e ex-mulher do escritor, Alice Ruiz, 72, na introdução.

“[O livro pode] oferecer uma visão total do que foi a poesia para Leminski e do que é Leminski para a poesia” (Alice Ruiz)

O poeta, dividido sempre entre o rigor técnico da poesia concreta e a coloquialidade e irreverência da poesia marginal, conseguiu trazer “os dois mundos” para seus poemas. A poesia era sua paixão mais intensa, apesar de ter sido extremamente criticado por seu jeito de escrever. Esse amor pela escrita poética ocupava grande parte de sua vida. Por isso, Leminski escrevia muito sobre o ato de escrever e sobre a poesia, em geral. Confira um desses poemas abaixo:

desencontrários

Mandei a palavra rimar,

ela não me obedeceu.

Falou em mar, em céu, em rosa,

em grego, em silêncio, em prosa.

Parecia fora de si,

a sílaba silenciosa.

Mandei a frase sonhar,

e ela se foi num labirinto.

Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.

Dar ordens a um exército,

para conquistar um império extinto.

Poesia concretista X Poesia marginal

Poema concreto de Leminski.

A poesia concreta surgiu no Brasil em meados da década de 1950 com Décio Pignatari, Augusto de Campos e Haroldo de Campos. Essa vertente artística, nascida na Europa, tinha como objetivo explorar as diversas formas da linguagem. A poesia não era só versos padronizados. Agora, os poetas utilizavam de todo o espaço em branco para escrever. A exploração do visual, do estrangeirismo e da decomposição das palavras formavam o “todo” do poema. Para isso ocorrer, era necessário uma extrema rigorosidade técnica da língua portuguesa.

Já a poesia marginal ou geração mimeógrafo era um exemplo de contracultura em meados da década de 1970. “Seja marginal, seja herói”. Com essa frase, o artista plástico Hélio Oiticica conseguiu resumir esse movimento artístico. A “Marginália” foi uma vertente que publicava a arte por meios alternativos, à margem da tradicionalidade cultural. Os poetas marginais recusavam qualquer padrão artístico e costumavam criticar, principalmente, a sociedade. Eles eram a voz da minoria.

Mas, o que essas duas vertentes artísticas têm em comum? Apesar de serem diferentes, esse foi o poder de Paulo Leminski. O poeta conseguiu juntar a poesia concreta e a marginal em seus poemas e fez disso seu diferencial. Isso pode ser visto, principalmente, no livro “Toda Poesia”. Ao juntar todos os poemas de Leminski, é possível perceber as diversas facetas e a dualidade do poeta.

Quem foi Leminski?

Leminski na infância. Foto: Reprodução

Paulo Leminski Filho, nascido em 1944, foi escritor, poeta, professor e tradutor. Filho de um pai polonês e de uma mãe com descendência africana, Leminski nasceu em Curitiba, no Paraná. O escritor, aos 12 anos, ingressou no Mosteiro de São Bento, onde aprendeu latim, teologia e filosofia. No entanto, logo após fazer 18 anos, o jovem Leminski abandonou a vocação católica e foi para Belo Horizonte participar da Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, em 1963.

A partir de então, o poeta conheceu a poesia concretista e, no ano seguinte, publicou 5 poemas na revista “Invenção”, dirigida pelo porta-voz do concretismo Décio Pignatari. Porém, apesar de ser conhecido pela poesia concretista, Paulo Leminski foi, também, um dos precursores da poesia marginal ou geração mimeógrafo. O concretismo e a geração mimeógrafo foram dois movimentos artísticos ideologicamente diferentes. No entanto, Leminski conseguiu andar entre essas duas vertentes de maneira única.

O poeta, entretanto, não foi apenas apaixonado pela poesia escrita. Caminhando na fina linha entre as letras musicais e os poemas, Leminski foi um apaixonado pela música. “A minha infância foi música, música, música”, disse a cantora e compositora Estrela Ruiz, filha do poeta, para o jornal “Estadão”. Ruiz lançou um álbum em 2014 chamado “Leminskanções”, em homenagem ao seu pai. Todas as músicas do CD foram compostas por Leminski.

“A minha infância foi música, música, música” (Estrela Ruiz)

Leminski faleceu de cirrose hepática em junho de 1989. O poeta, que sofria de cirrose devido ao consumo em excesso de álcool, nunca parou de beber.  Um ano antes de sua morte, ele publicou um livro chamado “La vie en close”, quase que prevendo o fim de sua vida.

acidente no km 19

algo em mim se esvai

coisa que se escoa

seria a água da vida

seria outra coisa boa

tão boa que não tem vida

em que esta vida não doa?

hora em que a voz do amor

como a voz do amor não ecoa?

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