Disco “Os Mutantes” completa 50 anos

Por Letícia Feitosa

Bilhete deixado por Kurt Cobain. Foto: reprodução/Hypeness

Quando o Nirvana, banda norte-americana de rock, veio ao Brasil em 1993, um certo grupo musical brasileiro não passou despercebido pelos ouvidos de Kurt Cobain. Na viagem, o acaso levou o americano a conhecer a discografia dos Mutantes. Em um bilhete informal, escrito para Arnaldo Baptista, “gênios” foi o adjetivo usado por Cobain para elogiar o trio tropicalista. O grupo Mutantes surgiu na década de 1960 e revolucionou o cenário musical nacional, sendo comparado aos Beatles pela crítica. O disco de estreia da banda foi lançado em um período conturbado no Brasil e completa 50 anos em 2018.

Em 1968, a ditadura militar estava instaurada no Brasil. Na época, o movimento estudantil, os trabalhadores e os artistas organizavam protestos de resistência à opressão. Esse foi o ano da Passeata dos Cem Mil, em que jovens marcharam nas ruas do Rio de Janeiro contra o regime. Nesse mesmo ano, o Tropicalismo estava em alta.  O movimento queria reinventar a Música Popular Brasileira (MPB), trazendo elementos do estrangeiro para as canções, como a guitarra elétrica e a psicodelia. Esse também foi o ano em que três jovens de vinte e poucos anos entraram em um estúdio e gravaram o que viria a ser o primeiro disco dos Mutantes, grupo inserido na Tropicália.

O LP autointitulado “Os Mutantes” foi lançado em junho de 1968. O disco só foi reeditado em CD em 1992 e em 2006. O sucesso foi tanto que a revista Rolling Stone classificou o álbum em nono lugar na lista dos 100 maiores discos da música brasileira. Formado, na época, por Rita Lee e pelos irmãos Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, os Mutantes inovaram por trazer, em seu trabalho de estreia, um misto de elementos vindos do rock psicodélico e de gêneros musicais nacionais. A faixa “A Minha Menina” é um exemplo dessa mistura, sendo uma canção que une o samba e o rock.

Capa do álbum “Os Mutantes”. Foto: reprodução

Faixas

“Pareciam jovens ingleses da geração Beatles. Essa era uma diferença básica: ao contrário dos baianos, que olhavam o universo do rock de fora, os Mutantes passavam a impressão de viverem dentro daquele mundo”, escreveu Carlos Calado, autor de “A Divina Comédia dos Mutantes”, biografia oficial da banda. A comparação ao quarteto de Liverpool é frequente. A faixa “Senhor F” é muito semelhante à canção dos Beatles “Being for the Benefit of Mr. Kite” e é uma das poucas músicas do álbum compostas pelo trio.

“Pareciam jovens ingleses da geração Beatles. Essa era uma diferença básica: ao contrário dos baianos, que olhavam o universo do rock de fora, os Mutantes passavam a impressão de viverem dentro daquele mundo” (Carlos Calado)

Os Mutantes estavam antenados com o que era produzido pelas bandas internacionais e puseram muitas referências no álbum de estreia. A faixa “Tempo no Tempo” é uma versão em português de “Once Was a Time I Thought”, da banda norte-americana The Mamas & The Papas. A segunda música do disco, cantada por Rita Lee, é “Le Premier Du Jour”, composta pelos franceses Frank Gérald e Jean Renard e originalmente cantada por Françoise Hardy.

Muitos artistas conhecidos participaram das composições das músicas do grupo. A faixa de abertura “Panis et Circenses” tem letra escrita por Caetano Veloso e Gilberto Gil, assim como a canção “Bat Macumba”, conhecida pelas referências feitas às religiões afro-brasileira. Jorge Ben Jor emprestou seu talento na composição da música “A Minha Menina”, e Humberto Teixeira ajudou a conduzir o baião presente em “Adeus Maria Fulô.

Reconhecimento

O lançamento de “Os Mutantes” dividiu opiniões. Os mais tradicionais não foram muito com a cara do trio tropicalista, enquanto outros se encantaram com as novidades trazidas na música da banda. Apesar da resposta mista do público brasileiro em relação ao grupo, o estrangeiro o recebeu muito bem. Além de Kurt Cobain, outros músicos internacionais viraram fãs dos Mutantes, como  David Byrne, fundador do The Talking Heads, o americano Beck e Sean Lennon, herdeiro de John e Yoko. A banda escocesa Belle & Sebastian também já mostrou seu amor pela banda durante o Free Jazz Festival de 2011, onde fizeram um cover de “A Minha Menina”. Confira:

 

Mutantes

Da direita para a esquerda: Gal Costa, Rita Lee, Gil, Caetano e Ben Jor. No chão, Arnaldo e Sérgio. Foto: reprodução/Hypeness

A banda brasileira de rock psicodélico tinha Rita Lee no vocal, Arnaldo Baptista no baixo, teclado e vocal, e seu irmão caçula, Sérgio Dias, na guitarra e no vocal. O inusitado nome “Mutantes” surgiu quando os irmãos Baptista leram a obra de ficção científica “O Império dos Mutantes”, de Stefan Wul.  

A primeira aparição pública do grupo aconteceu em 1967, no programa “Primeiro Mundo”, da rede Record, em que faziam a trilha sonora e cantavam músicas de bandas de fora, como os Beatles. Com isso, o trio chamou a atenção do maestro Roberto Duprat que os apresentou para Gilberto Gil. O baiano logo os convidou para participações em músicas como “Domingo no Parque”. Aos poucos, os Mutantes se inseriram no Movimento tropicalista, fazendo parte do III Festival de Música Popular Brasileira e gravando para o chamado “disco-manifesto”,  “Tropicalia ou Panis et Circencis”.

Sérgio em pé, Rita e Arnaldo sentados. Foto: reprodução.

Após uma turnê na França, o grupo cantou pela última vez com Gil e Caetano antes de se distanciar da Tropicália. Na década de 1970, o disco A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado” surge mostrando o novo som do trio, que estava apostando unicamente no rock progressista. Os anos seguintes serviram para consolidar ainda mais a banda no cenário musical brasileiro. Em 1972, eles lançaram o LP “Mutantes e Seus Cometas no País dos Baurets”, último trabalho com a Rita Lee.

Rita, que havia se casado com Arnaldo em 1971, saiu da banda. Os rumores na época diziam que houve algumas desavenças entre os três músicos, já outros falavam que foi por causa do fim do matrimônio da cantora com Baptista. Só em 1996, em uma entrevista para a Folha de S. Paulo, Arnaldo admitiu: “Eu a mandei embora”.

No ano seguinte, Arnaldo Baptista, debilitado por causa do uso excessivo de drogas e pelo fim do casamento, entrou em depressão e decidiu sair do grupo. Sérgio Dias tentou prosseguir com os Mutantes, mas o álbum “Mutantes Ao Vivo”, lançado em 1977, não foi bem recebido pela crítica nem pelo público. Dessa forma, no fim na década de 1970, Sérgio resolveu dar um fim à banda, deixando um legado que inspirou tantos outros grupo e artistas pelo o mundo.  

 

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