Está no ar, Fernando…

Por Lígia Grillo e Luiza Ester

O que caracteriza a qualidade de uma armadura? Entre tantas batalhas enfrentadas, ela deve, primordialmente, resistir. Fernando Alves, 30, resiste. Ele não é nenhum soldado de guerra ou super-herói. Ele é – unicamente – Fernando. Mesmo com o bullying sofrido na infância, a dificuldade em aceitar-se por sua orientação sexual e os conflitos internos constantes, sua vontade de viver se torna cada vez mais forte. Por isso, encara qualquer desafio com bom-humor. Para Fernando, a vida é assim, basta sorrir.

Sorrindo sempre. Foto: Juliano Almada/FotoNIC

Nascido em 7 de dezembro de 1987, em um bairro residencial do Rio de Janeiro, Fernando Alves veio ao mundo com a incrível capacidade de se reinventar a cada obstáculo apresentado pela vida. Filho único de pais separados desde os seus quatro meses de idade, viveu entre as praias e as serras da cidade maravilhosa. O sagitariano apaixonado pela vida carrega as lembranças desse tempo com brilho nos olhos e um coração enorme. “Eu sumia com as coisas”, conta a criança saudosista e serelepe que ainda habita o seu ser.

Foi na escola onde os primeiros desafios começaram a surgir. Apesar de tirar boas notas e tentar fazer amigos, o menino começou a sofrer bullying. Ouvindo xingamentos e ameaças, o garoto de apenas nove anos chegou ao seu limite quando, no jornal da escola, os colegas de classe o apelidaram de “Fernando retardado”. “Eu fui descobrir depois que eu tinha transtorno da ansiedade, algo que me gera um déficit de atenção. Isso me fazia não prestar atenção nas aulas, e as pessoas caiam na gargalhada, achando que era burrice”, relata.

Fernando ainda acrescenta o bullying sofrido por sua orientação sexual. “Começaram a implicar dizendo que eu era gay. E eu de fato sou. Mas ser gay, naquela época, era diferente de ser hoje em dia. Ainda mais para uma criança”, explica. De qualquer forma, ele não sabia aos nove anos o que era, já que a sua sexualidade não havia despertado ainda. Aos 12, começou a se descobrir. A culpa e a vergonha se tornaram algo grande. Para ele, ser gay era algo terrível, já que ouvia a palavra como xingamento quando menor. “Eu rezava para que Deus não permitisse que eu fosse, que me mudasse por dentro”, revela. Foi assim por sete anos.

“Eu rezava para que Deus não permitisse que eu fosse, que me mudasse por dentro.” (Fernando Alves)

Mudanças

Fernando teve a chance de se conhecer. Foto: Juliano Almada/ FotoNIC

Um novo tempo começou para Fernando. Ver e ouvir todas aquelas ofensas o faziam se sentir cada vez mais inseguro consigo e, certamente, não dava mais para viver assim. Então, depois de diversos conflitos com os colegas, foi para uma outra escola. Lá, conheceu novas pessoas e fez, de fato, amigos de verdade. Esse mundo mágico despertou no jovem uma nova sensação: a de se conhecer.

Aos 18 anos, sem nenhuma experiência amorosa, ele encontrou o amor pela primeira vez. E foi quando contou para sua mãe quem de fato era Fernando. A mudança foi difícil de ser aceita. Para a sua mãe, em certo momento, a situação se tornou extrema. Para um adolescente em busca da auto-aceitação, descobrir que a mãe atentou a própria vida é algo pesado. Ela, envolvida pela revelação, o mandou para a casa de seu pai. Apesar disso, com o passar do tempo, sua mãe começou a se interessar pelo relacionamento do filho e, aos poucos, foi despertando seu amor. O relacionamento de Fernando acabou não dando certo, mas ele ainda iria encontrar a pessoa, um dia.

A mudança do ensino médio para a faculdade sempre acarreta grandes desafios. Fernando iniciou o curso de Direito por influência do seu pai, advogado. Envolvido pelo fato de poder trabalhar no escritório da família, até tentou seguir carreira. Contudo, ao ver seu pai, que desistiu de ser músico profissional na juventude, acumulando papeladas de um trabalho incansável, percebeu não querer isso para toda a vida. Em 2008, ingressou no curso de Publicidade. Seguiu, então, suas próprias escolhas.

Quando tudo parecia estar bem, a morte repentina de seu pai abalou a todos. O jovem chegou a ver o corpo de seu pai morto, que faleceu devido a um infarto fulminante no meio da rua, ao voltar para casa. “Eu vi o corpo do meu pai, abracei ele morto. Não gosto nem de lembrar”, conta. Com isso, nunca teve a oportunidade de contar a seu pai quem realmente era. Fernando ficou muito abalado, entrou em depressão e foi morar com a sua avó materna.

Coragem

Com a morte de seu pai, Fernando herdou uma dívida inesperada. Apesar da dificuldade, ele se orgulha: “sempre fui corajoso, destemido”. Trabalhou bastante para ajudar sua avó a  pagar as contas e garantir suas necessidades. A namorada de seu pai, Lígia, ficou com a pensão interinamente, mas decidiu dividi-la entre ela, Fernando e sua avó. Com o tempo, sua mãe se interessou por parte do dinheiro e acabou ganhando a causa na Justiça.

“Sempre fui corajoso, destemido”. (Fernando Alves)

A partir daí, Lígia só pôde continuar ajudando a avó paterna de Fernando. “Ela foi um anjo na minha vida. Ela não tinha a obrigação de fazer isso, mas ela quis”, revela. De acordo com Fernando, todo mês ela se esforçava para dividir igualmente parte da pensão, e isso o ajudou muito.  Esse apoio foi primordial em sua vida, e ele lembra com carinho e nostalgia a importância de estar ao lado de quem se ama.

Foi em 2011, por meio de um aplicativo na internet, que Fernando conheceu seu futuro marido. Através de uma mensagem anônima, ele entrou em contato, mas na época não obteve resposta. Algum tempo depois, recebeu uma mensagem anônima que dizia: “Você tem cara de marido”. Logo, os dois rapazes trocaram os perfis e Fernando percebeu que aquele homem era o mesmo que ele havia mandado a mensagem. O tempo passou, o amor cresceu, e os dois resolveram se encontrar pessoalmente. Fernando no Rio de Janeiro e Moisés em Fortaleza. O destino parecia não querer unir os dois. Foi quando decidiram se encontrar em Belo Horizonte, já que Moisés teria que viajar para lá, e a passagem sairia mais barata do que para ir à Fortaleza.

Passagens compradas para Belo Horizonte. Mas os dois não aguentaram esperar para se ver, pois ainda faltava dois meses para o encontro. Fernando, então, comprou uma passagem para Fortaleza. O sagitariano romântico, quando olhou para seu pretendente pessoalmente e pela primeira vez, teve a certeza e disse: “Eu não tenho mais dúvidas, quer namorar comigo?”.

Amor em tudo que faz

A cada programa, Fernando se reencontra. Foto: Juliano Almada/ FotoNIC

O “sim” sempre pode responder muitas coisas. E ele tem uma força grandiosa. Com a confirmação do namorado, Fernando transferiu sua faculdade e comprou uma passagem só de ida para o Ceará. A terra do sol, mais conhecida como a cidade de Fortaleza, seria sua nova casa. Ele deu, assim, adeus para sua cidade natal, seus amigos e sua mãe. Um mundo novo estava por vir.

Quando transferiu seu curso para a Universidade de Fortaleza (Unifor), Fernando não só começou a desenvolver apreço pela profissão, mas pôde se aprimorar e fazer novos amigos em seu estágio na Rádio Universitária. Quem o vê, sabe que ele coloca tudo de si em cada novo programa. As lembranças de insegurança vêm à tona, mas a força e o reconhecimento do seu trabalho o fazem cada vez mais feliz. Ele se encontrou nas ondas radiofônicas e na audição de cada ouvinte.

Um dos problemas frequentes na vida de Fernando foi a baixa auto-estima. Ele acreditava que nada que fazia era bom o suficiente e não se reconhecia como profissional em nenhuma área. Hoje, luta todos os dias para pensar e agir diferente. Outras respostas poderiam ser esperadas, por tudo que ele já enfrentou. Mas, para ele, basta um sorriso. Com muito amor e leveza, ele se dedica na sua futura profissão e continua com sua intensa vontade de viver. Atenção, está no ar, Fernando.

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