A trajetória do “Mecão” no futebol cearense

Por Victor Nogueira

Antiga sede do América, localizada na Av. Dom Manuel. Foto: Reprodução

Encantador e surpreendente. Assim podem ser resumido os anos áureos do América Football Club, que perdurou desde o seu nascimento, em 1920, até o momento mais glorioso de sua curta, porém, rica história nos anos 1960, mais especificamente em 1966. Esse foi o ano em que o clube, apelidado de “Mecão”, alcançou o segundo título do principal campeonato de clubes de futebol de campo do Ceará: o Campeonato Cearense. Ainda durante essa temporada, o time alvirrubro alcançaria a glória em outras modalidades como Futsal, Basquete e Vôlei. “O América-CE deixou saudades por tudo que fez”, lamenta o comentarista esportivo Wilton Bezerra.

Um novo clube nasce com uma “briga”

Fundado no dia 11 de novembro de 1920, o América Football Club nasceu em uma reunião realizada na casa de Juvenal Pompeu Magalhães que propôs, na época, a dissidência das categorias infanto-juvenis do Ceará Sporting Club. No encontro, que reuniu Aluísio Gondim Ribeiro, Aníbal Câmara Bonfim, Dagoberto Rodrigues, Antonio Benício Girão, Miguel Aguiar Picanço Filho e Crisanto Moreira da Rocha ficou decidido o nome do primeiro presidente: Acrísio Faria de Miranda. Além disso, foram determinados as cores do clube e o nome da nova equipe, inspirado no tradicional América-RJ.

Foto dos jogadores do América-CE de 1927. Foto: Reprodução

O América começou grande. Uma das provas disso foi a contratação do jogador Canivete, que veio de Manaus (AM). Ele representou a “Águia”, mascote do clube, logo em seu primeiro campeonato estadual, no ano de 1921. Naquela época era muito difícil trazer um atleta de fora do Estado, por isso a grandeza do “Mecão”. Ao término do certame, a equipe ficou na 5ª posição. Dois anos depois, mais especificamente em 1923, uma posição mais honrosa: o vice-campeonato. Na final, o time alvirrubro foi derrotado pelo Fortaleza.

Isso parecia uma prévia do que ainda estava por vir. Na década de 1930, o América se consolidou entre os favoritos, após voltar a ser vice-campeão estadual pela segunda vez em sua história. No ano seguinte, contudo, a glória. Em partida disputada no extinto Campo do Prado, o Mecão venceu o Maguary pelo placar de 2 tentos a 1 e sagrou-se campeão Estadual pela primeira vez. João Firmino, Netinho, Alberto, Valter Sátiro e Caboclinho, Chico Eduardo, Pirão e Juraci, Mundico, Hidelbrando e Teixeira faziam parte do time vencedor. Nas décadas seguintes, entretanto, o time não conseguiu montar elencos vencedores. Por isso, não voltou a conquistar o certame, apesar de sempre estar cogitado entre os favoritos a vencer o Campeonato Cearense ao lado dos já tradicionais Ceará, Fortaleza e Ferroviário. O máximo alcançado pelo América, durante essas décadas, foram dois vices campeonatos em 1948 e em 1954.

Vitórias fora de campo

Foto do ex-atleta do América-CE, Canhoteiro. Foto: Reprodução

Se dentro de campo, durante a década de 1940 e 1950, a situação não foi das melhores que o time já passou, fora de campo a história era completamente diferente. Longe das quatro linhas, o América conseguiu um feito que até hoje perdura: a construção de seu estádio próprio, intitulado Estádio Américo Picanço, o famoso “Campo do América”. O local, inclusive, serviu como um dos suportes para a disputa do Campeonato Cearense, visto que o estádio Presidente Vargas passava por reformas.

Em 1949, 14 anos após sua primeira e, até então, única conquista nos gramados cearenses, o América acertou a contratação de um dos atletas que, futuramente, seria, para muitos, um dos melhores da história do clube: José Ribamar de Oliveira, mais conhecido como Canhoteiro. Com 1,68 metros de altura, o atleta atuava na ponta esquerda e tinha como principais características a velocidade e o drible rápido, capaz de “entortar” qualquer adversário.

Sua habilidade era tanta que chamou a atenção de uma das equipes mais tradicionais do futebol brasileiro, o São Paulo Futebol Clube. Na época, o time pagou caro para levar o atleta para o Morumbi. As boas atuações do jogador o levaram a ser convocado para a Seleção Brasileira. “Olha, eu não sei como o Canhoteiro não disputou a Copa do Mundo de 1958. Ele era um jogador incrível, um dos melhores pontas que eu vi atuar no futebol brasileiro”, relembra o comentarista esportivo, Cauby Chaves. “Quando ele partia para cima do adversário, ninguém segurava”, completou.

“Ele era um jogador incrível, um dos melhores pontas que eu vi atuar no futebol brasileiro” (Cauby Chaves)

A formação de um time campeão

Foto: Reprodução

O grande auge da rica história americana foi o ano de 1966. Fora das quatro linhas, o Mecão, que na época era comandado pelos irmãos João e Aécio de Borba ficou famoso pela sua sede social, localizada na Avenida Dom Manuel. Dentro de campo, a equipe alvirrubra repetiu o feito e levantou pela segunda vez o troféu de campeão cearense. “Foi algo que surpreendeu a cidade toda”, relembra o jornalista Tom Barros. “Se o América ainda fosse o time que eu conheci, garanto que vez por outra ele estava beliscando algo. Jogar contra o América era algo muito difícil”, completou. Na final, disputada no Estádio Presidente Vargas, o América venceu o Nacional por 2 a 0 com Pedrinho; Ribeiro, Cícero, Luciano Frota e Vilanova; Osmar, Pinha e Zé Gerardo; Loril, Baíbe e Wilson.

Foto: Reprodução

Essa conquista levou a Águia a alçar vôos ainda mais altos. Em 1967, por exemplo, foi um dos  representantes do Estado na Taça Brasil, que era considerado o Campeonato Brasileiro da época. Por ter sido campeão no ano anterior, o América-CE entrou na competição para a disputa da fase posterior à fase de grupos. Apesar de três vitórias e um empate, o Mecão não repetiu o bom desempenho dos jogos anteriores e acabou eliminado pelo Náutico-PE. “O Estádio Presidente Vargas estava completamente lotado. Haviam umas 35 mil pessoas naquele jogo”, relembra Tom Barros.

Além do bom futebol, outro fator chamou a atenção do jornalista naquela partida: a união das torcidas de Fortaleza e Ceará. “Havia uma bandeira costurada com os símbolos das duas equipes e as torcidas assistindo ao jogo lado a lado. Algo difícil de se imaginar hoje em dia”, relata. Entretanto, o título cearense não ficou apenas nos gramados. Naquele mesmo ano, o América consegue algo inédito não só em sua história, mas no futebol cearense: ser campeão em todas as modalidades que disputou. Além do troféu no futebol de campo, o Mecão ainda ficou com as glórias no Futsal, Basquete e Vôlei.

Descendo para o fundo do poço

Com o passar dos anos, o América não conseguiu repetir as boas campanhas que haviam tornado a equipe alvirrubra uma das mais famosas do Estado. Nos anos que se passaram, os americanos foram acumulando decepções e mais decepções até chegar ao rebaixamento para a segunda divisão do Campeonato Cearense no ano de 1997. Esse, porém, ainda não seria o “fundo do poço”. Em 2004, o Mecão é rebaixado novamente, só que desta vez para a terceira divisão Estadual. “A decadência de uma equipe como o América-CE é uma coisa que a gente lamenta porque faz parte da história do futebol cearense”, explica o comentarista Wilton Bezerra.

O poder passado de pai para filho

Após 23 anos sendo comandado pelo jornalista e escritor Alberto Damasceno, o América teve como novo presidente, o seu filho, Jean Paolo Damasceno. Entretanto, pouca coisa mudou e a derrocada alvirrubra continuou. Após o fim da gestão da família Damasceno no América, o time foi assumido pelo empresário Cleston Sousa Santos, que adquiriu em definitivo os direitos do clube cearense. Sob o comando de Cleston, a agremiação tenta voltar aos seus anos áureos. Em 2013, a torcida do América-CE comemorou seu último título: campeão cearense da terceira divisão.

Confira um pouco mais sobre a história do América Football Club no vídeo abaixo:

 

Confira a matéria editada por Victor Nogueira:

América Football Club

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