A visão do cinema cearense sob o olhar de profissionais

Por Gabriel Amora

Reza a lenda que os cearenses são um dos maiores produtores e consumidores de conteúdo para as telonas. O exemplo mais recente disso pode ser apontado pelo Cine Holliúdy, dirigido por Halder Gomes, em 2013, que garantiu 481.203 espectadores nos cinemas e 4,9 milhões de reais no bolso da produção. É importante destacar que o filme surgiu de um curta lançado em 2004, com Gomes na direção, que foi visto em 80 festivais de 20 países e ainda ganhou 42 prêmios.  

Cinema do Dragão do Mar. Foto: Reprodução

O filme, como pode ser conferido nos portais especializados em sétima arte, ficou latente na cultura do estado e no resto do Brasil. De referências cinematográficas, o jornalista Daniel Herculano, da Tribuna do Ceará, escreveu que “mesmo com problemas de ritmo e uma dramaticidade desnecessária, o resultado da obra é uma comédia hilariante, romântica, e que brinca com o lúdico e a nostalgia com suas exibições mambembes de cinema no interior do Ceará”. Já o crítico Luiz Joaquim, da Folha-PE, destaca que “Halder Gomes é um gênio ou, ao menos, realizou um trabalho genial com o longa-metragem”. Outro crítico conhecido do país, Celso Sabadin, pontuou que o filme não fará cinco milhões de ingressos, mas que “fará um bem danado ao cinema verdadeiramente brasileiro”. Por último, o cineasta Fernando Meireles afirmou que “a última sequência do filme, onde o personagem conta o filme para a plateia, é uma cena antológica, que deixaria Chaplin de boca aberta”.  

Como desbravar a arte

Petrus Cariry. Foto: Arquivo Pessoal

Elogios à parte, somos um povo desbravador. É inegável que onde tem cearense, tem um pouco de inovação com ele, seja na arte erudita ou na popular. O humor, a música, a cinematografia e tantos outros elementos estão presentes no cerne dos cearenses. Para isso, é preciso criatividade e malandragem, como aponta Petrus Cariry, diretor da icônica Trilogia da Morte.

“Desde muito pequeno eu acompanhava o meu pai [Rosemberg Cariry], montando em casa os seus primeiros filmes em Super-8 e 16mm. Isso foi uma experiência muito marcante em minha vida, uma vivência que a academia, infelizmente, não te garante. Mais tarde, eu comecei a acompanhar as discussões sobre roteiro, os bastidores e os sets de filmagem. Comecei a entender como funciona e acrescentei a teoria e prática que tive com os anos”, explica o cineasta.

Para ele, a arte abre horizontes e liberta uma pessoa em diferentes níveis. “Quando um cineasta se dispõe a fazer um filme, ele deixa em destaque a sua visão de mundo. Ainda que não exista um retorno imediato, não existe nenhuma garantia se o filme vai dar certo de alguma forma. Gostaria de pensar mais na longevidade dos filmes que venho realizando, no que eles representam para cinematografia brasileira, no que eles têm a dizer para o público”, conta Cariry. Segundo o cineasta, ele não se interessa muito pelo aspecto econômico e ainda está tentando entender a distribuição de filmes no mercado. “Sinto um interesse da crítica pelos filmes que realizo, tenho um pequeno público que se interessa pelos filmes. O resto o tempo vai dizer”, comenta.

A produção artística cearense para especialistas

Shaolin do Sertão. Foto: Reprodução

No entanto, para os críticos de cinema a arte ainda pode e deve fazer mais pelo estado. “Do ponto de vista de produção, o cinema cearense tem crescido bastante, sim. Mais filmes cearenses chegam aos cinemas, realizam campanhas, ainda que continuem invisíveis ao público. Há exceções, como o recente Cine Holliúdy e Shaolin do Sertão, que teve um grande alcance de público. Mas, infelizmente, ficamos reduzidos a isso e é onde se precisa analisar e estudar o que pode ser feito para reverter a situação”, é o que diz a crítica de cinema e publicitária, Hillary Maciel, 22.

Ela destaca que o público que consome o cinema cearense é, geralmente, o mesmo. São pessoas pertencentes de um mesmo círculo, com os mesmos interesses. Para Hillary, isso vira um problema porque o alcance daquele filme se torna extremamente limitado. Essa situação junta-se a questões de logística e de distribuição que, para os filmes locais, sempre foi um problema. “É difícil ver um filme cearense que não seja de comédia ficar mais de duas semanas em cartaz em um cinema bastante frequentado”, explica.

A especialista comenta que sempre há o que melhorar, seja na técnica, no roteiro ou na execução. Ela destaca que os orçamentos que as obras cearenses recebem são bastante limitados. Às vezes, muito do que é produzido sai do bolso do próprio diretor e dos demais envolvidos na produção. “Isso reflete bastante na qualidade do filme. Falta apoio por parte dos órgãos públicos que cuidam de produções culturais. Além disso, há o pensamento do retorno financeiro. Como o Ceará é conhecido como o estado da comédia, as produções de cinema que têm um valor de produção significativo ficam presas a esse gênero, pois é o que dá retorno. Isso é um problema, pois restringe e limita o artista”, pontua.

“Como o Ceará é conhecido como o estado da comédia, as produções de cinema que têm um valor de produção significativo ficam presas a esse gênero, pois é o que dá retorno. Isso é um problema, pois restringe e limita o artista” (Hillary Maciel)

O jornalista e crítico de cinema da Aceccine – Associação de Críticos do Estado do Ceará, Arthur Gadelha destaca que o cinema cearense vem crescendo sob uma sombra vizinha de Pernambuco. Segundo Gadelha, isso é um processo curioso porque é como se o Ceará estivesse atrás de uma identidade que já foi resumida ao cangaço e à seca, por exemplo. Esse movimento é ainda mais perceptível sob o ângulo da crítica cinematográfica, porque o cinema pernambucano sempre teve essa projeção nacional. Isso não significa que a produção cearense pode ser considerada inferior, mas é perceptível que há empecilhos quanto a sua visibilidade.

“Nos últimos tempos, essa questão veio mudando internamente (à exemplo da explosão de Cine Holliúdy pelo Brasil) e externamente também – filmes do coletivo Alumbramento, ou do Leonardo Mouramateus (um dos novos nomes do cinema local), sendo exibidos em festivais da magnitude de Locarno, provam um alcance que sempre fez parte do cinema que fazemos no Ceará. É uma situação de ascensão perceptível em qualquer dos setores interligados. Do aumento de produção à distribuição, todos esses passos testemunham”, diz.

Clarisse ou alguma coisa sobre nós dois. Foto: Reprodução

Sobre o destaque, ele enfatiza que o cinema está sendo “recomposto”, buscando ser ainda mais plural, ser capaz de respirar. “O longa “Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois”, de Petrus Cariry, por exemplo foi filmado em um Ceará que se desvirtua do imaginário vendido pela indústria de massa ao redor do Brasil”, conta. Gadelha desenvolve, entretanto, que o público busca o que reconhece. “Não por outro motivo a insistência dos cinemas de shoppings e tudo o que trazem na bagagem. É uma situação perfeita para que o sucesso das comédias de Halder Gomes domine um estado literalmente vendido Brasil afora como sinônimo do humor”, conclui Arthur.

Procurando mudar

Já o ator e historiador, Thiago Camelo, mostra uma nova vertente. Ele conta que, apesar de todos os seus problemas como ator, faz de tudo para que todo dia seja um aprendizado, seja na teoria ou prática. “Não costumo ficar parado sem querer ser instigado a pensar, refletir e concluir. Acredito que, para o ator se encontrar, ele precisa observar tanto a ele próprio como o outro. Observar o sentir do corpo em seu processo emocional, social, cultural e histórico”, conta.

Já sobre o cinema, ele conta que a maior grandeza é poder trabalhar com microexpressões, detalhes, que influenciam na cena e no sentimento que ela necessita transparecer. “Atualmente estou no roteiro, direção e atuação no meu primeiro curta-metragem chamado NI.5. Uma ficção com temática noir, tendo elementos de drama, ação, suspense e mistério”, revela.

Thiago Camelo. Foto: Arquivo Pessoal

Ele comenta que é preciso agir, principalmente quando o mercado artístico do estado é mal explorado. “Tem muito produto com potencial, mas, muitas vezes, falta espaço e divulgação. O produto regional artístico tende a ser apagado pelo internacional ou nacional. O Ceará tem muita arte para expor, o problema é o acesso”, conta Camelo.

Os principais trabalhos de Thiago foram aqueles que lhe garantiram prêmios. “Fiz uma esquete chamada Papéis Laminados, em que tive o privilégio de ser convidado e atuar em um festival de esquetes de Fortaleza, com um tema pesado que foi sobre machismo, sendo gratificado como ator revelação. Fui premiado como melhor ator coadjuvante por outra esquete, chamada “Caducando”, feita pelo meu grupo ‘O Inesperado’”, disse. De cinema, ele destaca a obra Como Chegamos Aqui, exibido pelo 25º Cine Ceará.

Já o crítico de cinema e criador do canal Clube de Cinema de Duas Portas, Bruno Albuquerque, destaca que o papel da crítica, apesar de importante, tem tido grande desvalorização, às vezes, por parte dos próprios profissionais. Além disso, ele demonstra a relevância de continuar filmando, consumindo e criticando os filmes do estado.  

Confira no vídeo abaixo:

 

Confira a matéria editada por Gabriel Amora:

Cinema Cearense

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