Técnica e sensibilidade na construção de espaços livres

Por Luiza Ester

Foto: Luiza Ester

“Tem gente que acha que espaço livre tem que ser ‘qualquer coisinha’. Não! Tem que ser bem tratado. A gente tem que acordar de manhã, sair de casa e se sentir tão acolhido quanto em casa”, afirma Fernanda Rocha, 54, arquiteta paisagista e professora da Universidade de Fortaleza (Unifor). Nessa perspectiva, a construção de um espaço livre realizada por um paisagista busca compreender e organizar um lugar para converter sensações de aconchego individual ou coletivo.

De acordo com o artigo “Conceito de Paisagem”, publicado em 2015 pelo site Mundo Educação, por Rodolfo Pena, geógrafo, “a paisagem é, pois, os aspectos perceptíveis do espaço geográfico, isto é, a forma como compreendemos o mundo a partir de nossos sentidos, tais como a visão, o olfato, o paladar, entre outros”. Conforme o artigo, mesmo que a visão seja, geralmente, o sentido mais aguçado quando se trata dessa assimilação, ela não é a única. A percepção de um espaço também se dá por cheiros, sons e sabores.

“A paisagem é a forma como compreendemos o mundo a partir de nossos sentidos” (Rodolfo Pena)

Segundo Fernanda, o paisagista compreende os cenários como esse sistema múltiplo de fatores. “Deve atender necessidades diversas e promover o bem-estar de todas as pessoas, se preocupando também com questões como sustentabilidade e ética”, assegura. No vídeo abaixo, a professora conta como o exercício em um espaço livre reflete na fauna, flora, dinâmica das águas e dos microclimas de um lugar.

 

Cidadania

Utilização do espaço livre promove a cidadania. Ilustração: Alexandre Sampaio

Na correria do cotidiano, o paisagista busca, também, avançar na construção coletiva da cidadania. Isso é o que diz a professora Fernanda. Para ela, elaborar esses ambientes externos tem uma importância fundamental para qualquer cidadão. “É no espaço livre que se dão as relações sociais, a questão do convívio, a questão da percepção daquele espaço ser esteticamente agradável e bem cuidado”, diz.

De acordo com Fernanda, com a falta de arborização de um espaço, as pessoas passam a não valorizá-lo. Para ela, isso reduz o nível de civilidade de cada um. “Elas [pessoas] não vão ser capazes de conviver com a diversidade que existe, naturalmente, em um espaço público, porque é um espaço da diversidade. Ali tem gente de diferentes raças, etnias, credos, estratos sociais. Você precisa trabalhar esse espaço para atender essas diferentes necessidades, para favorecer esse diálogo entre diversos públicos”, opina.

“O espaço público é um espaço da diversidade. Ali tem gente de diferentes raças, etnias, credos, estratos sociais. Você precisa trabalhar esse espaço para atender essas diferentes necessidades, para favorecer esse diálogo entre diversos públicos” (Fernanda Rocha)

“Eu defendo muito que a gente tem que usar o espaço público, até para a gente ter mais segurança”, comenta a professora. Para ela, os espaços só são definitivamente livres quando são abrigados por todos os tipos de “gente”. Em um relato sobre essa interferência da urbanização, Fernanda comenta sobre o cotidiano da cidade de Fortaleza, confira:

 

Urbanização, homem e natureza

“Como você dialoga? Como você avança nesse convívio, nessa construção coletiva da cidadania, se você não tem um espaço que favorece isso? Aí você passa a viver numa cidade murada, fechada, vigiada por câmeras”, critica Fernanda. A urbanização faz parte da realidade de várias regiões. Prédios, obras intermináveis e uma cidade cinza tomam conta do cotidiano e, segundo a professora, interferem diretamente na sociabilidade.

“Como você dialoga? Como você avança nesse convívio, nessa construção coletiva da cidadania, se você não tem um espaço que favorece isso? Aí você passa a viver numa cidade murada, fechada, vigiada por câmeras” (Fernanda Rocha)

Contudo, áreas verdes favorecem a interação social e, consequentemente, a integração da comunidade. Isso é o que diz uma pesquisa de 2011, realizada pela Escola de Medicina Miller, da Universidade de Miami. Além disso, o estudo revela que coberturas vegetais são consideradas remédios naturais, reduzindo a poluição, regulando a umidade do ar e minimizando a sensação térmica. Assim, ao criar espaços com arborização, o paisagista gera outra condição de vida.

Infográfico: Luiza Ester

Para a paisagista Fernanda, tanto o espaço construído quanto o livre, espelham a relação das pessoas de maneiras distintas. Ao trabalhar com a concepção desse espaço arborizado, o paisagista constrói afeto do homem com o lugar, com a comunidade e entre si. No vídeo abaixo, pessoas comuns dizem sentir-se bem ao estar em um local rodeado pelo verde da natureza:

 

Além disso, o paisagista precisa compreender como a construção desse espaço livre pode afetar outros biomas. Algumas árvores atraem certos animais naturalmente, mas que não condizem com o ecossistema do local em que foram plantadas. Segundo Fernanda, se isso acontecer, toda a natureza dessa área será impactada.

Áreas verdes

No mapa, estão reunidos alguns dos espaços urbanos com áreas verdes em Fortaleza, confira:

Arquitetura Paisagística

“A arquitetura paisagística é a concepção e a construção de um espaço livre, que pode ou não ter vegetação”, explica Fernanda. O profissional habilitado para exercê-la é o arquiteto e urbanista, pois ele é quem tem a capacidade de estruturar espaços. Entretanto, conhecimentos de botânica não são aprofundados durante o curso.

A paisagem é um sistema que exige vários tipos de atuação profissional. “Não é uma categoria exclusiva do arquiteto. Tem outros profissionais, como o engenheiro agrônomo, que tem conhecimentos sobre os tratos culturais de uma planta, o biólogo, que conhece as interrelações entre as espécies da flora com a fauna”, esclarece.

Quer saber mais sobre a atuação de um paisagista? Aperte o play!

 

Confira a matéria editada por Luiza Ester:

Paisagismo

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