Fragmentos da música cearense na cena autoral

Por Lua Torre

A música transcende, comunica, reúne diversos estilos e classes sociais. Em Fortaleza, o cenário musical cearense é uma grande válvula de expressividade, resistência e criatividade.  Foram entrevistados dois artistas que são estudantes do curso de Licenciatura em Música da Universidade Federal do Ceará (UFC) e atuam no panorama da música cearense. O curso é voltado para a educação musical, entretanto prepara seus alunos para também atuarem como artistas-docentes, isto é, como compositores, produtores musicais, regentes, instrumentistas e cantores.

Cada um dos músicos entrevistados fomenta uma característica especial para entendermos seus processos criativos, suas influências, suas buscas e inquietações. Por fim, nas entrelinhas dos textos permeia-se um retrato dos artistas, afinados com a vontade de fazer música e compartilhar suas perspectivas e seus processos individuais de criação com as particularidades de momentos vividos em suas carreiras.

Bruno e Amanda, integrantes dos Novos Baianos. Foto: reprodução

Com o nome sugestivo de “Novos Caetanos”, o duo formado pela potiguar Amanda Pinheiro e o capixaba Bruno Silva, traz no nome a vontade de resgatar e reciclar a Música Popular Brasileira. Seu trabalho imprime sonoridades com influências do que há de mais frutífero na MPB.

A história do duo vem antes mesmo de sua formação. Alunos de Licenciatura de Música na Universidade Federal do Ceará, eles se conheceram em 2015 ao entrar para o curso, estreitaram laços de amizade e se reconheceram na vontade de criar, cantar e se apresentar artisticamente.

Apesar da experiência de tocar e cantar com outros grupos, foi ao subir no palco como Novos Caetanos que Amanda e Bruno sentiram o peso da responsabilidade de comandar um show. Na entrevista, a seguir, eles falam das sensações do início da carreira e os primeiros desafios.

Lua Torre: O duo Novos Caetanos tem uma proposta interessante. De onde surgiu a vontade da sua criação?

Bruno Silva: Surgiu da fome com a vontade de comer. Eu e a Amanda somos amigos de faculdade. Desde o primeiro período já estávamos tocando juntos com uma banda de baile de casamento e frequentando a casa um do outro. O que demorou para acontecer foi me sentir apto a subir no palco, mostrar um repertório autoral e o maior desafio, cantar.

Amanda Pinheiro: O duo surgiu exatamente como Bruno falou, “a fome mais a vontade de comer”. Nos sentimos, finalmente, aptos a subir no palco e levar um pouco da nossa verdade às pessoas e, também, o que temos aprendido ao longo dessa caminhada de estudar música dentro e fora da universidade.

LT: Qual a primeira impressão ao subir no palco pela primeira vez?

BS: Já subimos nos palcos várias vezes com outros projetos, então, aquela adrenalina e tremedeira já estava em um estágio superado. Mas com os Novos Caetanos, realmente, foi a primeira vez de várias coisas novas para nós, como cantar, tocar e preencher a música que em duo exige bem mais. Mas o som estava muito bem regulado, o que nos deu uma certa segurança.

AP: Como artista, já havia subido ao palco várias vezes, tocando ou cantando com várias pessoas e dividindo essa responsabilidade. Quando subimos só eu e Bruno pela primeira vez, me veio um desespero de saber que essa parcela de responsabilidade era de, pelo menos, 50 por cento. A ideia do duo é maravilhosa para dividir o cachê, já que somos dois. Entretanto na hora de subir no palco sempre volta aquela sensação de frio e dor de barriga.

“Com os Novos Caetanos, realmente, foi a primeira vez de várias coisas novas para nós” (Bruno Silva)

LT: Quais as suas principais influências musicais?

BS: As influências têm sempre os campeões. Milton Nascimento, Caetano Veloso, obviamente, Chico Buarque, Tom Jobim… Em especial, o meu violão vem da escola do Baden Powell, Raphael Rabello e as composições que ultrapassam da MPB, que permeiam do jazz, blues ao pop.

AP: Minhas principais inspirações vêm das deusas Elis Regina, Gal Costa, Nana Caymmi, Maria Bethânia e Mônica Salmaso. Não tem como não morrer de ouvir e beber dessas fontes maravilhosas para cantar e interpretar.

LT: Como vocês pensam e organizam o seu repertório?

BS:  O duo surge de uma necessidade de expressão artística, tocamos exclusivamente músicas que amamos. Dentro destas, avaliamos quais combinam mais no sentido de construir um show.

AP: A distribuição das músicas sempre vem da necessidade de contar histórias. Sempre sentamos e conversamos para decidir o que queremos passar para o público. De fato, todas as músicas do nosso repertório são músicas que fazem parte da nossa vivência particular, são músicas do fone de ouvido que a gente ouve no ônibus, indo pra faculdade. Essa é a primeira história. Depois, buscamos uma história que case com a sequência e isso a gente vai descobrindo à medida em que o processo de construção vai acontecendo, nos ensaios, nas nossas conversas. Embora algumas coisas a gente já coloque com um propósito, a escolha da maioria das músicas vai surgindo no decorrer desse processo.

LT: Quais as principais facilidades e dificuldades que vocês têm enfrentado no início da carreira?

BS: Nossa facilidade vem da nossa parceria e amizade. Estar sempre na casa do outro de bobeira, compartilhar a rotina permite uma mobilidade na hora do trabalho muito grande e muitas vezes não chega nem a ser pensado como hora de trabalho produtivo. Obviamente temos nossos momentos pra ensaiar, realizar o processo de aquecimento, criar os arranjos, mas depois acaba em pizza ou frango frito com refrigerante. Agora,  as dificuldades acredito que estejam em aceitar o tempo necessário para as coisas acontecerem.

AP: Nossa maior facilidade, sem dúvida, é passar dias e dias na casa um do outro, comendo, dormindo e tocando música. Conhecemos muito um ao outro e convivemos bastante juntos. Com isso, acaba facilitando muita coisa no processo de criação. A maior dificuldade, pelo menos neste início de carreira, é conseguir locais para se apresentar. A cena musical de Fortaleza é um espaço que a gente tem tido muita dificuldade para ingressar. Acredito que essa seja a maior dificuldade, mas também não vejo isso como barreira.

LT: Por último, como vocês definem o cenário musical cearense?

B: Eu tento manter uma visão otimista do Ceará. Eu vejo uma demanda artística muito grande. Tem muito músico bom, virtuoso e expressivo. O Ceará tem uma vertente na música instrumental fortíssima. Agora, falando como artista, entrar nesses nichos é um pouco mais difícil, mas nenhum lugar do Brasil é fácil. Os equipamentos públicos dificilmente são ocupados de forma democrática.

AP:  O cenário da música cearense é uma coisa linda. Sou muito suspeita para falar, tem muita gente boa de verdade e o Brasil tá começando a ver isso. Como falei anteriormente, fora a dificuldade que é entrar na cena, o cearense em si é muito aberto e caloroso por essência e isso está imprimido na música.

Caio Castelo

Caio Castelo. Foto: divulgação

Cantor, compositor, produtor musical e jornalista. Caio Castelo, 30, coleciona em sua carreira dois discos lançados, “Silêncio em Movimento”, de 2013, e “Dois Olhos”, de 2016. O segundo foi fruto da parceria com Alê Siqueira, produtor de inúmeros artistas nacionais, como Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Tom Zé e Elza Soares.

Caio se destaca no meio cultural cearense por suas canções autorais. Nos seus quase dez anos de carreira, o cantor participou de muitos projetos musicais, entre eles, a colaboração com os cantores Jocastro Brito, Clau, Matheus Santiago e Lorena Nunes.

Com trabalho de extrema sensibilidade, por meio de uma seleção rigorosa, foi escolhido juntamente com outros músicos, dentre eles a cantora Soledad Brandão, para participar do Laboratório de Música da Escola Porto Iracema das Artes, em 2015. Na instituição, pode ser desenvolvido seu potencial como cantor, instrumentista e compositor, dentro e fora dos palcos.  

Lua Torre: De onde surgiu a vontade de ser músico?

Caio Castelo: Minha família não é muito musical, a única influência na área era um tio meu, que era sanfoneiro e morava em Recife. Sempre que nos encontrávamos, eu tinha o contato com a música até que, em algum desses momentos, ele me ensinou o tema da vitória do Ayrton Senna. Então, comecei a reproduzir aqueles acordes no teclado que tinha em casa. Com o tempo, fui enjoando do teclado e comecei a tocar um violão velho, que era do meu avô e estava perdido em casa. A partir dessa descoberta, comecei a aprender algumas notas. Na época não tinha internet fácil e eu comprava umas revistinhas de acordes em banca de jornal para poder me aperfeiçoar. Nunca parei, fui tocando e tendo mais desejo de fazer música. Encontrei amigos que tinham a mesma vontade e comecei a me apresentar.

LT: O seu trabalho tem uma característica bem experimental. Quais são as suas influências na música? E o que elas refletem em seu trabalho?

CC: As referências vão mudando com o tempo. Hoje em dia, eu escuto muitos sons que vão ao encontro com alguns trabalhos de artistas que eu estou produzindo, outras vezes as referências circulam com o que eu imagino que quero fazer no meu trabalho ou na produção de outras bandas. Às vezes, eu só quero escutar uma música. Atualmente, eu tenho escutado muita música nacional e, principalmente, cearense. Inclusive, acho fantástico escutar sons de pessoas que estão próximas a mim e que eu posso ter essa troca, de poder fazer música junto e conviver.

LT: Como é o seu processo criativo para compor?

CC: O processo criativo varia bastante, não tenho um definido. Em certos momentos, a primeira ideia pode criar e resultar alguma coisa interessante, surgir uma música completa. Às vezes, eu sento e me proponho a compor. Outras vezes, o processo é mais espontâneo. Não tem apenas um método e, sim, vários métodos interessantes. 

LT: Além de músico, você também é produtor musical. O que te motiva e desperta a querer produzir outros artistas?

CC: Na verdade, isso nem partiu de mim, eu estava concentrado fazendo meus trabalhos musicais, de arranjar e produzir, e, em algum momento, alguém percebeu que eu também poderia produzir por elas. O primeiro que eu assumi foi o Matheus Santiago. Foi um trabalho que tive muita liberdade para construir o CD de uma forma bem fluida. Depois, outros artistas foram se identificando e querendo também que eu atuasse como produtor. Assim, as produções foram acontecendo.

LT: Na sua opinião, como funciona hoje a cena musical cearense?

CC: Nos últimos tempos, eu tenho achado cada vez mais difícil. É um reflexo dos tempos em que nós estamos vivendo. Eu sinto a cena musical de uma forma meio cíclica. Nos meus quase dez anos de carreira, percebi que tem épocas com muita movimentação artística de bandas e artistas surgindo. Mas tem outras momentos em que o movimento enfraquece e, depois, volta a ser frutífero novamente. Atualmente, eu sinto que vem surgindo muitos artistas e bandas inovadoras, com propostas diferenciadas, mas sofrem com a dificuldade de ingressar nos locais culturais, por ter pouco espaço.  

LT: Qual foi o seu maior desafio na música?

CC: O maior desafio para mim sempre foi cantar. Esse foi o primeiro desafio juntamente com o lançamento do primeiro disco, ao estar na frente de uma banda e me propor a isso. Era uma coisa que ninguém apostava em mim nesse sentido. Por também estar rodeados de grandes cantores cearenses, tinha um estranhamento por eu não ser destaque como cantor. Mas, teve profissionais que me auxiliaram muito, como as professoras e cantoras Lia Veras e Consiglia Latorre, e tantos outros professores da UFC, que tanto me ajudaram a desenvolver minha voz e como me expressar de uma melhor maneira.

“O maior desafio para mim sempre foi cantar” (Caio Castelo)

LT: Em 2015, você teve a oportunidade de desenvolver seu trabalho musical no Laboratório de Música da Escola Porto Iracema das Artes. Como foi ter essa experiência?

CC: Foi fantástico só de ter tido a oportunidade de ter trabalhado com o Alê Siqueira, um aprendizado que ecoa até hoje em mim e na banda. Eu também acompanhei outras bandas antes de entrar, como a da Lorena Nunes que interpretava algumas músicas de minha autoria. Então pude ficar um pouco mais próxima do trabalho em que a escola executava, o que era muito enriquecedor. O nosso processo foi muito rico porque o Alê chegou junto de uma forma bastante generosa, com sua experiência  e conhecimento, soube se colocar e moldar o som como ele vislumbrava. Assim, montamos o trabalho juntos, percorrendo uma direção comum.

LT: O que podemos esperar dos próximos passos de Caio Castelo? Vocês têm algum plano em mente para o futuro?

CC: Temos muitos planos em mente. Estou produzindo material novo das minhas canções e investigando novas sonoridades em conjunto com a minha banda. Em paralelo, estou com uma banda instrumental chamada “Invisível”, produzindo uns artistas cujo material deve ficar pronto em meados de 2018. Ao decorrer deste ano, ainda será lançado um selo musical para colocar para frente todas essas produções, seja minha ou de artistas que eu produzo, movimentando a cena musical cearense.

Mapa cultural

Por meio de um mapa de geolocalização cultural, podemos ver como está disposto atualmente os espaços culturais da cidade e como eles podem se relacionar com o meio:

 

 

Novos Caetanos e Caio Castelo

Confira a matéria editada por Lua Torre:

Música Cearense 

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