A voz de quem sente na pele

Por Tatiana Alencar

São muitos os homens no cenário musical tentando cantar o que elas sentem. Mas, afinal, o que as cantoras cearenses estão cantando? De uns tempos pra cá, não foram poucos os casos de mulheres expondo músicos de bandas nacionais, os acusando de machistas e abusivos. As bandas Apanhador Só, Francisco El Hombre, o músico Phill Veras, banda Paquetá, Não ao futebol moderno, Lotus, Vespas Mandarinas, banda Carne Doce, Inquérito, os músicos Gabriel Sá, Esteban Tavares, Criolo… todos esses citados foram acusados de misoginia e machismo por parte, principalmente, das ex-companheiras de alguns desses músicos.

O irônico disso tudo é que nem o machismo nem a misoginia estão nos discursos e nas letras desses músicos. São nas atitudes fora do palco que eles mostram este outro lado. A maioria dessas bandas e cantores levantam, em suas canções, bandeiras a favor de minorias, sobretudo mulheres. As letras de muitos desses artistas são consideradas feministas.  

Casos como esses, além de salientar a ironia de toda essa situação, atenta para outra questão: mas, e as mulheres? Onde estão as intérpretes e compositoras? Afinal, são essas as mais indicadas para levantar a bandeira do feminismo. São essas que necessitam ser ouvidas. É o que chamamos atualmente de “lugar de fala”. O que as mulheres cearenses estão cantando?  

“A mulher precisa dessa expressão e precisa se identificar com o que é dela.” (Apá Silvino)

Ela gosta de experimentar

Clau. Foto: arquivo pessoal

A Cantora Clau vem ganhando cada vez mais espaço no cenário musical cearense. Praticamente “apadrinhada” por outra grande cantora do nosso estado, Apá Silvino, Clau além de excelente intérprete é multi instrumentista e compositora. “O som que eu faço vem muito do meu feeling, diz muito sobre as coisas que eu estou vivendo, sentindo e ouvindo ali no presente, mas também traduz as muitas referências musicais que eu recebi ao longo da vida. Inevitavelmente, vira um som experimental cheio de raízes na música brasileira, principalmente na cearense”.

Ela é meio bossa nova e rock&roll

A cantora Lua Latorre, também recente no cenário musical local, aposta na mistura de vibes e ritmos. “Eu costumo definir como um rock alternativo, mas tem tanta influência em sentimentos e em sensações de outros estilos que acabamos não definindo um só som. Tem muita influência da Tropicália, mpb, samba. Tudo isso junto”, conta.

A única regra é cantar o que sente

Lua Latorre. Foto: Carolina Parente Barbalho

As duas cantoras têm em comum a juventude. A nova geração é bombardeada por uma espécie de obrigatoriedade, mesmo que indireta, de levantar alguma bandeira e cantar por alguma causa. No caso das duas, essa pressão não afeta a espontaneidade de seus trabalhos. “Minha canções falam de sentimentos, experiências e vivências no amor. Algumas que aconteceram comigo outras que eu inventei ou me inspirei de filmes e casais amigos meus”, afirma Lua. “Gosto de escrever sobre as pessoas, de me pôr no lugar delas. Algumas das minhas composições mais recentes falam muito sobre pessoas que conheci e que me transformaram”, conclui Clau.

As composições das artistas são intimistas, falam muito mais do que vem de dentro, da alma, sem necessariamente ceder à pressão de ser engajada em uma causa. Mas, o fato de ser mulher e artista na nossa sociedade, por si só, já é uma forma de militância. “Ser mulher é uma quebra de padrões diários e, na música, não é diferente. O legal é que a gente pode se expressar e mostrar nossa força e nossa luta, seja na delicadeza ou no protesto. Tem de tudo hoje, sinto o cenário muito mais forte do que anos atrás. Nós mulheres temperamos a música de uma forma diferente, singular”, ressalta Lua.  

Já Clau atenta para o fato de que as dificuldades que uma mulher passa não ficam apenas explícitas na arte, mas em qualquer área que elas venham a atuar. “Sempre tem essa coisa de ter que provar que sabe o que está fazendo para ser levada a sério. As mulheres que trabalham e que habitam o meio musical enfrentam, todo dia, um machismo velado, meio difícil de se escancarar. É um m negócio muito difícil de lidar, mas que é bom saber que a cada dia tem mais um monte de mulher junta nessa luta”.

 

A voz da experiência

Apá Silvino. Foto: arquivo pessoal

Apá Silvino é uma das cantoras mais influentes do cenário musical cearense. São mais de 30 anos dedicados à música. 30 anos sempre em busca de inovar o repertório de acordo com aquilo que ela vai descobrindo e redescobrindo dentro de si mesma com o passar dos anos. “Antes, eu gostava de cantar músicas dramáticas. O Fausto Nilo dizia que eu era a Billie Holiday do Ceará. Hoje, eu gosto de cantar alegria”, explica.

Para Apá, se expressar através da arte não é uma questão de gênero. “O ser humano precisa de expressão. É com alegria que eu vejo tantas mulheres compondo de forma maravilhosa, porque a mulher precisa dessa expressão e precisa se identificar com o que é dela. Isso é uma vitória, de fato”, conclui.

Sobre o preconceito de gênero que a mulher sofre, ela faz questão de enfatizar que isso ocorre em todas as áreas, mas que, na arte, ainda consegue ser maior. “A mulher enfrenta dificuldade em qualquer meio. Na arte, é pior ainda por conta da exposição. A exposição do corpo gera uma energia de desejo meio estranha e, ao meu ver, impede a arte de se expressar, porque existe a indústria do entretenimento e existe a arte”.

Ela tem fome de quê?

Apá Silvino ainda atenta para algo mais geral: a arte é o alimento da alma. “O entretenimento é como “cheetos“, você como e não se alimenta. E isso faz mal. A arte é um prato de salada com uma carne bem feita, legumes, um copo de suco. A arte é um alimento para a alma. E a indústria de entretenimento está jogando muito açúcar, muito elemento industrializado e isso faz mal.” conclui.

“A arte é um prato de salada com uma carne bem feita, legumes, um copo de suco. A arte é um alimento para a alma” (Apá Silvino)

A luta da mulher por voz ativa e espaço cativo na sociedade não é de hoje. São as artistas que, de alguma forma, tentam subverter o machismo, cantar aquilo aquilo que sentem e mostrar aquilo que pensam através de suas canções. Elas não pedem por piedade hoje, pedem por respeito. E aos poucos, parecem conquistar o mundo. É um caminho longo e árduo, mas como cantava a intérprete Claudia:

“E você não tem direito de calar a minha boca

Afinal me dói no peito uma dor que não é pouca

Tem dó!”

O que elas cantam?


 

Confira a matéria editada por Tatiana Alencar:

A voz de quem sente na pele

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

css.php