Exposição infantil nas mídias sociais exige cuidados

Por Tércia Mota

Compartilhar imagens dos filhos nas mídias sociais se tornou uma prática comum por parte de alguns pais, principalmente dos famosos. Os herdeiros começam a fazer sucesso antes mesmo de nascer. Ensaios fotográficos são realizados a partir da gestação, assim como os momentos especiais do crescimento da criança, bem como toda a rotina da criança. Aqueles registros que antes eram guardados nos álbuns de fotografias da família, agora estão à mostra para todo o planeta. O parto, o primeiro banho, a primeira mamada, todo o desenvolvimento é acompanhado pelos internautas. Dessa forma, os pequenos são inseridos nas mídias e, aos poucos, começam também a acessar por conta própria seus perfis e iniciam a interação nas redes. Mas qual seria o limite para a exposição ser saudável e segura?

Pesquisa sobre segurança online

A empresa AVG Technologies, que trabalha com software de antivírus, lançou um Guia de Segurança Online, disponível de forma gratuita, em formato ebook. Nos capítulos são abordados temas como a entrada das crianças no mundo virtual, a privacidade dos bebês, crianças e jovens nas redes sociais e o papel dos pais na educação e no uso dos meios digitais.

Para a produção do software foi necessário um longo trabalho de pesquisa dirigido pelo engenheiro e embaixador de tecnologia da AVG, Tony Anscombe, que também é autor do livro One Parent to Another (De um pai para outro, em tradução livre do inglês) sobre o mesmo tema. O questionário online foi respondido por mais de cinco mil pais do Reino Unido, França, Alemanha, Espanha, República Tcheca, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Brasil para mostrar o comportamento de seus filhos na rede.

fonte: AVG Technologies

A pesquisa revelou que a rede social preferida das crianças é o Facebook, a maior rede do mundo. Apesar de recomendar que o acesso é para maiores de 13 anos (pois o conteúdo veiculado ali pode ser inapropriado para os menores desta faixa etária), quase 20% das crianças do mundo não obedecem o aviso e fazem um perfil antes dos 9 anos. Se for considerado, na mesma faixa etária, apenas as crianças do Brasil, a porcentagem sobe para 54%.

A maior surpresa surgiu com a revelação de que 89% das crianças entre 6 e 9 anos são ativas na internet e, os jogos estão entre suas atividades preferidas, além da interação pelas redes sociais. Entretanto, a preocupação dos pais com a segurança não aumenta na mesma proporção e 30% não acham necessário um controle sobre os filhos.

Compartilhar em tempo real

A internet é um meio de convívio social. O Brasil é um dos países mais conectados do mundo e o terceiro país em números de usuários no Facebook, com 99 milhões de contas ativas. Mark Zuckerberg, presidente-executivo da plataforma, anunciou que a rede social chegou a 2 bilhões de usuário em junho de 2017.

Mas, qual seria a necessidade de se manter constantemente conectado? Por que os pais compartilham tantos momentos dos seus filhos? Uma amostra de dados da pesquisa realizada pela AVG Technologies, mostra que 80% dos pais de crianças na faixa etária com até dois anos postaram, pelo menos uma vez, imagens dos seus filhos na internet. 24% dos pais brasileiros fizeram a primeira foto direto da maternidade. O maior motivo de tanta exposição é fazer com que os amigos e a família participem dos momentos especiais.

Fonte: AVG Technologies

Sociedade do espetáculo

Toda essa exposição precisa de um limite. “A criança que vai para mídia vai se identificar com a mãe. As identificações fazem parte do desenvolvimento infantil. A criança tem que entender o que ela pode usar, que é um brincar, que ela não pode se maquiar como a mãe. A mãe que impõe esses limites. A criança precisa entender até onde ela pode ir. O legal é o brincar, o se imaginar, ‘eu vou crescer como a minha mãe, como a minha professora, como meu pai’. A criança entende muito bem, quando é imposto o limite”, explica a psicóloga e psicanalista Janara Pinheiro.

Segundo o escritor francês Guy Debord, vivemos em uma sociedade do espetáculo e consumo, em uma tela global em que todos querem aparecer a qualquer preço. Só existe quem se mostra. Só conta o que projetamos de nós mesmos numa imagem. Esse contexto é abordado na série da Netflix, Merlí. Os episódios abordam as ideias de pensadores e aplicam suas lições no seu dia a dia para resolver os problemas que surgem na trama.

 

Outra série que também expõe o assunto é Black Mirror. O seriado mostra as consequências das novas tecnologias e como as pessoas se tornam reféns das redes sociais, principalmente se está sendo aprovada por seus seguidores.

 

 

O filósofo coreano, Byung-Chul Han, no seu livro Sociedade da Transparência, explica que, na sociedade positiva, as coisas são transformadas em mercadorias e têm de ser expostas para serem produtos. Portanto, seu valor cultural desaparece em favor de seu valor expositivo. Em vista dessa situação, a existência das coisas perde totalmente a importância. Pois, tudo o que repousa em si mesmo, passou a não ter mais relevância. Agora, o objeto só adquire algum valor se for visto.

 

Alguns famosos, como o  Wellington Muniz (Ceará) e Mirella Santos já criaram um perfil para que a filha tenha visibilidade, a Valentina Muniz. No Instagram, seus seguidores já passam dos dois milhões. Ela participa de propagandas junto com os pais, desfila para marcas, é uma mini celebridade. Na sociedade expositiva, cada sujeito é seu próprio objeto-propaganda; tudo se mensura em seu valor expositivo. O excesso de exposição transforma tudo em mercadoria que “está à mercê da corrosão imediata, sem qualquer mistério”, diz Byung-Chul Han.

 

Fonte: AVG Technologies

Alerta para os pais sobre o que publicar

A psicóloga Janara Pinheiro adverte que é necessário muito cuidado com a exposição, pois os pais são referências para suas crianças. Se a exibição for exagerada, eles podem constituir um filho de uma maneira muito fragilizada. Segundo Janara, essa criança pode desenvolver um transtorno de ansiedade, uma síndrome do pânico ou alguma fobia social. Isso ocorre porque a criança pode ter sido tão exposta que pode chegar ao ponto de não querer mais ser vista por ninguém.

A psicologia do desenvolvimento enxerga que, a cada fase, é necessário vivenciar certos aspectos para o desenvolvimento ocorrer de forma satisfatória. O brincar desenvolve o aspecto não só cognitivo, mas também o aspecto social, psicológico e emocional. Com isso, a criança aprende brincando.

A psicóloga Janara Pinheiro adverte que é necessário muito cuidado com a exposição, pois os pais são referências para suas crianças. Se a exibição for exagerada, eles podem constituir um filho de uma maneira muito fragilizada. Segundo Janara, essa criança pode desenvolver um transtorno de ansiedade, uma síndrome do pânico ou alguma fobia social. Isso ocorre porque a criança pode ter sido tão exposta que pode chegar ao ponto de não querer mais ser vista por ninguém.

A psicologia do desenvolvimento enxerga que, a cada fase, é necessário vivenciar certos aspectos para o desenvolvimento ocorrer de forma satisfatória. O brincar desenvolve o aspecto não só cognitivo, mas também o aspecto social, psicológico e emocional. Com isso, a criança aprende brincando.

Benefícios e malefícios da exposição infantil

Ingrid Machado, personal trainer e digital influencer, compartilha com mais de 46 mil seguidores momentos da sua rotina e da sua família, mas principalmente da filha, Antonella, que carinhosamente apelidou de Pompom. A personal afirma que, geralmente, o que compartilha nas redes sociais é em comum acordo com seu esposo, e tem assessoria para alguns casos, como os patrocinados. Segundo ela, existem algumas “regras” pessoais para que a família esteja segura.

Antonella usufrui de alguns serviços e parcerias que auxiliam na educação e no desenvolvimento. “Sabemos que existe profissionalismo, mas meu lado materno sempre busca o que é melhor para ela. Aceitamos convites que não desgastam nossa rotina e não comprometem a exposição de forma negativa. Dessa maneira, sofremos poucas críticas transformando conteúdo em algo divertido, conquistando parceiros e pessoas que agregam”, diz Ingrid. Além disso, a digital influencer busca orientação com profissionais qualificados para saber lidar e interagir com as pessoas, que faz com que os seguidores se sintam próximas e íntimas da rotina da família.

Ela explica que montou a conta no Instagram antes de 2014 para falar sobre estilo de vida, saúde e beleza com um toque de personalidade. Isso foi conquistando leitores e amigos ao longo dos anos. Por compartilhar também seu desejo pela maternidade, o público de mães e gestantes foi ficando mais próximo. Ingrid enfatiza que a chegada de Antonella veio deixar tudo mais alegre e colorido.

Para a turismóloga e mãe em tempo integral, Viviane Souza, o limite tem a ver com o respeito e a intimidade, pois está cada vez mais perigoso o mundo virtual. Por isso, procura não compartilhar fotos reveladoras demais ou que possam ser alvos de desrespeito. Viviane espera que, no futuro, o filho veja como foi a sua chegada na vida dela. “Visto que hoje as redes sociais estão aí para aproximar, mesmo que virtualmente, as pessoas, sinto prazer em mostrar para amigos e pessoas que me seguem como meu filho está se desenvolvendo e como é nossa vida agora com ele. Mas, espero é que, assim como o pai dele, ele nem goste de redes sociais”, diz Viviane.

A gerenciadora de digital influencers, Munira Rocha, comenta que as pessoas se expõem nas mídias sociais buscando o sucesso, voz ativa socialmente e a possibilidade de ser visto pelo meio offline para ganhar presentes. A gerenciadora cita como benefício que o trabalho dessas pessoas pode reverberar mais facilmente, ou seja, não é mais necessário esperar ser “descoberto” por alguém para que essa pessoa se divulgue. Qualquer pessoa pode gerar conteúdo nas redes sociais por conta da mudança na forma de se comunicar, as redes facilitam a comunicação. Mas, também há malefícios. Munira explica que muita gente não tem um filtro, um parâmetro de até que ponto expor a própria vida. Na busca de ser um digital influencer, alguns vão além e colocam em risco a segurança da família. Por outro lado, outros tomam medidas para que a segurança não seja colocada em cheque, ou seja, não expõem informações sobre a escola dos filhos, os horários e a rotina.

Confira a matéria editada por Tércia Mota:

Exposição infantil nas mídias sociais

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