A realidade de viver um sonho em outra cidade

Por Letícia Lavor

Você já se imaginou saindo da sua cidade para estudar em outro local? Tendo que lidar todos os dias com a correria da rotina e conciliar suas tarefas de estudante com o papel de “dono(a) de casa”? Acordar todos os dias e saber que se você quiser tomar aquele cafezinho, vai ter que perder alguns minutos de sono para não se atrasar, já que não tem quem faça por você. Ou então, chegar em casa quase dez da noite, querendo sua cama e encontrar um pilha de louça suja que não pode “se” lavar sozinha. Aprender a cozinhar, limpar a casa, aprender acima de tudo, a viver sozinho.

Esta é uma realidade que não está muito distante para um grande número de estudantes. Segundo dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2010, cerca de 29,2% dos alunos de ensino superior estudam em uma cidade diferente da sua natal. Os fatores que levam a essa decisão são os mais diversos possíveis. Em boa parte dos casos, os estudantes optam por se mudar porque querem uma faculdade melhor ou por não encontrarem o curso desejado perto de casa. Alguns simplesmente decidem que é hora de alcançar a liberdade e se virar sozinho. Mas, nem os mais aventureiros conseguem se desprender tão facilmente.

Do interior para capital

Lianne Peixoto, na Unifor. Foto: Arquivo pessoal

Lianne Peixoto, 18, cursa Jornalismo na Universidade de Fortaleza (Unifor). Quando surgiu a possibilidade de se mudar para capital, ainda cursava o terceiro ano do ensino médio em Jaguaribara, no interior do Ceará. A jovem se desesperou. “Eu me achava muito imatura para lidar com a ‘grandeza’ que é uma cidade grande, que é uma capital”, afirma.

Mas, quando chegou o momento de fazer faculdade, Lianne já não tinha mais como fugir, até poderia escolher entre ir para Mossoró, no Rio Grande Norte, ou Fortaleza, capital do Ceará, mas nesse ponto a decisão foi fácil. “[Mossoró] eu não teria a facilidade que eu tenho aqui, porque aqui eu tenho família, eu vinha mais vezes.  E também a faculdade é muito melhor do que em Mossoró. Então, vim para Fortaleza para ter mais oportunidade. É um mercado mais amplo também, principalmente para mim, que faço Jornalismo”, conta Lianne.

Para a jaguaribense, o mais difícil de ir embora foi deixar os amigos e a convivência que tinha com eles, sempre em sua casa. “Sinto falta de tudo mesmo, até da rotina mais tranquila que eu levava lá, porque aqui é tudo muito. Tudo muito grande, tudo é nova informação, tudo muito novo. Sinto falta da leveza, da calmaria que tinha, mas tenho certeza que toda vez que eu vou lá eu renovo minhas energias”, completa.

Ana Milena, na Unifor. Foto: Letícia Lavor

Já Ana Milena, 18, saiu de Icó, outra cidade do interior do Ceará, para estudar Design de Moda. A decisão foi tomada porque Fortaleza era a cidade mais perto com oferta do curso e, também, por causa das boas referências da Unifor.

Quando o assunto é o dia a dia, Milena não pensa duas vezes: “minha rotina é basicamente estudar e estudar. Pela manhã eu tenho aula e, quando eu chego em casa, como eu moro sozinha, eu tenho que fazer almoço, arrumar a casa, essas coisas”. Talvez por morar só, a estudante não abra mão de está sempre indo à sua cidade natal. “Eu acabo indo muito por conta da saudade em si e porque eu sempre fui acostumada a estar rodeada de pessoas”, afirma Milena.

Ao mesmo tempo que enfrentou os desafios de conciliar a rotina e lidar com a distância, ela conseguiu conquistar boas companhias. “Na faculdade, eu conheci muitas pessoas com culturas, com costumes totalmente diferentes, pessoas que até vieram de outras cidades também e são, hoje em dia, meus amigos. São pessoas com quem eu posso contar”, diz.

Uma nova vida

Julianna Braga, na Unifor. Foto: Letícia Lavor

Mesmo com todos os questionamentos que podem passar pela cabeça no momento de decidir seguir ou não para uma nova jornada, para algumas pessoas a mudança é questão de necessidade. Por exemplo, Juliana Braga, 19, veio de Manaus, no Amazonas, para cursar jornalismo em Fortaleza, em 2016. A decisão de mudar foi tomada em 2015, após passar  por alguns problemas pessoais. No ano seguinte, foi aprovada no vestibular para estudar na Unifor. Sem ter muito o que pensar, logo se viu em um estado bem longe de casa.

Quanto às diferenças de costume, Juliana garante que não sentiu muito choque cultural. “Acho que a maior diferença foi o modo de pensar das pessoas daqui. Lá, as pessoas são mais conservadoras e tem um pensamento muito restrito, que não bate com o meu”, conta. Ela também afirma que nunca sentiu nenhum tipo de preconceito, mesmo vindo de tão longe. “Não há preconceito, mas brincadeiras. Até hoje me chamam de Manauara. Eu não sou conhecida por Juliana pela metade dos meus amigos”, conta.

Satisfeita com a decisão que tomou, a manauara afirma que a distância nunca fez com que ela pensasse em desistir. “Eu sempre fui muito independente emocionalmente. Saudade existe, é claro, mas não é algo que alguma vez me fez pensar em voltar”, diz.

Lianne Peixoto, Ana Milena e Juliana Braga contam no vídeo um pouco de suas experiências nessa jornada. Confira!

 

Outro estado

Abraão Lavor, em cena na universidade. Foto: Arquivo Pessoal

Já Abraão Lavor, 22, se formou em Administração em 2015, mas não chegou a exercer a profissão. O sonho mesmo era cursar teatro. Então, assim que conseguiu, juntou suas coisas e partiu rumo à São João del Rei, em Minas Gerais, para uma cidade e uma experiência nova. A escolha diz muito a respeito do iguatuense, criado em Icó. “Essa decisão tem muito a ver com minha necessidade de independência, de aprender a me virar e de conseguir me entender, me conhecer melhor fora de uma zona de conforto, além do fato que na minha cidade não tinha o curso de bacharelado em teatro”, declara.

Apesar de ter saído de casa aos 13 anos para fazer o ensino médio em Fortaleza e ter morado sozinho aos 18 anos, o jovem precisou enfrentar novos desafios ao se deparar tão longe de casa e de todos os costumes que conhecia. “O maior desafio é lidar com a distância, porque entro em uma contradição. Quero ser independente, viver minha vida, mas, ao mesmo tempo, tem o negócio das raízes, além da questão financeira que, muitas vezes, não é fácil”, afirma Abraão.

No áudio, Abraão explica sobre o que costuma fazer no tempo livre e sua rotina no dia-a-dia:

 

Que tal conferir um mapa que mostra um pouco de cada cidade citada nesta matéria? Quem sabe você não descobre que uma delas é seu próximo destino!


Aproveita e não deixa de dar uma olhada em um infográfico que traz alguns dos maiores desafios de morar em outro lugar e já acrescenta essas informações na sua lista de prós e contras.

A opinião do repórter

Assim como esses quatro jovens e tantos outro espalhados pelo o Brasil, eu também precisei sair de casa. Sim, precisei porque não foi uma das escolhas que tomei com tanta facilidade. Aos 17 anos, recém formada no ensino médio, foi a minha vez de sair de uma cidade do interior do Ceará para cursar Jornalismo. Apesar de não morar sozinha, sinto falta de casa, da minha rotina e das pessoas que eu tinha na minha convivência. No entanto, acho que até os pontos negativos se tornam positivos, porque nos ensinam algo. Aprendi que sou, sim, capaz de me virar sozinha, pegar um ônibus em meio a um formigueiro de gente e fazer um arroz sem queimar. Aprendi que posso ultrapassar meus limites todos os dias. Aprendi, acima de tudo, que minha casa sempre vai ser minha.

Confira a matéria editada por Letícia Lavor:

A realidade de viver um sonho em outra cidade

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