Rap independente do Ceará

Por Jean Dantas

No Ceará, a consolidação do gênero é um processo de maior lentidão, pois se trata de um estado em que ritmos como o forró e o sertanejo são culturalmente mais populares. Entretanto, artistas cearenses reconhecidos nacionalmente, como Don L e RAPadura, são exemplos da vivacidade do rap do estado.

Seja em apresentações de artistas renomados no gênero ou nas tradicionais rodas de batalhas de rimas organizadas em lugares populares, como nas mediações do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, tornou-se visível a abundância e a participação do público, o que demonstra a expressividade do hip hop cearense.

A citação abaixo é de autoria de um dos maiores nomes do rap brasileiro: Sabotage. O artista se junta a um seleto grupo de ícones do gênero no que se diz respeito ao pioneirismo e a afirmação, como Racionais MCs, Planet Hemp, Gabriel O Pensador, Xis e Dentinho e Detentos do Rap.

“O rap é compromisso, não é viagem…” (‘Rap É Compromisso’ – Sabotage)

O Rap é um gênero musical que significa rhythm and poetry (ritmo e poesia), ou seja, uma espécie de poesia cantada a partir de uma batida, de um ritmo. Inicialmente, integrava o conjunto que compreendia o movimento de hip hop junto ao break, ao Grafite, ao DJeeing (a função de DJ) e ao MCeeing (a função de fazer rimas como MC). Alguns discordavam quanto à denominação de “movimento”, havia quem considerasse o hip hop como uma verdadeira cultura.

Posteriormente, a indústria musical criou um sub-gênero também chamado de hip hop, surgido a partir de artistas inseridos dentro do contexto cultural deste, mas que tinham letras mais comerciais ao invés das rimas características do rap. Hoje, em meio a uma sociedade globalizada e, por conseguinte, modernizada, cada vez mais recursos de produção musical foram empregados em todos os gêneros. No caso do rap, essa modernização deu origem a uma vertente que se popularizou muito, principalmente entre o público mais jovem, o trap. Esse ritmo é uma mistura de três elementos: batida de rap, música eletrônica e sons repetitivos.

Independência artística

Independente:  que ou quem não é dependente, age com autonomia, mantém-se livre de qualquer influência.

A aplicação desse conceito no contexto artístico remete a toda e qualquer obra produzida, editada e publicada pelo mesmo autor que foge às grandes massas, empresas ou distribuições. Com a ascensão da globalização, as tradicionais formas de se fazer arte foram reinventadas, principalmente após a chegada da internet.

Para artistas em geral, as mídias sociais, como Facebook, Twitter, YouTube e Instagram, servem como plataformas de divulgação de fácil acesso e utilização, além dos inúmeros programas e aplicativos dos mais diversos gêneros criados em quantidades cada vez maiores no intuito de facilitar as produções. É, portanto, válido destacar que o movimento artístico contemporâneo transcende as limitações de idade, nacionalidade, raça e sexualidade, – desconsiderando preconceitos ainda existentes -, em razão da disponibilidade e divulgação de obras em tempo real e em todo o mundo.

Na foto acima, Chance segura um de seus três Grammys conquistados, prêmio de maior prestígio da indústria musical em língua inglesa. Foto: reprodução

No caso do rap, a ascensão  de artistas independentes ocorre de forma abundante, visto que tal forma de produção tomou proporções mundiais, a exemplo de Chance The Rapper, premiado artista que obteve sucesso com suas produções indie.  Chance, 24, é hoje, um dos nomes de maior destaque no rap internacional. O fato de suas obras serem produzidas de forma independente é algo que despertou o interesse de gravadoras expressivas da indústria musical, porém, todas as ofertas foram recusadas pelo rapper.

O cenário musical do rap brasileiro não é diferente. Todas as regiões do país têm um número crescente de artistas que produzem seus próprios trabalhos, cada um com suas respectivas peculiaridades e notoriedades. Esse é o caso de Rodrigo Vieira, conhecido popularmente por seu nome artístico, MC Marechal, uma das principais referências atuais quando se trata de rap brasileiro. A música abaixo, Espírito Independente, é uma produção que fala de aspectos relativos ao próprio artista e, em especial, sobre sua independência artística.

 

O rap Baiano de um “cearense”

Gil Santos, 20, conhecido por seu nome artístico, Baiano, é um músico natural de Salvador, Bahia, mas que iniciou sua trajetória no rap em 2014, no Ceará. Apesar do curto tempo de carreira, Baiano alcançou rápido destaque no cenário cearense. Ele é conhecido pelos diversos colegas artistas do estado, de maior ou menor expressão, por suas produções, beats, ou músicas próprias.

Foto: reprodução

Baiano produziu alguns trabalhos em boom bap (estilo de rap tradicional), mas caracteriza sua música como, essencialmente, trap. Abusa de rimas multi-silábicas (técnica que faz uso de palavras que se pareçam e que tenham a mesma pronúncia, mas significados diferentes) e metáforas,  seja em seus trabalhos solo ou nas músicas de seu grupo de rap, Ouro Preto.

Além de demonstrar seu amor pela cidade natal em seu nome artístico, Baiano não deixou de fazer jus a Salvador no que diz respeito a relações interestaduais. Gil mantém contato com artistas baianos e, no dia 14 de outubro, realizou seu primeiro show no estado, como integrante da Ouro Preto:

Confira a entrevista no player abaixo:

“Eu perdi a conta de quantas vezes eu fiquei com fome pra atravessar a cidade pra me apresentar e não ter um gole d’água lá pra mim.” (Baiano)

A força da mulher no rap

Iasmim Queiroz é exemplo de transcendência de limites como gênero e idade. Estudante, iniciou sua trajetória na música em 2017, porém, apesar de pouco tempo no cenário musical e de sua idade, 15 anos, demonstra imensa inteligência e convicção em suas rimas, tratando de temáticas como política e feminismo.

O vídeo abaixo faz parte de uma série intitulada “LiricaMente“, que tem como objetivo divulgar poesias de diferentes talentos cearenses​ e movimentar a arte do estado. A artista foi a primeira mulher a participar do projeto.

 

Iasmim tem Mariana Mello, Froid, MV Bill e Síntese como referências, nomes conhecidos por transmitirem mensagens impactantes em suas canções. A jovem artista concedeu uma  entrevista na qual disserta sobre temáticas que envolvem o rap:

Foto: reprodução

Jean Dantas: Você pretende fazer do rap sua fonte de renda ou o vê apenas como hobby?

Iasmim Queiroz: Eu costumo sentir e verbalizar a definição do rap como um tiro que impulsiona o viver. Ele vem e toma toda sua percepção de mundo, efetiva sua consciência social e aniquila emocionais abalados pelo sistema mal desenvolvido.

J.D: Afinal, é possível viver trabalhando somente com rap no Ceará?

I.Q: É possível viver trabalhando de rap em qualquer estado. O que difere é o nível de visibilidade que se pode conquistar, e isso não é sua localização geográfica que define, mas sim seu talento, seu foco e determinação no sonho. E isso não é só com o rap, é com todo e qualquer tipo de gênero musical.

J.D: A seu ver, quais as principais dificuldades que um artista enfrenta ao produzir um trabalho independente?

I.Q: Apoio, que se mescla com a ideia de imagem. O apoio vem da imagem, o que compõe a imagem literal, são as características. Ainda não entenderam que artistas são estranhos, sofredores, completamente estranhos. Colocam o artista na definição do alternativo, mas esquecem que alternativo também quer dizer diversidade. E é muito difícil trabalhar quebrando padrões, é dolorido, cansativo, muitas vezes parece não valer a pena o sacrifício.

J.D: Como você avalia o cenário musical cearense atual? Você recebe muitas oportunidades?

I.Q: O cenário cearense atual é diversificado, mas me agrada de todas as formas e faces. É a minha terra, todo o meu sangue e orgulho. As oportunidades vêm, eu comecei agora, esse ano. Mal tive tempo de viver e respirar a música. Só senti o seu baque e com minha novíssima imaturidade, tive que me recolher pra assimilar tudo isso, que foi encontrar o meu sentido da vida. Não é algo comum. Mas sim, o Ceará é um lugar de grandes oportunidades para crescimento. Só procurar.

J.D: Dentro do contexto musical e artístico, já vivenciou algum tipo de preconceito por ser mulher?

I.Q: Respondendo essa pergunta retórica eu dou risada. A mulher é o proletário do proletário. A cada 10 oportunidades de trabalho que eu era convidada, por exemplo, ao menos 8 se mostravam propostas de cunho diferenciado. Então sim, já sofri e sofro. Até porque, se eu não “quisesse” sofrer preconceito, era melhor ter pedido pra não nascer mulher.

J.D: O empoderamento feminino é um dos tópicos de maior relevância na sociedade contemporânea. Como você avalia essa questão dentro do rap brasileiro?

I.Q: Eu, particularmente, não assimilo tanto meu trabalho, opiniões, posicionamentos políticos etc, com a palavra “empoderamento”. Resumiram anos de protestos sociais em apenas uma palavra e ainda dizem que é luta. “Empoderar-se”, dar poder à si. Pra quê? Pra quem? Trabalhar a auto estima? Sim, mas assistência psicológica tá aí pra isso. Exercer essa palavra nos dias de hoje é algo muito perigoso. Toda essa visibilidade para o movimento pós moderno, para o neo-liberalismo emergente nessa esquerda caviar se tornou algo sujo. Para mim, tô fora. E, no rap, mulheres anunciam a força e o poder, nós não trazemos o poder pra si, como no empoderamento, porque ele já reside em nós.

J.D: Como você enxerga a questão da representatividade feminina no rap brasileiro?

I.Q: Escassa. O mc homem que canta do meu lado não sabe o que é chegar num ambiente predominantemente masculino, para fazer algo que predominantemente homens fazem e ter a segurança que predominantemente apenas homens têm. É o mesmo desconforto de um negro em ambientes embranquecidos. A falta de representatividade traz solidão. Mas também pode trazer força para que nós sejamos o início do progresso. Afinal, a glória tem de começar por algum lugar.

J.D: Quais são os seus projetos atuais e suas metas para o futuro?

I.Q: Eu só quero gravar minhas músicas. Sonho muito em um dia ter minha banca. Saber que o cara que fez meu beat é meu amigo, que coloca fé no meu trabalho e acredita no meu potencial. Que assim, por essa intimidade, eu possa fazer um trabalho genuíno e com amor. Que o meu produtor seja verdadeiro em cuidar das minhas produções, etc. Mas acima de tudo, seria bem mais prazeroso conseguir fazer isso sozinha (difícil, mas não impossível) ou ao lado de grandes mulheres.

Confira a matéria editada por Jean Dantas no link abaixo:

Rap Independente do Ceará

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