Como se fosse possível apagar memórias

Por Luiza Ester

Uma vez, quando criança, me disseram: “as estrelas no céu são pessoas queridas que já faleceram”. Durante muito tempo pensei que elas, mesmo mortas, não perdiam sua luz. Descobri, depois, que não era bem assim. Mas essa história, iniciada por uma ilusão, pode facilmente traduzir o amor no filme “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças” (2004). Poético, instigante e fora do padrão, o longa retrata a história de dois jovens que se conheceram em uma viagem de trem em Nova Iorque. Ao decorrer do encontro, descobrem ter sido namorados e apagados da mente um do outro. Pode até parecer contraditório, mas é um filme para guardar, com carinho, na memória.

Cena do filme. Foto: Reprodução

Para Clementine Kruczynski (Kate Winslet), foi fácil eliminar Joel Barish (Jim Carrey) de todas as suas lembranças. Ele, ao descobrir que sua namorada investiu em um procedimento científico para apagá-lo, decide também fazê-lo. A complexidade aparece quando Joel, no meio do procedimento, tenta desistir. As memórias, mesmo tendo sido devastadas – por hora – pelos conflitos de um relacionamento conturbado, não podem morrer. O brilho deve ser eterno. O filme, dirigido por  Michel Gondry e escrito por Charlie Kaufman, se passa na maior parte do tempo dentro da mente de Joel, durante o tal experimento.

Exatamente como o amor é. Na obra e na vida. A ordem com que a história é apresentada ao público pode ser, para muitos, confusa. Contudo, envolve o sentido mais real dos relacionamentos: um turbilhão de emoções. As diferenças do casal mostram como amar está além de frases românticas e de uma convivência perfeita. O roteiro de “Brilho eterno”, como é comumente chamado, está longe de ser linear. Em verdade, surpreendente é a palavra certa. Por isso, se contar demais estraga. O que interessa são os sentimentos que ele desperta.

Assistir ao drama de ficção científica é permitir-se repensar sobre as certezas absolutas, o modo como se lida com relacionamentos e, principalmente, a vida. Como em uma frase do filme, “feliz é a inocente vestal se esquecendo do mundo e sendo por ele esquecida. Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Toda prece é ouvida, toda graça se alcança”. Deixar com que as lembranças continuem brilhando e tornar os momentos a essência da vida, como a inocência de acreditar em certas histórias ouvidas quando criança. Resguardar as experiências, mesmo as ruins, pois tudo tem um porquê.

 

FICHA TÉCNICA:

Direção: Michel Gondry

Roteiro: Charlie Kaufman

Ano de produção: 2004

Duração: 125 min

Gênero: Drama/Ficção Científica/Romance

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