Fotógrafo de guerra, André Liohn, relata suas visões e experiências sociais

Por Luiza Ester

O que era para ser um relato sobre a vivência de um fotojornalista durante suas coberturas de conflitos, acabou se tornando um debate sobre convicções. Em palestra realizada na manhã de hoje (15), na Universidade de Fortaleza (Unifor), André Liohn abordou como certezas absolutas podem influenciar decisões. Ele comparou a violência do Brasil e a guerra civil da Líbia. Mais do que isso, disse que ainda é preciso desconstruir visões, como a de que o Brasil vive uma “guerra velada”.

Para Liohn, “a guerra tem uma dimensão muito maior”. Nela, não há possibilidade de diálogo. Comparar o que o Brasil sofre com uma guerra civil é, segundo ele, afastar a realidade. A sua função, enquanto fotógrafo, é melhorar os argumentos para pessoas formularem suas questões e perspectivas de mundo. “O meu papel é esse. Eu me inspiro pra falar as coisas que eu falo a partir da minha experiência própria de vida”, alega o primeiro fotógrafo latino-americano a ganhar o prêmio Robert Capa, um dos mais importantes reconhecimentos da fotografia do mundo.

“A guerra tem uma dimensão muito maior” (André Liohn)

Revogo

O fotógrafo André Liohn expõe sua mostra Revogo. Foto: Juliano Almada

O fotógrafo expôs seus trabalhos sobre a guerra civil da Líbia e a mostra “Revogo”, que mostra a violência em todas as regiões do Brasil. Ao projetar fotos e vídeos dessas duas realidades, tentou instigar o público a questionar. De acordo com ele, “Revogo” tem origem do ato de “revogar as certezas”. “Toda vez que alguém fala ‘tem guerra’, é preciso questionar. Se a gente permite que o pensamento aconteça como acontece… Se nós formos usar métodos de guerra para solucionar o que tem aqui [Brasil]… Esse é o preço que nós vamos ter que pagar [destruição generalizada]”, opina.

Nas fotos projetadas, um menino de 10 anos segurando uma arma, uma garota semi-nua agachada e apalpada por homens em um baile funk, uma mãe assistindo TV e fumando crack enquanto deixa o filho recém-nascido no sofá, policiais carregando uma cabeça e um corpo – separados – depois de uma investigação. Sem expor os lugares onde as imagens foram realizadas, André Liohn diz “evitar a ideia de que aquilo só tem lá”. Em outras palavras, tal representação, exposta sob a ideia de um lugar específico, não tem importância. Tudo é Brasil.

O interessante é o fato  de que os corpos, no Brasil, não pertencem aos cidadãos completamente. Eles servem para tirar as pessoas do anonimato. Liohn afirmou ser anarquista, à favor da descriminalização das drogas e da legalização do aborto. Para Lucas Rosa, 20, estudante de Cinema, “foi uma das melhores conversas que já assisti. O mais legal é que não foi uma palestra sobre os aspectos técnicos da fotografia, e sim sobre o significado chocante por trás de cada quadro capturado”.

“Foi uma das melhores conversas que já assisti. O mais legal é que não foi uma palestra sobre os aspectos técnicos da fotografia, e sim sobre o significado chocante por trás de cada quadro capturado” (Lucas Rosa)

Realizar

“O que me interessa não é o ato, mas o conceito por trás disso”, diz o fotógrafo. Segundo Liohn, as certezas vividas pelas pessoas das periferias vem de um amadurecimento precoce desde crianças. “Se você tem acesso aos bens de consumo, você é estimulado a amadurecer cada vez mais tarde”, opina. De certa forma, é isso que acontece nas guerras, pois a expectativa de vida é menor, de acordo com ele.

“O fotojornalismo atravessa os tempos e as culturas”, diz Liohn. Ele relata apenas mostrar o que precisa ser visto, independentemente de religião, partido, classe ou até do termo ativismo. “É porque tem que fazer”, afirma. Para Lara Silva, 19, estudante de Jornalismo, “o André trouxe uma nova visão para mim, mostrando que existe muito mais vida e coisas acontecendo que diferem do ambiente em que estou inserida”.

“O André trouxe uma nova visão para mim, mostrando que existe muito mais vida e coisas acontecendo que diferem do ambiente em que estou inserida” (Lara Silva)

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