Assédio sexual no trabalho afeta saúde das mulheres

Por Lia Bruno

Para quem nunca passou pela situação de sofrer assédio, é difícil imaginar como alguém aguenta a situação calada. Porém, essa é uma questão mais complexa do que a maioria das pessoas pensam. Segundo um estudo feito em 2017 pelo jornal da BBC, mais de 50% das mulheres sofreram assédio no trabalho. Dentre esse número, em 63% dos casos, as vítimas recusam expor seus agressores por medo de retaliação. Para Mariana (nome fictício), uma gerente de lojas que foi assediada por seus colegas de firma, isso não foi diferente.

Tudo começou quando as investidas de um colega de sala ultrapassaram as barreiras de um simples flerte. “Eu aguentava aquilo, pois achava que era brincadeira, até que um dia ele tocou na minha genitália e fez comentários maliciosos sobre mim”, conta Mariana. Disposta a dar um ponto final naquela situação, ela resolveu relatar o ocorrido a seu superior. “Ele disse que eu deveria resolver sozinha. E nenhuma atitude foi tomada”, relembra. O fato de ter denunciado o assédio não impediu que as investidas do colega parassem. Pelo contrário, Mariana percebeu que aquilo não interferira em nada na imagem de seu agressor. “Pelo contrário, as pessoas, principalmente os homens que trabalhavam comigo, passaram a me tratar de forma diferente e faziam piadas como se eu fosse a culpada por tudo”.

“As pessoas, principalmente os homens que trabalhavam comigo, passaram a me tratar de forma diferente e faziam piadas como se eu fosse a culpada por tudo” (Mariana)

Com o passar dos meses, as coisas só pioraram para a jovem. “Uma vez ele me seguiu até o banheiro e tentou me beijar à força”, conta. Novamente, ela relatou o incidente a seus superiores, mas nada foi feito. Mesmo assim, ela tentou não deixar isso afetar seu trabalho, e, no meio de toda essa confusão, foi nomeada funcionária do ano. “Fiquei chocada, na verdade. E certamente não esperava”, disse Mariana ao lembrar-se do prêmio. Para ela, aquilo a fazia se sentir “culpada” por reclamar de seus colegas. “Parecia uma  psicologia reversa. Era como se eles tivessem me dado o prêmio para que eu parasse de reclamar”, explica.

Consequências

Vítimas de assédio, muitas vezes, ouvem coisas como “Você não sabe levar nada na brincadeira?” ou “Você é muito sensível”, o que acaba tornando-as confusas sobre a realidade daquele cenário. E foi exatamente isso que aconteceu com Mariana. “Depois disso eu me tornei uma pessoa nervosa e insegura, tinha crises de ansiedade constantes e desconfiava de tudo”, conta. Após um ano no cargo e não aguentando mais a situação em que se encontrava, Mariana finalmente teve coragem para tomar a maior de suas decisões: pedir demissão. “Eu ainda tentei ficar por mais um tempo, mas acabei não aguentando aquela situação”, explica.

Assim como Mariana, uma grande parte das mulheres que sofrem ou já sofreram assédio no trabalho passaram a lidar com traumas psicológicos, após terem sido vítimas, de acordo com um estudo feito pela Universidade do Texas, nos EUA. Os pesquisadores descobriram também que, entre as 2.000 mulheres entrevistadas, uma a cada cinco disseram ter sido vítimas de assédio sexual no local de trabalho.

Muitas mulheres sofrem o assédio caladas. Foto: Reprodução.

Para a psicóloga clínica Thereza Diógenes, por estarem em um ambiente predominantemente dominado por homens, as mulheres assediadas acabam se sentindo inseguras em denunciar e, consequentemente, sofrem caladas. “Elas terminam descontando isso em comportamentos auto-destrutivos, o que piora ainda mais a situação”, completa. Segundo a psicóloga, outro problema que as mulheres enfrentam é a difícil decisão de desistir do emprego ou aguentar os assédios para não perder o cargo. “É muita coisa para uma pessoa aguentar. Procurar ajuda psicológica é, com certeza, uma forma de tentar superar”, esclarece Thereza.

Denúncia

Assim como uma grande parte das mulheres, Mariana escolheu o silêncio e preferiu não denunciar seus agressores. Porém, para o advogado criminalista Romário Rocha, é importante a vítima lembrar que ela não está sozinha. “Por esses agressores estarem sempre em um cargo mais alto e terem uma certa influência, elas acreditam que a denúncia não irá adiantar muita coisa e esse é o maior erro delas”, explica.

Segundo o advogado, a primeira ação da vítima é entrar com um boletim de ocorrência contra o agressor, seguido de uma ação na justiça. Contudo, ele explica que, por causa da dificuldade em provar o assédio, muitas pessoas, infelizmente, não conseguem levar a denúncia adiante. Entretanto, esse tipo de crime aceita como provas gravações que podem ser feitas até mesmo pelo celular da vítima. “É importante que as vítimas saibam que os processos de assédio vêm ganhando representatividade com precedentes favoráveis e que vale a pena, sim, denunciar”, garante.

Sem dúvidas, denunciar o assédio é muito importante e os passos para enfrentá-lo é deixar de considerá-lo um tabu e enxergá-lo como uma terrível violência contra a mulher. Para Romário Rocha, a vítima deve saber que ela não pode sofrer sozinha e que existem leis e recursos a seu favor. Segundo o advogado, o assédio é mais um dos problemas a serem enfrentados por elas no decorrer da construção de sua autonomia e identidade.

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