Seu Gabriel, o homem de branco com alma colorida

Por Lígia Grillo e Luiza Ester

“Se você não é útil à comunidade, você se torna um inútil na vida”, esse é o lema do poeta e livreiro Gabriel, 82, amigo de todos e querido por toda a comunidade acadêmica. O que faz uma pessoa ser lembrada? Para seu Gabriel, basta um livro. Entre os mundos que a leitura proporciona, o homem de branco escolheu viver em um colorido. A relação com os alunos, os funcionários e a natureza da Universidade de Fortaleza (Unifor), local onde trabalha há mais de 40 anos, fazem do carismático senhor um exemplo de bondade e inspiração.

“Se você não é útil à comunidade, você se torna um inútil na vida” (Seu Gabriel)

“Eu recordo sempre os amigos de infância, que estão nos corredores da saudade”, diz Gabriel José da Costa. Crescido em uma geração de influência francesa, o livreiro afirma cultuar o passado, a memória, o bem querer e o sentimentalismo. Por isso, lembra com carinho os passos de sua vida. Seus caminhos começaram a ser traçados em 1934, na cidade de Recife, Pernambuco. Quando mais novo, estudou em seminários católicos, presbiterianos e jesuítas. Nesse período, já havia adquirido o hábito de ler todos os dias, o dia todo.

Quem vê seu Gabriel pelo campus da Unifor nota que ele está sempre de branco, hábito de uma antiga tradição de sua família, em que o membro mais velho deve usar as vestimentas dessa cor. Contudo, não imagina que aquele senhor pernambucano, que era vendedor de cereais, já foi preso. Inclusive, foi por esse motivo que, em 1970, se mudou para Fortaleza. “Eu fui preso pelo exército em 1964, por questões de ideologia política. Logo em seguida, perdi o emprego e tive que ganhar dinheiro, aí vim pra cá [Fortaleza]”, conta. Em sua terra natal, fundou bibliotecas em diversos pontos de sua comunidade, o que serviu como motivo para a sua prisão, já que na época elas estavam sendo queimadas.

Vendedor de sonhos

Seu Gabriel em sua livraria. Foto: Lígia Grillo

Foi na capital do Ceará que seu Gabriel criou raízes e começou a vender livros. Ele considera uma “coincidência histórica” a Unifor ter começado seus primeiros trabalhos em torno do mesmo período, em 1973. “Eu comecei vendendo livros em cima de uma mesa, em frente à Reitoria. Durante algum tempo, enfrentando sol e chuva com um guarda-sol de praia. Um dia, o fundador Dr. Edson Queiroz passou e me disse para escolher uma sala”, lembra com carinho quando passou a vender os livros no Bloco B, no campus da Universidade.

Quando o Dr. Airton Queiroz assumiu a administração da Unifor, seu Gabriel ganhou espaços no Bloco J e, logo depois, sua loja. A “Livraria Gabriel” permanece perto do bloco K e do Centro de Convivência da universidade. Mesmo depois de muito tempo, ele diz permanecer com a mesma essência. Além de facilitar a compra dos livros, seu Gabriel os empresta quando o aluno não pode comprar.

Com 44 anos de trabalho na Universidade, seu Gabriel mantém um bom relacionamento com os alunos, os funcionários, a natureza e os animais. “Aqui na Unifor tem a convivência pacífica da natureza com os humanos. Nós temos uma fauna gigante que convive aqui dentro. Os humanos respeitam a fauna e a fauna respeita os humanos”, conta. Mesmo depois de tanto tempo, chegando na universidade às 7h e saindo às 23h, o amor pelo que faz parece estar longe de acabar. Ele diz que estar na Unifor “é viver em um mundo mágico”.

Quem vai à Livraria Gabriel a procura de um livro, acaba voltando de lá não só com o material de estudo, mas com um novo amigo. O legado deixado pelo poeta são sete filhos, 17 netos e quatro bisnetos. Como, também, o exemplo da bondade e do amor para todos que o cercam. Histórias de momentos engraçados, revelações para o futuro, a saudade de amigos do passado e muita poesia. Tudo isso você pode conferir no vídeo abaixo, em um relato emocionante de um  livreiro apaixonado pela vida.

 

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