“Não se pode odiar em nome de Deus”

Por Clara Menezes e Letícia Feitosa

O Brasil é o segundo país com mais cristãos no mundo, segundo dados de 2016 do Pew Research Center, um centro de pesquisa dos Estados Unidos. O cristianismo faz parte do cotidiano de boa parte da sociedade brasileira e está presente, inclusive, na  política do país. A Frente Parlamentar Evangélica, conhecida por bancada evangélica, é composta por um conjunto de políticos de partidos distintos que se opõem a temas liberais, como a legalização do aborto, o casamento de pessoas do mesmo sexo e as igualdades racial e de gênero. Porém, apesar da expansão do cristianismo no Brasil, há grupos dentro da comunidade cristã que contrariam as ideias conservadoras pregadas por parte destas igrejas.

Valéria Vilhena, teóloga e feminista. Foto: Junior Lago.

Entre os principais grupos que apoiam ideologias mais liberais, estão “Cristãos de Esquerda” e “Evangélicas pela Igualdade de Gênero”. Essas duas páginas no Facebook reúnem aproximadamente 26 mil curtidas. Para entender sobre a aparente divergência de ideologias, o Jornalismo NIC conversou com a teóloga e feminista, Valéria Vilhena, 46, uma das fundadoras do grupo “Evangélicas pela Igualdade de Gênero”:

JornalismoNIC: Como surgiu interesse para esse tipo de posicionamento?

Valéria Vilhena: Na realidade, não surgiu assim da noite para o dia. Eu também entendo que não é um interesse. É mais do que isso – diz respeito à vida das mulheres, suas experiências de fé e também de sujeitos sociais. Penso ser um processo que ainda está em construção. Isso porque nos posicionamos feministas cristãs, e o movimento feminista é tanto uma leitura crítica das estruturas sócio-culturais como também é o movimento de mulheres e, ambos, estão inseridos no contexto maior, que é o histórico. Neste sentido, as mulheres evangélicas da Evangélicas pela Igualdade de Gênero (EIG) sentem-se oportunizadas neste momento histórico. Muitas delas conheceram, pela primeira vez, o feminismo sem que ele não seja demonizado pelos homens de suas igrejas.  As mulheres que fazem parte da EIG, em sua maioria, “nasceram” do protestantismo, inclusive de igrejas evangélicas pentecostais conservadoras. A maioria aprendeu a reproduzir o conservadorismo por crer que estavam fazendo o correto, o melhor, porque era o próprio Deus quem solicitava. É assim que acontece. É preciso levar em consideração que a intenção de muita gente da igreja é de agradar a Deus. É de obedecer a Deus e não a homens. É uma construção de sentidos, entende? No entanto, não é uma construção sem questionamentos, sem pensar, sem tensões, porque são relações de poder, hierárquicas, das quais as mulheres estão em desvantagem nas igrejas, especialmente às meninas mais novas. Elas nasceram em um mundo digital, no qual a informação é produzida e reproduzida muito rapidamente tanto para o bem quanto para o mal.  

JN: Quais os principais objetivos do grupo?

VV: Procuramos, a partir do FPLC (Fórum Pentecostal Latino-Americano e Caribenho), nos pautar sobre os três desafios propostos pelo próprio Fórum: desafio institucional, desafio teológico e desafio social. A EIG ressignificou, especificamente para as mulheres, tais desafios e compreendeu como objetivos a serem seguidos. Por exemplo, o desafio institucional seria especialmente para refletir sobre as relações de poder, as estruturas eclesiásticas hierárquicas e maior participação das mulheres na igreja. Já sobre o desafio teológico, a EIG sempre trabalha na aproximação dos avanços teológicos da academia para o seio das igrejas. O grupo faz isso, especialmente, a partir da teologia feminista. No terceiro objetivo, o social, as mulheres evangélicas precisam se ver como sujeitos sociais, que possuem demandas que necessitam de compreensão e discussão na sociedade, com responsabilidade social. É, também, um objetivo nosso despertar a consciência política-coletiva-social das mulheres evangélicas, criando possibilidades de diálogo sobre as questões de gênero, juventude, pobreza, violência, política, corrupção e saúde pública.

JN: Muitos grupos cristãos pregam ideais mais conservadoras. Como a postura de vocês é vista dentro da comunidade cristã?

VV: Por comunidades mais progressistas, somos vistas como um movimento importante para a Igreja e para a sociedade. Mas, para as igrejas mais conservadoras, somos vistas como rebeldes, desobedientes, desviadas e daí para pior. Penso que, como todo os demais grupos feministas em um país patriarcal, misógino, sexista, racista e sem consciência de classe, nós também sofremos. Porém, nós temos a dimensão religiosa, pois é a partir dela que atuamos. Portanto, os preconceitos são especialmente construídos ou baseados em uma leitura literalista da Bíblia. São xingamentos e ameaças, por exemplo, em nome de Deus. Isso é contraditório, porque Deus é amor e justiça, ou seja, Ele ama sem fazer acepção e, sobretudo ama o que é justo. Logo, Ele ama a igualdade sem anular a diferença e a diversidade. Então, nós lidamos com misericórdia, porque “não se pode odiar em nome de Deus”. Não se pode perpetuar desigualdades sociais e de gênero, violências e atrocidades em nome de Deus. Mas, eu preciso lhe dizer que nós recebemos muito mais apoio do que ódio e condenação. Essa é uma dimensão que precisa ser avaliada pela sociedade e demais grupos feministas. A base é muito mais complacente, misericordiosa, mais cristã do que, por exemplo, a bancada evangélica que diz representar os evangélicos. A maioria das nossas igrejas são compostas por mulheres trabalhadoras, pobres e negras. Portanto, os pastores que ostentam luxo, e a bancada evangélica que se aliou aos interesses das bancadas da bala e do boi não representam a maioria de suas igrejas. Portanto, precisamos ouvir essas mulheres evangélicas, quais são suas experiências de vida, de família, de amor, de aceitação e como são suas experiências com Deus. Que Deus é esse? Será mesmo que é esse mesmo Deus “da prosperidade” dos grandes líderes e políticos? Será mesmo que se tem experiências de vida com um Deus que aprova racismo, homofobia, e que não se importa com a vida das mulheres?

JN: O cristianismo está se tornando mais aberto a ideais mais liberais. Por que ele está precisando se adaptar a essa situação?

VV: Eu penso que a religião traz sentido de vida, logo ela não pode ser diferente da própria realidade, do cotidiano. Aqueles que vivem um cristianismo mais progressista entendem que a religiosidade precisa vir da base, do povo, da vida e das pessoas. Ela precisa oferecer alento, amorosidade, refletir vida e não morte. A religiosidade precisa levar em conta o corpo, especialmente os corpos das mulheres que foram tão negados em toda a história do cristianismo. É uma fé que vem das entranhas. Portanto, não é algo fora do dia-a-dia, das lutas por sobrevivência e justiça, por igualdade, pela vida das mulheres – é uma fé que combate todo tipo de violência.

JN: Como é, do seu ponto de vista, o futuro desses ideais mais conservadores?

VV: Sou esperançosa. Muitas mulheres evangélicas têm despertado e compreendido o dom da vida. Elas tem se posicionado como sujeito de sua própria história, como sujeito da história de suas comunidades, pela dignidade humana, e a fé tem lhes dado força para exigir seus direitos, como direitos humanos. É uma caminhada sem volta, que só aspira crescer em sororidade. São muitas mulheres pobres e negras, cheias de fé e de ânimo que lutam por suas vidas, pelos seus filhos e filhas. São mulheres que estão entendendo que a competição é tática de guerra, mas nós não estamos em guerra umas com as outras, queremos paz e igualdade. O que estiver fora desses ideias será enfraquecido pela força dessas mulheres que estão compreendendo por quem e o porquê de suas lutas.  

JN: Qual o papel de grupos como o de vocês neste debate de  ideias?

VV: Grupos como a EIG somarão força a outros grupos com estes mesmos ideais. Não queremos que nossa fé reja políticas públicas. Nossa fé é para ser vivida e não para ser imposta a uma sociedade plural. Nos somamos a outras mulheres de fé, mas também àquelas que não são religiosas, que também desejam a igualdade e o fim da violência contra as mulheres. É preciso que a bancada evangélica compreenda que políticas públicas devem ser feitas a partir das necessidades das pessoas, porque não somos nós que o servimos. São os políticos que devem nos ouvir e fazer valer as  respostas para as nossas necessidades, sem anular as diferenças, garantindo, de fato, a igualdade. É necessário que haja grupos assim para dizer a esses políticos que ninguém levanta cantando “tralalalala” e diz “hoje vou abortar, que maravilha!”. Não! Aborto é algo sério que traz consequências físicas e emocionais às mulheres. É uma decisão difícil que muitas mulheres só optam por necessidade. Não se trata de dizer sou contra ou a favor do aborto. A EIG compreende, sem medo de se posicionar, que aborto não pode ser mais tratado como caso de polícia, pois é ela quem é acionada no hospital quando uma mulher chega em situação de abortamento e o médico desconfia que foi provocado. Ali mesmo, ela é algemada.  Aborto deve ser tratado por política de saúde pública. É um momento doloroso, então, a mulher precisa de apoio médico e psicológico. Ela precisa ter alternativas, inclusive a de desistir do aborto. É um momento delicado e desesperador para muitas mulheres. É um momento de morte para muitas. Quando eu digo que políticos devem pensar, refletir e fazer política pública respondendo às necessidades do povo está aí um exemplo. As mulheres abortam e a legislação atual não impede isso, fato. As mulheres morrem por fazer abortos sem assistência adequada, fato. Então, o que nós, como sociedade, vamos fazer? Deixar morrer? Nós precisamos conhecer essas mulheres, ouvi-las. Vamos deixar que essas mulheres digam por que necessitam abortar e nos surpreenderemos com as respostas. Muitas dirão que foram abandonadas por seus namorados, companheiros, amantes ou até sido obrigadas a abortar por esses mesmos homens. Outras sofreram abusos e explicarão que não têm condições de criar outro filho porque já têm três ou quatro. Muitas se declararão cristãs e a maioria são pobres e negras. Elas estão em nossas igrejas, bem como muito dos possíveis pais. Esta é a realidade. E o que faremos diante da realidade? Viraremos as costas covardemente e irresponsavelmente e deixaremos estas mulheres morrerem? Não! Elas precisam decidir. Assim, como estamos observando em outros países, diminuiremos o alto índice de mortalidade entre as mulheres, bem como veremos o próprio índice de aborto diminuir. As mulheres sabem o que é melhor para elas e os políticos precisam ouví-las. Este delicado momento não pode ter uma política ou uma lei que a condene, mas que a acolha. Bom, penso que aí está um bom motivo para a EIG e outros movimentos de mulheres existir: para combater todo tipo de violência contra as mulheres, inclusive os perpetrados dentro das nossas igrejas.

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